O deserto que ninguém escolhe

Há um lugar para o qual ninguém faz planos.

Ninguém acorda desejando ser ignorado. Ninguém pede para ser esquecido. Ninguém sonha em atravessar a solidão, experimentar a indiferença ou descobrir que sua ausência já não faz diferença para quase ninguém.

Talvez uma das dores mais profundas da existência humana não seja exatamente o sofrimento, mas a sensação de invisibilidade.

Sentir-se desprezado é experimentar uma espécie de morte silenciosa. Afinal, fomos feitos para a comunhão. Desde o princípio, carregamos uma necessidade quase visceral de sermos vistos, reconhecidos, acolhidos e amados. Queremos que alguém perceba nossa presença, valorize nossos esforços e celebre nossas virtudes. E, sinceramente, quem poderia condenar esse desejo? Ele faz parte da nossa própria condição humana.

O problema começa quando toda a nossa identidade passa a depender desse olhar.

Enquanto somos vistos, acreditamos saber quem somos. Quando os aplausos cessam, quando os convites diminuem, quando a mensagem não recebe resposta e quando nossa presença parece dispensável, algo dentro de nós começa a vacilar. Não porque tenhamos mudado, mas porque descobrimos que talvez estivéssemos construindo nossa identidade sobre um terreno frágil: o reconhecimento alheio.

É curioso perceber como Deus trabalha exatamente nesse lugar.

O deserto na história da salvação

Quando recorremos às Sagradas Escrituras, encontramos uma realidade que se repete ao longo de toda a história da salvação. Antes de libertar Israel, Moisés passou quarenta anos no anonimato de Midiã, cuidando de ovelhas. O homem formado nos palácios precisou aprender que a autoridade verdadeira não nasce do prestígio, mas da intimidade com Deus. O deserto não foi um intervalo em sua história. Foi o lugar onde o príncipe morreu para que nascesse o pastor.

Abraão recebeu uma promessa extraordinária, mas precisou conviver durante anos com o silêncio de Deus. Seu deserto não era feito de areia, mas de espera. Deus parecia tardar justamente porque estava realizando algo mais profundo do que conceder um filho: estava formando um coração capaz de confiar quando nenhuma evidência parecia favorecer a esperança.

José experimentou outro deserto. Foi vendido pelos próprios irmãos, tratado como escravo, preso injustamente e esquecido. A injustiça poderia ter endurecido seu coração. Em vez disso, tornou-se o caminho pelo qual Deus preparou um homem capaz de salvar uma nação. Às vezes, o aparente abandono é apenas o nome que damos ao tempo em que Deus trabalha longe dos nossos olhos.

Elias conheceu um deserto ainda mais íntimo. Depois da maior vitória de sua vida, não encontrou entusiasmo, mas exaustão. Quis morrer. Sentiu-se sozinho. Descobriu que até os maiores profetas podem chegar ao limite de suas forças. Deus, porém, não respondeu ao seu desespero com discursos grandiosos. Ofereceu-lhe pão, descanso e silêncio. Somente depois falou, como se dissesse que algumas respostas só podem ser ouvidas quando a alma reaprende a descansar.

E, como já conhecemos a história, até Jesus passou pelo deserto.

O deserto como lugar de transformação

Deus não desperdiça nenhum deserto. É ali que Ele nos forma sem que percebamos, cura feridas que aprendemos a esconder, quebra as correntes da autossuficiência e amadurece uma fé que já não depende de sinais. O deserto nos ensina a dependência, o abandono confiante e a certeza de que compreender os caminhos de Deus nem sempre é condição para continuar caminhando por eles.

Os santos compreenderam essa verdade de maneira admirável. O deserto é o lugar onde, lentamente, aprendemos o que significa “ser nada”, não como quem perde a própria dignidade, mas como quem deixa de ocupar o centro para que Deus o ocupe. É quando nossas certezas diminuem que Sua vontade se torna mais nítida. É quando nossas forças se esgotam que Sua graça revela toda a sua potência.

O deserto como lugar de recapitulação

Estar no deserto dói. Muito. Isso é humano. Mas a história da salvação nos recorda que ninguém saiu dele da mesma forma que entrou. Quem atravessa o deserto com Deus não retorna apenas mais forte, mas recapitulado. Descobre que muitas das certezas às quais se agarrava eram apenas ilusões e que a própria fragilidade não é um obstáculo para a graça.

Acredito que não exista experiência espiritual mais profunda do que esta: reconhecer, enfim, que não somos o centro da própria história. O deserto nos conduz, lentamente, à humildade radical de quem compreende que tudo é dom, tudo é graça e tudo depende d’Ele.

Por isso, não importa qual seja o deserto que hoje você atravessa — o da solidão, o da espera, o da perda, o da doença, o da incompreensão ou o da aparente invisibilidade. Não desperdice essa travessia. Não fuja dela antes do tempo. Não tente abreviar aquilo que Deus deseja amadurecer em você. Há processos que só a aridez é capaz de realizar e há verdades que somente o silêncio do deserto consegue revelar.

Deus abençoe você.

Érika Tartari
Consagrada Comunidade Pantokrator

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