Uma vida vista pela janela é perigosa, pois, em geral, é uma vida de justificativas, não de atitudes. Sendo assim, torna-se uma vida acomodada, estacionada, emperrada.
Gosto da passagem em que Jesus encontra o paralítico no tanque de Betesda:
“Vendo-o deitado e, sabendo que já havia muito tempo que estava enfermo, perguntou-lhe Jesus: ‘Queres ficar curado?’ O enfermo respondeu-Lhe: ‘Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque, quando a água é agitada; enquanto vou, já outro desceu antes de mim.’ Ordenou-lhe Jesus: ‘Levanta-te, toma o teu leito e anda’” (Jo 5, 6-8).
Acredito que esse paralítico, antes do encontro narrado acima, vivia uma vida vista pela janela.
O que seria uma vida vista pela janela?
Uma vida vivida como um filme: a vida passa e eu fico ali, assistindo. Vivendo “do jeito que dá”, de uma forma passiva e reativa às coisas que me acontecem ou deixam de acontecer. Acabo por me justificar nos acontecimentos sem atuar neles de forma efetiva e crio minhas próprias razões para me acomodar nelas e não me sentir tão mal.
O culpado é sempre o “outro” e eu fico como vítima, esperando um milagre que mude minha situação sem necessidade da minha mudança!
Por essa razão, alertei no início sobre o perigo de viver com preguiça de viver.
Mudar dá trabalho, exige esforço e perseverança, reavaliação de hábitos e sinceridade consigo mesmo e com Deus. Exige ação, atitude. É desconfortável no início, mas libertador no final.
Ficar na mesma situação pode ser incômodo, mas há certo consolo, conforto. Acabamos por nos adaptar ao que teríamos que reverter. Como o paralítico da passagem acima. Ele fica anos a espera por algo ou alguém que “faça por ele”. Tanto tempo e não usou sua criatividade, nem teve atitude de arrumar amizades ou qualquer outro meio para chegar ao seu objetivo.
Você sabe o que você realmente quer em sua vida?
Voltando ao nosso paralítico, a pergunta de Jesus foi tão profunda que ele só soube reagir a ela, não a escutou de fato: “Queres ficar curado?” – como se Jesus dissesse: você quer mesmo a cura ou está se alimentando de suas próprias dores, acostumou-se a viver à margem do tanque, como vítima da situação, o “coitado”. Indo mais fundo, a paralisia veio antes ou depois de sua passividade?
Penso que Jesus curou o paralítico por nós! Por pura misericórdia a nós também!
Curou a ele para nos mostrar como devemos fazer: “Levanta-te, toma o teu leito e anda!” – ordenou! Talvez aquele homem não quisesse mesmo ser curado e não tivesse coragem para assumir isso.
Faço essa breve reflexão para provocar em nós um outra, mais profunda.
Quantas vezes vivemos na vida como paralíticos?
Nada o que é exterior tem o poder de nos prender, mas nós damos poder demais às coisas/pessoas/situações e nos deixamos prender a elas. Vocês devem conhecer aquele homem que nasceu sem as duas pernas e os dois braços: Nick Vujicic! (Se não conhecem, é só digitar o nome dele na internet). Ele é um exemplo de protagonismo diante da vida!
Nada pode nos prender, nada pode nos parar, a não ser que queiramos. Deus nos fez livres e temos todos os meios necessários para alcançar essa liberdade de filhos que O Filho nos deu. Basta tomar posse dela sem preguiça e sem justificativas.
Chega de desculpas! Assumamos a vida que é nossa!
Se Jesus perguntasse se você quer sair da situação difícil que você vive hoje, o que responderia? Pois é o que Ele está fazendo agora, através da leitura desse texto.
Medos, traumas, pessoas, doenças, locais, passado, presente, futuro… o que mais faz parte de nossas justificativas? Até quando acreditaremos que a vida nos deve algo? Que as coisas/pessoas devem nos servir? Nossos problemas, nós temos que resolver, não os outros. Em nenhuma situação de que estejamos conscientes nos será impedida a oração, nunca estaremos sozinhos! As pessoas podem nos ajudar e isso será motivo de gratidão, pois não é um dever.
O que muitas vezes acontece é que queremos que os problemas sejam resolvidos da forma limitada que pensamos, dentro do nosso quadrado, dentro do nosso modo de ver as coisas, mas isso é um jeito infantil de viver a vida, Jesus veio nos trazer maturidade de fé.
As crianças são muito imaginativas e acham que tudo o que elas pensam é real, que são o centro do mundo e tudo deve servi-las e satisfazê-las. Isso faz parte das etapas de crescimento, mas depois de crescidos continuarmos a pensar dessa forma, mesmo que veladamente, em nosso íntimo, sem tanta consciência, é perigoso, pois não é desse protagonismo imaginário que a maturidade nos fala.
A sua vida é sua responsabilidade, não do outro!
Vive o protagonismo maduro aquele que assume as responsabilidades por suas escolhas e faz escolhas conscientes e ativas. Aquele que sabe que o responsável por sua vida é ele mesmo, não o outro. Que sabe que só há uma pessoa a quem deve sua vida e prestará contas dela: Deus! Aquele que sabe encarar seus medos friamente e vê-los deixarem de ser “bicho papão” e se revelarem “convites para avaliação.” – (não um sinal vermelho de “pare”, mas amarelo, de “atenção”). Aquele que lê seus erros como aprendizado sabe se desculpar, guardar a lição e seguir em frente. Aquele que não arrasta o passado atrás de si, mas que se reconcilia com ele, concluindo histórias inacabadas ou mal contadas, com auxílio da sabedoria do Espírito Santo.
Por fim, sabemos que o amor de Deus supera tudo. Ele é misericórdia que nos alcança para nos elevar até Ele, nos colocar em movimento! Jesus nos abriu o céu e nos deu vida em abundância, porém se escolhemos viver na mediocridade, é respeitada nossa escolha. A decisão é nossa e a reponsabilidade também.
Iniciei com o paralítico e finalizo com ele. Convido à leitura de todo o capítulo 5 do Evangelho de Jesus Cristo segundo São João, pois há toda uma narrativa da repercussão dessa cura. Coloque-se “no lugar” do paralítico, leia essa passagem em tom pessoal, coloque seu nome no paralítico. Creio que Deus quer continuar a te falar pela passagem que me inspirou a escrever esse texto.
Rosana Vitachi
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator



