Maternidade espiritual, um precioso dom de Deus

Maternidade espiritual

A maternidade faz parte da missão da mulher. Toda mulher é chamada a ser mãe. Mas sua essência vai muito além do âmbito biológico. De fato, na espiritualidade cristã, toda mulher é chamada a viver a maternidade espiritual, uma missão que transcende a geração física de filhos, alcançando todas as formas de cuidar, nutrir e gerar vida no coração das pessoas. É uma maternidade que se manifesta no amor e no serviço, refletindo o cuidado de Deus por Seus filhos. 

A Virgem Maria é a perfeita inspiração, pois foi virgem, mãe e esposa. Com sua entrega total a Deus, ela foi agraciada com o dom e a responsabilidade de ser Mãe do Senhor e, na ordem da graça, Mãe de toda a Humanidade.  Sua vida exemplar, marcada por virtudes como a humildade, a docilidade, a paciência, a serenidade, a fé inabalável, a obediência à vontade de Deus e o amor incondicional pelo próximo, serve como inspiração para todas as mulheres, chamadas que são a exercer a maternidade espiritual.

Viver esse novo tipo de paternidade ou maternidade é a missão mais alta de toda pessoa. Assim como o Livro do Gênesis sublinha a vocação à paternidade e à maternidade físicas (cf. Gn 1,28), poderíamos dizer que os primeiros discípulos de Jesus, herdeiros de um novo gênero humano a partir da Ressurreição do Senhor, foram chamados a uma nova paternidade e maternidade em Cristo. 

Os cônjuges recebem essa fecundidade especialmente através da graça do matrimônio, mas não somente aí. Com o Espírito Santo e os outros Sacramentos, dispõem sempre de luz e força nova para cuidar um do outro e para educar os filhos, nutrindo-os com a vida de Deus. Aqueles que não têm filhos devem descobrir essa fecundidade e inflamar o amor de Deus em pessoas e lugares que talvez nunca tivessem imaginado.

Celibato e maternidade espiritual

É também o próprio Espírito Santo que concede uma graça especial às pessoas solteiras que receberam o dom do celibato: imitam a vida de Cristo no modo particular e especial de cuidar e de dar a vida espiritual a tanta gente.

O celibato é a decisão pela virgindade definitiva, não por obrigação ou porque era a única opção disponível, mas por amor ao Reino dos Céus. Trata-se de um chamado específico. Essa realidade, que não era tão comum até a vinda do Senhor, ganha sentido com a Encarnação do Verbo. 

São Gregório de Nissa (330-395) afirma que o motivo pelo qual Jesus era celibatário era precisamente porque Ele vinha ao mundo não para gerar filhos nascidos do sangue ou da carne (cf. Jo 1,13), e sim para nos dar a vida sobrenatural, tornando-nos filhos de Deus. 

Com a vivência da castidade perpétua, a mulher abre mão da possibilidade do matrimônio e escolhe livremente dedicar-se exclusivamente a Deus. Aqui, ela se torna esposa de Cristo e antecipa o que toda a Igreja vai viver na eternidade. O casamento é uma realidade deste mundo e permanece até que a morte separe o casal. Na eternidade, na visão beatífica, todos seremos celibatários, pois o nosso olhar, o nosso espírito estará totalmente voltado para a contemplação amorosa de Deus. 

O Papa São João Paulo II, na Carta Apostólica Mulieris Dignitatem (1988), destaca que não é possível compreender a consagração da virgindade sem olhar para o amor entre esposos. Ele também ressalta que o celibato não é um simples ‘não’, mas um profundo ‘sim’: “Na virgindade livremente escolhida, a mulher se confirma como pessoa, isto é, como criatura que o Criador, desde o início, quis por si mesma, e contemporaneamente realiza o valor pessoal da própria feminilidade, tornando-se ‘um dom sincero’ para Deus que se revelou em Cristo, um dom para Cristo Redentor do homem e Esposo das almas: um dom ‘esponsal’”.

Dessa união com Cristo brota o chamado à maternidade espiritual. Desse modo, a consagrada irá cuidar do Esposo, bem como de Seus filhos, ou seja, da Humanidade. E isso só é possível devido à doação total a Deus. Assim, o amor esponsal transborda, já que a mulher não precisa restringir o cuidado a apenas uma família física, mas o estende a toda a família espiritual.

No mesmo documento, São João Paulo II nos diz: “Uma mulher consagrada reencontra desse modo o Esposo, diverso e único em todos e em cada um, de acordo com as Suas próprias palavras: ‘tudo o que fizestes a um destes … a Mim o fizestes’ (Mt 25, 40)”.

 O chamado a ser mãe espiritual abraça, assim, de um modo todo especial, as pessoas vocacionadas à vida consagrada, as celibatárias. Então, há missões para cada uma, seja para as de vida apostólica, contemplativa, de clausura, dos institutos seculares ou das novas comunidades, como é o caso da Comunidade Pantokrator. 

Uma nova fecundidade

Acolher e assumir o celibato é uma decisão que vai além da renúncia ao casamento, é entrega completa ao serviço e ao amor incondicional de Deus. Essa maternidade não é como o mundo conhece. Trata-se de uma fecundidade do tipo espiritual. Quando bem vivido, esse dom pode gerar bons frutos nas almas dos filhos de Deus. 

A fonte da vida celibatária é Jesus Cristo e tudo o que Ele viveu, fez e faz por amor a nós. Por isso, o desejo do coração de uma celibatária é responder a este sumo Bem, a este Amor, oferecendo-se como vítima de amor, acolhendo o sofrimento com amor e por amor. Existe uma graça escondida na Cruz, que só quem a vive com amor descobre. A graça da maternidade espiritual vem daí, pois a dor de um coração que ama é fecunda. Uma mãe não pode dar à luz uma criança sem sofrer. Qualquer parto requer sofrimento e dor. Não podemos dar a vida pelos outros sem dar a nossa própria vida. A maternidade espiritual requer acolhida, compaixão, sofrimento, persistência, dedicação. 

 A fecundidade divina é mantida neste aparente vazio casto que é, na verdade, a receptividade ao Amor de Cristo, disponibilidade e aceitação do dom de Deus. A mulher celibatária pelo Reino de Deus é aquela que viveu uma experiência profunda com Jesus Ressuscitado e, assim, tem a sua vida completamente tomada pelo fascínio de Cristo; e, como não pode conter em si e somente para si este Amor profundo e totalizante, converte-se em evangelizadora e testemunha do Deus vivo que nos ama e quer o nosso maior bem. 

Tendemos naturalmente a querer o que nos agrada e a rejeitar o que nos incomoda. Talvez seja espontâneo aproximar-nos daqueles que nos beneficiam e afastar-nos dos que nos desagradam de algum modo. A pessoa celibatária, pelo contrário, é chamada a ser aquela que, tendo purificado o coração, os afetos e os sentidos pelo fogo do Amor de Cristo, prioriza as pessoas e os âmbitos que mais têm sede da vida de Cristo; deixa-se conduzir pelo Espírito Santo e vai para onde Ele a enviar, porque foi fascinada pelo Amor Ciumento e Devorador de Cristo, seu Esposo, que a conquistou. Acolhendo o dom do celibato, viu acender em seu coração o fogo abrasador do Amor de Cristo, que não pode e não quer guardar para si, mas se sente impelida a propagar. Tal é a graça e a beleza da maternidade espiritual.

“Tomada inteiramente pelo Amor Ciumento de Deus, a celibatária responde a Cristo com o coração indiviso, assumindo esse Amor como o Absoluto de sua vida e ofertando a Deus o dom total e pleno de si, em sinal de profunda gratidão. Assim, a celibatária ama a Deus com a totalidade do seu ser de forma exclusiva e imediata. Sendo fiel ao seu chamado, preza por viver o amor radical a Deus como opção fundamental de sua vida, numa profunda intimidade com Ele que transborda em doação e serviço à comunidade, à Igreja e a todo os homens. Inteiramente voltada para Deus, a celibatária vive numa atitude constante de sair de si para doar-se aos outros de forma generosa e gratuita, aprendendo a amar a todos com o coração de Deus”. Nessas palavras do fundador da Comunidade Pantokrator, André Luís Botelho de Andrade, está a melhor definição de maternidade espiritual. A mulher se descobre geradora da vida de Cristo nos irmãos e, pela vida fraterna, torna-se animadora da pureza e da entrega virginal dos irmãos a Cristo. 

A maternidade espiritual é uma graça para a comunidade e para a Igreja: por ela, o Senhor libera, de maneira singular, o coração da pessoa; por ela, a pessoa pode se abrir ao amor de Deus e aos irmãos sem divisão alguma, sem fazer acepção de pessoas; por ela, pode dedicar-se de maneira muito mais livre aos vários trabalhos e atividades nos mais diversos lugares e situações.

E, com a Virgem Maria, nossa Mãe Santíssima, o modelo mais elevado de vida celibatária, encontra sempre a inspiração para permanecer fiel até o fim.

Kátia Maria Bouez Azzi
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

 

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