A Eucaristia é a antecipação do Céu na Terra, descrita pela teologia e pelos santos como o momento exato em que o eterno toca o tempo e a criação se une ao Criador. Ela não é apenas um símbolo, mas a manifestação real e sacramental de Jesus Cristo, permitindo que o ser humano experimente a vida eterna ainda no presente.
Como a Eucaristia manifesta o Céu
O Céu na Terra: São João Paulo II definiu a Eucaristia expressamente como “o céu na terra”, pois nela o Altar se transforma no ponto de encontro absoluto entre a humanidade e a eternidade. Na encíclica Ecclesia de Eucharistia, São João Paulo II descreve a Eucaristia como um “pedaço de céu que se abre sobre a terra, um raio de glória da Jerusalém celeste, que penetra nas nuvens da nossa história”[1] iluminando o caminho da humanidade. Essa vivência do mistério eucarístico e a expectativa escatológica não diminuem o compromisso com o mundo, mas fortalecem a esperança ativa e o senso de responsabilidade para responder a problemas urgentes como a paz, a justiça e a solidariedade.
Vida eterna no presente. São João Paulo II ensinava que quem se alimenta de Cristo na Eucaristia já possui as primícias da vida eterna e da comunhão plena enquanto ainda caminha na terra.
Comunhão Cósmica: Na encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco ensina que a Eucaristia une o céu e a terra, abraçando e impregnando toda a criação para orientá-la à divinização; Papa Francisco proclama a Cristificação do Universo: “A Eucaristia une o céu e a terra. Abraça e impregna toda a criação. O mundo, saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no Pão Eucarístico, a criação propende para a divinização, para as santas núpcias, para a unificação com o próprio Criador” (LS 236)[2].
Presença Real: É o próprio Cristo que está contido no sacramento, presente naquele pequeno pedaço de pão, que já não é mais pão, e sim a própria carne de Jesus em agonia e o vinho, Seu próprio sangue. “Quando vês o Senhor sacrificado e a hóstia elevada, pensas que ainda estás na terra? Não, tu te transportas imediatamente ao Céu” – São João Crisóstomo[3].
“Este pão da vida, o sacramento do Corpo e do Sangue de Cristo, nos é dado gratuitamente na mesa da Eucaristia. Em volta do altar, encontramos o que nos alimenta hoje e por toda a eternidade” – Papa Francisco[4].
São Tomás de Aquino afirmou que a Eucaristia é o “penhor da glória futura”, ou seja, a garantia e o gosto antecipado do Céu: “o sacramento da Eucaristia preserva-nos dos pecados e da morte eterna. Pelo fato de que nos unimos a Cristo pela graça e esta faz crescer a vida espiritual do homem como um manjar e remédio espiritual. A Eucaristia é um sinal da Paixão de Cristo, pela qual foram vencidos os demônios”[5].
Passaporte para a Eternidade: São Carlo Acutis popularizou a frase: “A Eucaristia é a minha autoestrada para o Céu”. Ele entendia a comunhão diária como a via mais rápida para alcançar a vida eterna.
Alimento da alma: Assim como o corpo precisa de comida, a alma é sustentada pela presença real de Jesus Cristo (corpo, sangue, alma e divindade) na comunhão. O que o alimento material faz pelo corpo, a Eucaristia realiza na vida espiritual: sem ela nossa alma enfraquece e adoece. A Eucaristia é nosso alimento espiritual, nosso “remédio”, como já dizia Santo Inácio de Antioquia: “a Eucaristia é remédio de imortalidade, antídoto para não morrer, mas para viver para sempre em Jesus Cristo”[6]. Santo Agostinho também se referia à Eucaristia como remédio: “A Eucaristia é o pão de cada dia que se toma como remédio para a nossa fraqueza de cada dia”[7]. A comunhão é nosso encontro real com Aquele que venceu a morte, nosso sustento e força na jornada terrestre rumo à eternidade. “Quem come da Carne de Cristo e bebe do Seu Sangue tem a vida eterna, e Ele o ressuscitará no último dia” (João 6, 54).
São João Maria Vianney (Cura d’Ars) afirmava que se os seres humanos compreendessem o valor real da Santa Missa morreriam não de susto, mas de amor, pois a comunhão é o início da “vida do Céu em nossa própria carne”.
Vários outros santos e doutores da Igreja descreveram a Eucaristia como a antecipação, o espelho e a própria presença do Céu na Terra. Peçamos, pois, a intercessão desses que tanto amaram Jesus no Santíssimo Sacramento do Altar para que cresçamos na compreensão da dimensão desse extraordinário presente que Jesus nos deixou, sua própria Carne e seu próprio Sangue, sua Paixão que se repete a cada Santa Missa que é celebrada na face da Terra, sua presença real e viva na Eucaristia que se oferece a nós todos os dias. Como disse Santa Teresinha do Meninos Jesus: “Não é para ficar numa âmbula de ouro, que Jesus desce cada dia do céu, mas para encontrar um outro céu, o da nossa alma, onde ele encontra as suas delícias”[8].
Ana Marta Fonseca
Discípula da Comunidade Católica Pantokrator
[1] JOÃO PAULO II, Papa. Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia: sobre a Eucaristia na sua relação com a Igreja. Roma: Libreria Editrice Vaticana, 17 abr. 2003.
[2] FRANCISCO, Papa. Carta Encíclica Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. Roma: Libreria Editrice Vaticana, 24 maio 2015.
[3] SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Do Sacerdócio (De Sacerdotio), Livro III, cap. 4.
[4] FRANCISCO, Papa. Homilia na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Roma: Praça de São João de Latrão, 19 jun. 2014.
[5] TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica (Summa Theologiae). Terceira Parte (IIIª), Questão 79, Artigo 2 e 4.
[6] INÁCIO DE ANTIOQUIA, Santo. Carta aos Efésios, cap. 20, n. 2. In: Padres Apostólicos. São Paulo: Paulus, 1995.
[7] AGOSTINHO, Santo. Sermão 56 (Sermo 56), cap. 6, n. 10. AGOSTINHO, Santo. Sermão 56 (Sermo 56), cap. 6, n. 10.
[8] TERESA DE LISIEUX, Santa (Santa Teresinha). Manuscritos Autobiográficos (História de uma Alma), Manuscrito A, 48r.



