Vida de oração: Deixe Deus ser Deus

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“A meu ver, a oração não é outra coisa senão tratar intimamente com aquele que sabemos que nos ama, e estar muitas vezes conversando a sós com ele.” (Livro da Vida, Santa Teresa de Jesus – pag. 59)

Conviver com Deus durante todo o dia e reconhecer nossa total dependência a partir da realidade de que, de fato, somos criatura, é um caminho seguro e certeiro, que nos leva ao encontro da misericórdia e bondade divinas. Essa experiência simples e profunda foi vivida por Santa Teresa de Jesus (século XVI); ela nos apresenta a certeza de que Deus sempre anda conosco, independente de nossas escolhas e méritos.

Esse reconhecimento de que somos dependentes, portanto, limitados e frágeis, nos leva ao movimento da espera da ajuda divina, do que chamamos de graça; Deus se abaixa para nos socorrer e nos eleva por Sua misericórdia, porque nos ama como filhos. Esse movimento de Deus até nós alegra muito Seu coração, Ele que é soberano, onipotente e criador de todas as coisas. Isto porque o desejo do seu Sagrado Coração é nos amar para que saibamos nosso lugar de filhos, filhos de Deus; lugar onde tudo é abundante, onde recebemos todas as graças necessárias para viver uma vida feliz com suas dores, sacrifícios, perdas, cruzes… 

A exemplo de Santa Teresa, vamos ocupar então nosso lugar de herdeiros do céu já nessa terra? 

Na prática, tenhamos a seguir uma breve referência de como conviver com Deus em nosso cotidiano, afinal cada pessoa possui uma experiência pessoal e única. Assim, vamos tentar aqui apresentar uma via que nos convida, já ao acordar, a nos colocar em oração e priorizá-la antes de qualquer ação cotidiana. A oração é esse caminho seguro e certeiro onde conversamos com Deus e, mais do que isso, Deus permite que nessa conversa íntima e profunda descubramos a nossa verdade, um avançar no conhecimento de si e de Sua vontade em nossas vidas; a oração é uma ação concreta para nos aperfeiçoar na dependência de Deus, pois nela está implícito que Ele é e eu não sou. 

Sou eu quem precisa dar o primeiro passo na dependência 

A maior resistência a ser enfrentada nessa decisão de ser dependente de Deus está em nós mesmos, especificamente em nossa vontade. A constância na oração simples e cotidiana gera uma espécie de músculo espiritual, onde pela graça sobrenatural, diante de Deus nos mantemos vigilantes e orantes independentemente de como nos encontramos, com pecados, imperfeições, fraquezas, e, muitas vezes, sem o desejo de rezar. Esse esforço próprio é muito importante para que Deus, a partir de nossa decisão por Ele, seja atraído por nossa pequenez de filhos. Vamos imaginar uma criança de colo nessa reflexão, como um bebê, que, ainda sem saber falar frases totalmente compreensíveis, mas que, conforme seu choro, seu olhar, sua comunicação própria para com seus pais, é atendido em suas necessidades e amado. 

Nos coloquemos assim como filhos de colo – essa é a dependência – onde “chorando” e olhando para Deus por meio da oração, também sejamos atendidos em nossas necessidades e sejamos amados por Ele. O amor de Deus é tão imenso que não somente somos atendidos em nossas necessidades, mas nos tornamos, pela graça, cada vez mais magnânimos em nossas aspirações, em nossa maneira de viver, de pensar, porque Deus sela em nossa alma um profundo desejo das coisas do alto, do que não passa, do que é belo e da Verdade. Saímos assim da postura rasteira e superficial do mundo. 

Não entenda esse desejo para com coisas de alto valor monetário, mas sim, o desejo do amor surpreendente nas coisas mais simples da vida, como, por exemplo, na ternura de uma mãe que acaricia seu filho, empregando todos os cuidados que esse filho precisa, gerando um vínculo forte e eterno entre eles. Essa cena deve estar acontecendo em muitos lares enquanto lemos esse artigo; eis a vida cotidiana e acessível a todos nós. Basta desejarmos que Deus cuide de nós indo até Ele pela oração, com as palavras que soubermos verbalizar e do jeito que nos encontramos, e Ele se derramará em ternura, em amor de pai e mãe sobre nós. Que tenhamos a coragem de buscar tão logo essa experiência!

O céu se abre pela oração

No tempo litúrgico da Igreja onde se encerra o Natal e o Tempo Comum se inicia, uma das leituras que é meditada é a do Batismo de Jesus. Destacamos a seguir um trecho bem interessante a respeito da oração: “E, enquanto rezava, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma visível, como pomba. E do céu veio uma voz: ‘Tu és meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer’” (Lc, 3, 21-22). A partir deste trecho, podemos e devemos trazer para nossa vida a potência de quem reza com autenticidade. Jesus nos evidencia a eficácia da oração; nela, de fato, o céu se abre para nós e o Espírito Santo vem ao nosso favor. 

Essa vinda do Espírito Santo, Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, mostra a soberania de Deus sobre todas as coisas, sobre o universo inteiro, pois é somente Ele que nos abre o céu e nos dá acesso à Sua graça divina. Sua misericórdia nos permite esse acesso e ela é sinal da força de Deus em nossas vidas. Nós, que somos fracos por natureza, ao contrário, somente somos fortes por Sua misericórdia recebendo Sua natureza divina, como que uma graça deificante (que nos diviniza), já recebida pelo nosso batismo. Por isso, “somos batizados” e não “fomos batizados”; essa graça é atual! Precisa ser renovada todos os dias por meio de nossas boas obras e precisa ser a partir da oração, que concretiza nossa dependência de Deus e mostra que desejamos sim ser amados pelo Criador, pelo Deus soberano e onipotente. 

Percebamos que ser dependente de Deus e deixar Deus ser Deus é algo maravilhoso! Rezar é participar do céu na terra, afinal desejamos estar com Deus na eternidade e para tal é muito importante que O deixemos participar de nossa vida aqui na terra, sendo amigos e íntimos. Uma verdadeira amizade pressupõe convívio contínuo, falar de nossos segredos, das coisas mais íntimas a nosso respeito, não é verdade?

Senhorio de Deus em nossas vidas

Portanto, só um desejo precisa permanecer para sempre em nosso coração: o de precisar de Deus em tudo. Lembrando da criança de colo de que falamos anteriormente, que constantemente precisa dos cuidados de seus pais, de quem a proteja, assim também cada um de nós devemos desejar essa dependência de Deus. Somos dependentes de muitas coisas neste mundo – de um rendimento financeiro para pagar as contas, da presença dos amigos, das posses materiais, de lazer… enfim, por mais que tenhamos essa dependência humana necessária, vivida com equilíbrio, saibamos que, acima de todas essas necessidades, a primordial é moldar nossa vontade para ser filhos de Deus; assim, o céu se abre, e sobre nós vem repousar o Espírito Santo, Príncipe da Paz. 

Tenhamos a coragem de decidir por uma vida dependente de Deus, para que assim sejamos surpreendidos por Seu amor incondicional. Que Ele nos abençoe nessa missão de filhos! Amém. 

Elisabete Santa Cruz Santos
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator

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