Eu sei, talvez você, assim como eu, esteja, de certa forma, cansado de tanto romantismo acerca do sofrimento aqui na internet e esteja até mesmo silenciando alguns perfis, em alguns momentos. Sim, compartilhamos do mesmo sentimento. Por outro lado, vemos constantemente a doutrina protestante rejeitando, dia após dia, a temática do sofrimento e adotando a postura do evangelho da prosperidade. De todo modo, frente a essas vertentes, vamos lá.
O sofrimento e as feridas abertas são tantas vezes dolorosos e, na maioria das vezes, difíceis de aceitar. Mas, antes de tudo, é necessário entender que não fomos criados para o sofrimento, para a dor, para o luto, para as doenças; sejam quais forem os sofrimentos presentes nesta terra, esse não era o plano de Deus para cada um de nós, Seus filhos.
Para isso, recorramos ao Livro do Gênesis: “Deus viu tudo o que havia feito, e eis que era muito bom” (Gn 1,31). Embora esteja implícito no texto, a própria criação do homem acontece dentro desse “muito bom”, ou seja, dentro do desígnio de Deus de bondade e felicidade.
Mas onde tudo começou a mudar? Justamente quando o pecado entra no mundo. Nossa natureza está marcada pelo pecado original, quer nós aceitemos ou não.
Então, estamos destinados à solidão, à dor, ao sofrimento e à tristeza desta vida terrestre? Nada mais faz sentido? Pelo contrário. Em vez disso, Deus Se encarrega de redimir todas as coisas, exatamente ao vir Ele mesmo a este mundo para nos salvar.
Recorramos à carta aos Romanos, em que Paulo diz: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20).
A abundância da graça se manifesta justamente quando Deus assume a nossa condição humana e habita o seio da Humanidade, precisamente para nos salvar. Acerca desse esvaziamento, São Paulo também nos ensina: “Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se semelhante aos homens” (Fl 2,7). Sim, exceto no pecado, Cristo Se rebaixa à nossa condição, mas não Se contamina com o pecado do Éden, do qual nós, sim, somos escravos. Seja como for, voltemos ao tema central do sofrimento.
Por fim, gostaria de dizer que os sofrimentos que você enfrenta hoje – seja um diagnóstico, um luto, um trauma vivido em sua história de vida, o abandono de um ente querido, uma traição etc. – encontram aqui a virada de chave: agora, como filhos, batizados. Diz o Senhor: “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5).
Agora, como batizados, somos dotados de uma graça incomparável: pela graça de Deus em nós, pelos méritos de Cristo, somos capazes de amar, inclusive de nos unir a Ele através dos sofrimentos. Santa Teresinha nos ensina muito sobre isso: ela não romantiza a dor. Lembra do romantismo forçado, que é tão presente em nosso meio? Sim, ela nos mostra que o sofrimento, unido a Cristo, torna-se caminho de santificação. A própria santa carmelita nos diz: “Não é o sofrimento que santifica, mas o amor com que o aceitamos.”
Mas, como é possível amar diante de uma dor lancinante, de um sofrimento que, aparentemente, parece não ter fim? Somente pela obra da fé seremos capazes de transpor essa barreira do sofrimento que se apresenta.
Lembre-se: a fé é justamente a ausência de evidências; é crer em algo que transcende as realidades visíveis. Por isso, o mundo padece e se desespera, porque falar de fé no mundo contemporâneo está fora de moda, já que o que importa é aquilo que é científico e comprovado em laboratório. Mas a nossa fé nos convida a crer em promessas eternas que vão além deste mundo.
Para isso, São Paulo nos ensina com uma doutrina perfeita acerca do sofrimento: “Com efeito, o volume insignificante de uma tribulação momentânea acarreta para nós uma glória eterna e incomensurável” (2Cor 4,17). Ele continua assim: “E isso acontece porque voltamos os nossos olhares para as coisas invisíveis e não para as coisas visíveis. Pois o que é visível é passageiro, mas o que é invisível é eterno” (2 Cor 4,18).
Por isso, mantenha seus olhos fixos na eternidade e você verá que os sofrimentos, desse modo, se tornarão um lugar especial de união a Cristo. “Não há nada mais trágico em todo o mundo do que a dor desperdiçada” (Fulton Sheen).
Por isso, todo sofrimento, quando unido a Cristo, deixa de ser mero peso e passa a ser lugar de encontro com a graça. A Primeira Carta aos Coríntios também expressa: “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas, para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” (1 Cor 1,18).
Para concluir, somos Igreja; você não está sozinho. Creia nisto: em seus sofrimentos, unamo-nos como uma Igreja que sofre, mas que também contempla a eternidade que virá.
Marcos Augusto
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator



