“Faze-te ao mar alto e lançai as vossas redes para a pesca” (Lc 5,4)

A experiência das redes vazias

O sol nasce como em qualquer outro dia. As pessoas seguem sua rotina, mas, dentro de alguns corações, existe uma noite que ainda não terminou. É a noite daquele que serviu, rezou, evangelizou e, ao final do dia, teve a dolorosa impressão de voltar para casa com as redes vazias.

Talvez você conheça essa sensação. Ela visita o sacerdote, a religiosa, o missionário, o pai e a mãe de família, o leigo comprometido… todos aqueles que disseram sim a Deus e descobriram que a santidade passa muito mais pela cruz do que pelos aplausos. Toda vocação, mais cedo ou mais tarde, atravessa a experiência das redes vazias.

Foi exatamente assim com os primeiros discípulos. Passaram toda a noite pescando. Eram homens experientes, conheciam o mar e fizeram tudo o que estava ao seu alcance. Ainda assim, quando o amanhecer chegou, nada haviam conseguido. Talvez a maior dor da vocação não seja trabalhar muito, mas trabalhar por amor a Deus e acreditar, em determinados momentos, que nada está produzindo frutos.

A obediência que abre caminho ao milagre

É justamente nesse momento que Jesus aparece. No Evangelho de São João, depois de uma noite inteira de trabalho frustrado, Cristo permanece na margem e pergunta: “Filhos, tendes alguma coisa para comer?” (Jo 21,5). A resposta dos discípulos foi simples: “Não”. Quantas vezes essa também é a nossa resposta? Não tenho forças. Não tenho alegria. Não consigo enxergar sentido.

Então vem a ordem que muda completamente a história: “Lançai a rede do outro lado da barca”. Humanamente, aquele pedido parecia estranho. O outro lado estava a poucos metros. Mas Jesus nunca esteve preocupado com o lado da rede. Sempre esteve interessado no lado do coração. O milagre nunca nasce da estratégia; nasce da obediência.

Quando a missão deixa de produzir as consolações que esperávamos, nossa primeira reação costuma ser abandonar o barco. Pensamos em deixar a comunidade, a pastoral, a missão ou até questionamos a própria vocação. Entretanto, Jesus não entrega um barco novo nem promete um mar mais calmo. Ele apenas pede que lancemos novamente a rede.

São João Paulo II resumiu esse chamado na expressão Duc in Altum – “Faze-te ao mar alto”. Não significa apenas ir mais longe, mas abandonar a superficialidade e confiar novamente quando tudo parece perdido. O mar alto é o lugar onde a fé deixa de depender dos resultados e passa a depender unicamente da Palavra de Deus.

Jesus jamais prometeu uma vocação confortável. “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (Lc 9,23). A cruz nunca foi um acidente da vocação; ela faz parte da própria vocação.

Os santos compreenderam isso. Santa Teresa de Calcutá atravessou décadas de aridez espiritual. São João da Cruz chamou essa experiência de Noite Escura da Alma. Santa Teresinha ofereceu seus sofrimentos pela salvação das almas. São Padre Pio suportou perseguições dentro da própria Igreja. Nenhum deles permaneceu porque tudo estava dando certo. Permaneceram porque conheciam Cristo.

Permanecer por amor a Cristo

Confesso que também já atravessei algumas noites assim. Houve momentos em que questionei se realmente estava no caminho preparado por Deus. Em certas fases da missão, parecia que todo esforço terminava da mesma maneira: redes vazias. Foi justamente nesses momentos que compreendi uma verdade que mudou meu coração: Deus nunca me chamou para contar peixes. Ele me chamou para lançar as redes.

Essa verdade ecoa nas palavras do Papa Bento XVI: “A Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração”. Não somos nós que convertemos os corações. Nossa responsabilidade é permanecer unidos a Cristo e lançar as redes sempre que Ele nos pedir.

Depois que encontramos verdadeiramente Jesus, nossos barcos ficam para trás. Podemos até fugir por algum tempo, como Jonas; negar o Senhor, como Pedro; ou nos afastar, como o filho pródigo. Mas a voz que um dia nos chamou continua ecoando no coração.

O próprio Pedro é a prova disso. Ao reconhecer Jesus na margem, não esperou o barco chegar. Lançou-se ao mar para encontrá-Lo (cf. Jo 21,7). Depois que conhecemos verdadeiramente a Cristo, deixamos de caminhar por causa dos milagres ou das consolações. Caminhamos por causa d’Ele.

O maior milagre daquela manhã não foi a quantidade de peixes. Foi descobrir que Jesus nunca havia deixado a margem. Enquanto os discípulos lutavam durante toda a noite, Cristo já preparava o fogo, o pão e o peixe para recebê-los.

Se hoje suas redes parecem vazias, se você pensa em desistir da missão ou da vocação, escute novamente a voz do Mestre. Faça-se ao mar alto. Lance outra vez as redes. Os frutos nunca dependeram das suas mãos. Pertencem Àquele que chamou você pelo nome.

Quem um dia encontrou verdadeiramente o olhar de Cristo pode atravessar noites escuras, suportar tempestades e voltar inúmeras vezes com as redes vazias. Mas jamais conseguirá viver longe do Sol que um dia iluminou toda a sua existência.

NOTA DO AUTOR

Este artigo nasceu de um momento muito simples de oração. Enquanto dirigia, ouvi o louvor “Não Pare”, interpretado por Midian Lima. Embora pertença à tradição cristã evangélica, sua mensagem despertou em mim uma profunda reflexão sobre minha própria vocação e sobre as muitas vezes em que, assim como os discípulos, tive a impressão de voltar à margem com as redes vazias.

A Igreja nos ensina a discernir todas as coisas à luz de Cristo e do Seu Magistério. Naquele momento, foi exatamente isso que experimentei. Enquanto escutava aquela canção, o Senhor me conduziu ao Evangelho das pescas milagrosas, ao convite de São João Paulo II para fazermo-nos ao mar alto e ao testemunho dos santos que perseveraram mesmo quando tudo parecia estéril.

Se, em algum momento da sua caminhada, você também sentir que suas redes voltam vazias, não tome isso como um sinal de que Deus o abandonou. Talvez seja justamente o instante em que Cristo esteja esperando, à margem da sua história, para repetir: “Faze-te ao mar alto”.

Denis Dias

Postulante na Comunidade Católica Pantokrator

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