POR QUE VOCÊ NÃO ME CUROU?

POR QUE VOCÊ NÃO ME CUROU_

Sou apaixonada pela série The Chosen e, entre tantas cenas que me marcaram, há uma da terceira temporada à qual retorno algumas vezes. É o diálogo entre Tiaguinho Menor e Jesus. Tiaguinho O segue, conhece seus ensinamentos e testemunha seus milagres. Ainda assim, continua convivendo com uma dolorosa limitação física. O conflito se torna ainda maior quando Jesus concede aos discípulos autoridade para curar outras pessoas. Diante disso, ele faz uma pergunta que talvez muitos de nós já tenhamos feito, ainda que com outras palavras: “Por que você não me curou?”.

Por que o Senhor não fez isso por mim? Por que não respondeu àquela oração? Como compreender que tenha curado o outro, aberto aquela porta, restaurado aquela história, enquanto, no meu caso, tudo pareceu permanecer no mesmo lugar?

No diálogo, Jesus chama a atenção de Tiaguinho para o fato de que ele já tinha visto o suficiente para saber que a cura era possível. O problema nem sempre é acreditar que Deus pode. Muitas vezes, sabemos que Ele pode. Olho para minha própria história e reconheço quantas vezes fui sustentada, quantas providências chegaram e quantas respostas surgiram de maneiras que eu jamais conseguiria produzir sozinha. Tenho memória suficiente para saber que Deus age.

Quando Deus se torna uma relação de troca

Quando olho para minha caminhada, reconheço quantas vezes me relacionei com Deus a partir daquilo que Ele poderia fazer por mim. Sem perceber, podemos construir uma espécie de contabilidade espiritual. Somamos orações, novenas, renúncias e fidelidades e esperamos que Deus corresponda. Quando uma graça chega, agradecemos e logo aparece um novo pedido. Quando não chega, porém, a lógica da troca se revela: “Mas eu pedi tanto”; “Eu fui fiel”; “Por que com ele e não comigo?”.

Vivemos orientados por resultados. Medimos desempenho, produtividade, reconhecimento, retorno. Acostumamo-nos à ideia de que todo investimento precisa produzir alguma recompensa e corremos o risco de transportar essa mentalidade até para nossas relações. Inclusive para Deus.

Mas uma relação sustentada apenas pelo que o outro pode me oferecer não é intimidade.

Intimidade é conhecer

Falamos muito em ter intimidade com Deus, mas o que isso realmente significa?

Intimidade não é apenas sentir sua presença, experimentar consolações ou receber respostas. Intimidade pressupõe conhecimento. E existe uma diferença entre conhecer algo sobre alguém e verdadeiramente conhecer alguém.

Podemos conhecer a doutrina, rezar, ler as Escrituras, frequentar a Igreja e saber muitas coisas sobre Deus sem necessariamente conhecer seu coração. No Evangelho de João, Jesus diz: “A vida eterna é esta: que eles te conheçam” (Jo 17,3). No centro da experiência cristã existe uma relação.

Talvez conhecer o Pai signifique também construir memória com Ele: recordar quem Ele foi quando não tínhamos forças e como nos sustentou quando não compreendíamos.

Nas relações humanas mais íntimas acontece algo semelhante. Quando conhecemos profundamente alguém, não julgamos toda a sua história a partir de um único gesto. 

Em minha experiência, compreendi que amadurecer na fé também significa deixar de interpretar quem Deus é somente a partir daquilo que Ele está fazendo agora ou de tentar adivinhar como Ele agirá com base nas experiências anteriores. Conhecer Deus não significa tentar decifrar seus próximos passos.

Intimidade não significa não ter perguntas. Podemos dizer que estamos frustrados, que esperávamos outra coisa, que não compreendemos. A diferença é que já não perguntamos diante de um estranho cuja bondade precisamos testar, mas diante de um Pai cujo coração aprendemos a conhecer.

E se a cura não vier?

Jesus faz Tiaguinho perceber a força que existiria em um homem com uma limitação sendo enviado para curar outras pessoas: “Um homem como você curando os outros… que visão!”.

Gostaríamos que a vida obedecesse a outra lógica: primeiro Deus me cura, depois me envia; primeiro resolve minhas fragilidades, depois me usa; primeiro retira minhas limitações, depois começo minha missão.

Mas nem sempre é assim.

Isso não significa romantizar o sofrimento. O cristianismo não exige que chamemos de bom aquilo que dói. O próprio Jesus pediu no Getsêmani que, se fosse possível, aquele cálice se afastasse dele. Podemos pedir cura. Podemos desejar que a cruz seja retirada. 

A questão é: quem Deus será para mim se o cálice não passar? E essa é uma das perguntas mais difíceis da vida espiritual.

Tiaguinho olhava para sua limitação e via aquilo que lhe faltava. Jesus enxergava uma história que ele ainda não conseguia ver. E talvez façamos o mesmo quando olhamos para nossas feridas. 

Mas deixe-me dizer uma coisa: nós vemos o fragmento. Deus vê a história inteira.

E, ao final daquele diálogo, a promessa: “Tiago, lembre-se: você será curado. É só uma questão de tempo”.

Que coisa linda! 

Que possamos aprender que confiar não é saber quando, como ou a maneira que Deus fará. É conhecer suficientemente Aquele em quem colocamos nossa confiança para continuar caminhando mesmo quando ainda não conseguimos enxergar a história inteira.

Que Deus abençoe você.

Érika Tartari
Consagrada Comunidade Católica Pantokrator

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