A vida humana é uma espiral de lutas. A cada instante, somos chamados a vencer obstáculos e transcender paradigmas para crescer e amadurecer, tanto humanamente quanto espiritualmente. Muitas vezes, nesse caminho, temos de lidar com o maior dos inimigos, o mais complexo de ser vencido: nós mesmos.
A nossa tendência é sempre nos defender, nos proteger e ficar em nossa zona de conforto. Mas, ao invés disso, somos chamados por Deus a enfrentar nossas dificuldades, tendências e pecados à luz do Evangelho. Isso se chama liberdade interior.
Existem combates que vêm de inimigos externos, seja o pecado de uma pessoa que te atinge, uma injustiça no trabalho, na família, uma doença etc. Nesses casos, é algo fora de nós que precisa ser vencido para que a situação se resolva e deixe de nos atingir ou para que ela não mais nos incomode ou tire nossa paz.
Mas quero refletir especialmente sobre quando o inimigo a vencer somos nós mesmos. Sim, muitas vezes somos o nosso pior inimigo no que tange a nossa vontade. Existe um lugar secreto dentro de nós em que há uma dificuldade, uma dor ou um trauma difícil de ser acessado e que dói. Geralmente, escondemos esse lugar, tentando deixá-lo quieto e em uma suposta segurança.
Ninguém quer mexer onde dói, é praticamente um instinto de sobrevivência que nos leva a procrastinar essa mudança mais radical que, no fundo, sabemos que precisa ser realizada. Vamos mentindo para nós mesmos que não é seguro mexer ali, quando a verdadeira segurança e liberdade está em resolver aquele problema.
A verdade é dura, mas libertadora: é preciso ter coragem de colocar o dedo na ferida e mudar o jogo. Caso contrário, vamos viver aprisionados e condicionados por comportamentos que só atrasam a liberdade, a qual nos dirige para a santidade.
Antigamente, falava-se sobre o “pecado de estimação”, que é aquele pecado que cometemos sempre, que estamos constantemente confessando, mas que nunca nos livramos dele. É sobre isso, livrar-nos daquilo que nos impede de crescer, ter coragem de enfrentar aqueles pensamentos condicionantes que dizem “você não consegue”, “fique onde está e se proteja” ou, ainda, “você não vai aguentar”. Pensamentos mentirosos que refletem uma visão turva de si e do passado, muito comum em quem passou por um trauma e não quer reviver aquilo.
Quando a vontade se decide não há nada que impeça de acontecer, portanto, não podemos mais culpar terceiros sobre nosso fracasso, porque é a nossa vontade que precisa se fortalecer e abraçar a mudança que dói. O ser humano se difere dos outros animais justamente pela razão e vontade, portanto, precisamos utilizar nossas capacidades inatas para nos favorecer à conversão. Deixar-nos levar por emoções passadas que nos aprisionam não é a melhor saída, mas sim utilizar daquilo que nos faz humanos para sermos mais santos.
Na carta aos Hebreus 12,4, lemos: “Vós ainda não resististes até ao sangue, na vossa luta contra o pecado”. Esse recado é claro e simples, é preciso insistir mesmo se doer, sem recuar. Pode parecer estranho e até antinatural, mas a verdade é que se não persistirmos seremos vencidos pelas nossas concupiscências, enquanto Cristo já desceu aos nossos infernos para nos salvar. Seria incoerente, não é mesmo?
A nós basta confiar na graça e seguir firmes em Cristo, com a ajuda do Espírito nessa batalha interior.
Luciana Ronqui
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator



