Fidelidade e obediência são dois temas muito negligenciados no mundo moderno. Nos meios culturais, o tempo inteiro somos praticamente motivados a sermos infiéis, a não nos comprometer e a crer que a obediência para o mundo é sinônimo de escravidão.
É bom ser obediente e fiel
Assim, nós primeiro temos que acabar com essa má concepção de que é ruim ser fiel e obediente. Me parece que muito dessa visão de que esses dois tópicos não são virtudes surge do ciclo vicioso de desconfiança do pecado. Isto porque o pensamento do mundo é: “para que ser fiel se ninguém será fiel comigo?” e “para que ser obediente se ninguém sabe o que é bom de verdade para mim?”. Isto é, porque os outros são imperfeitos, nós não podemos confiar neles e, portanto, a fidelidade e a obediência não são virtudes.
Ouso dizer que essa visão não está toda errada; afinal de contas, as pessoas realmente são imperfeitas, infiéis e não têm plena capacidade de discernir o que é melhor para nós. Mas o Senhor já havia dito: “Maldito o homem que confia no homem” (Jr 17,5). A fidelidade e a obediência realmente são infrutíferas quando são baseadas na humanidade. É apenas quando as voltamos para Deus que a fidelidade e a obediência ganham sentido e se tornam realmente virtudes.
Assim, dentro da realidade de comunidades e congregações, a obediência e a fidelidade aos superiores e às regras são frutíferas apenas quando baseadas em Deus. A confiança dada aos formadores e às regras deve ser baseada na confiança no próprio Senhor. Se não for assim, a obediência se torna legalismo. Aristóteles definia a virtude como aquela que está no meio; isto é, a obediência é a virtude que está entre o vício do legalismo e o vício da rebeldia. O legalismo não é obediência; a obediência é uma virtude verdadeira que deve ser vivida na profundidade do coração, com honestidade e verdade.
De onde vem a obediência
Como já diria o tema deste texto, a obediência surge do desejo pela fidelidade. Mas o que isso significa? O carisma da Comunidade Pantokrator vem nos ensinar que, em resposta ao Amor Poderoso de Deus que nos toma e nos realiza plenamente, surge um desejo pela fidelidade ao Senhor em nossos corações. Isto é, como nós podemos responder a esse Amor tão grande que nos guarda e nos salva? Sendo fiéis a Ele. E, em última instância, essa fidelidade se transforma em obediência, pois a nossa resposta ao Amor de Deus deve ser aderir de forma fiel à vontade de Deus em nossas vidas mesmo, e justamente, quando não a compreendemos; e isso se chama obediência.
É através da obediência que nós amamos a Deus. Santa Teresinha do Menino Jesus não estava brincando quando disse: “quem obedece não erra”, pois quem obedece submete a sua vontade à do Senhor, e isso é infalível. Isto porque quem obedece é humilde ao reconhecer que muito do plano de Deus não passa pela sua própria mente e que, muitas vezes, nós realmente não somos capazes de conhecer todas as coisas e, assim, confiamos plenamente no Senhor.
Assim, nós podemos dizer, juntos com Santa Teresinha, que a obediência é o caminho mais seguro para o céu, pois, através dela, nós somos arrancados do orgulho espiritual, que é um pecado abominável que, com certeza, leva muitos à perdição.
A obediência de Cristo
Por fim, nós devemos sempre nos guiar pelo exemplo de Cristo. Nós devemos imitá-lo. E Cristo justamente salvou o Homem pela obediência: “Tornou-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2, 8).
Obedecer nos tempos de hoje parece loucura; toda a nossa cultura nos chama ao caminho contrário da obediência. Mas São Paulo já vem nos dizer: “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” (1 Cor 1, 18). Isto é, nós somos chamados a viver muitas loucuras como cristãos e, em última instância, a loucura da cruz, que foi um puro ato de obediência. Cristo foi para a cruz e foi completamente destruído e acabado puramente porque seu Pai do céu havia mandado, e assim o Homem foi salvo.
Que nós saibamos ser obedientes como Cristo, que foi o cordeiro obediente que redimiu a humanidade. Mesmo na incompreensão, que nós sempre lembremos das palavras de Santa Teresinha: “quem obedece não erra”.
José Henrique Hissung Botelho de Andrade
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator



