A alegria em doar-se

A ALEGRIA EM DOAR-SE

Existe um paradoxo divino na vida cristã que o mundo jamais conseguirá compreender por completo. É dando que se recebe, e é perdendo a própria vida que a encontramos.

 Quando olhamos para a nossa caminhada e contemplamos a ação de Deus em nossa história, percebemos que o Seu chamado nunca é um convite à escassez, mas um chamado para viver as abundancias, as delícias de Deus. Ele não nos pede nada para nos tirar algo, Ele nos pede tudo para nos dar a Si mesmo.

 E é no solo fértil da vida em comunidade que essa entrega ganha rosto, corpo e missão.
Desde o momento em que acolhemos o chamado à vocação, começamos a perceber que a nossa existência foi pensada por Deus como um dom Divino. Tudo o que somos, nossos talentos, nossa inteligência, a nossa sensibilidade, a nossa capacidade de trabalhar, de sorrir, de ouvir e de acolher, são presentes do Criador. No entanto, o dom que não é partilhado se deteriora. Talentos guardados em caixas de egoísmo ou escondidos pelo medo de perder a própria autonomia tornam-se esterilidade.

A verdadeira felicidade não está em possuir virtudes, mas em entregá-las Aquele que é a fonte de toda a vida, como o próprio evangelho nos ensina com a parábola dos talentos.

Ao colocar os nossos dons nas mãos de Deus, dentro do contexto da vida comunitária, testemunhamos a realização do milagre da multiplicação. Sozinhos, nossos talentos são apenas “cinco pães e dois peixes”, insuficientes para saciar a fome do mundo e, muitas vezes, incapazes de preencher até o nosso próprio coração. Mas, quando depositamos esses mesmos dons no altar, oferecendo-os a Deus para o serviço dos irmãos, ocorre uma transformação profunda. O pouco se torna banquete. O dom individual ganha uma dimensão eterna, porque passa a ser instrumento do Amor Poderoso e Misericordioso de Deus que se abaixa e nos levanta até Sua Face.

Entregar a vida a Deus é aprender, diariamente a arte do despojamento, e o interessante que estas experiências não são impositivas, mas no trilhar desta jornada, o despojamento torna-se algo natural. Não se trata de uma renúncia triste ou de um sacrifício pesado, mas de um ato de amor maduro. A verdadeira alegria da doação não nasce da ausência de desafios ou de cansaço, mas da certeza de estar no centro da vontade do Pai. Há uma paz inabalável naquele que pode dizer ao fim do dia e dizer… “Tudo o que eu tinha, eu dei. Não guardei nada para mim.”

A vida em comunidade é o lugar privilegiado dessa purificação e maturação do nosso “sim”. É no convívio diário, na missão ombro a ombro, na partilha do pão e da oração que os nossos dons deixam de ser motivo de vaidade pessoal para se tornarem serviço humilde.

Essa doação gera uma felicidade que o mundo não pode oferecer nem tirar. É a alegria de pertencer. Quando ofertamos nossa vida à comunidade, descobrimos que os nossos dons não nos pertencem mais, mas pertencem ao Corpo Místico de Cristo. Minha alegria passa a ser a vitória do meu irmão; minhas forças se somam às dele quando ele está fraco; e, nos momentos em que a minha própria humanidade vacila, é sustentada pela doação silenciosa daqueles que Deus colocou ao meu lado.

Escrevo estas palavras como o testemunho de um postulante e digo que viver o postulantado é, por excelência, este tempo de escuta atenta e de oferta generosa. Chegar ao terceiro ano é olhar para trás e ver quanto terreno o Senhor já conquistou em mim, mas é também olhar para a frente com o coração ardente, desejando ofertar ainda mais, com o forte desejo de antecipar a vivencia do Céu aqui na Terra.

É compreender que a santidade não é um projeto isolado de perfeição moral, mas um caminho de oferta diária e concreta de quem se deixa consumir por amor a Deus e aos irmãos.
As maravilhas de doar os próprios dons a Deus não se medem pelos aplausos do mundo ou pelo reconhecimento humano, mas pela liberdade interior que só a entrega total proporciona.

Aquele que entrega a sua vida a Deus descobre o segredo de uma vida plena, já não vive para si, mas para Cristo. E ao viver para Ele, encontra a sua verdadeira identidade e a plenitude da sua vocação.

Que a nossa oferta de hoje seja ainda mais consciente, generosa e alegre do que a de ontem. Que não tenhamos medo de derramar o perfume do nosso alabastro aos pés de nosso Salvador, pois sabemos que nada do que é entregue a Deus se perde. Gosto muito da frase de um grande químico francês Antoine Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, esta frase é atribuída na lei de conservação das massas, mas na lógica de Deus, a verdadeira alegria não vem de acumular para si, mas de transbordar a graça recebida para servir ao próximo, cumprindo o propósito divino de amor e comunhão e estando aberto a transformação de que Ele deseja em nós.

Que nosso Senhor nos dê cada vez mais a graça, a força e a alegria de nos doarmos mais e mais.

Leandro Ruyz
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator 

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