O engano de procurar Deus apenas no extraordinário
Quando pensamos nos frutos de uma vida com Jesus, é comum imaginarmos grandes milagres, conversões impactantes, curas extraordinárias ou acontecimentos que desafiam toda lógica humana. E, de fato, Deus continua realizando maravilhas.
Mas, ultimamente, tenho percebido que muitos dos maiores frutos da vida cristã não estão no extraordinário. Eles estão escondidos no ordinário.
Vivemos em um tempo em que as redes sociais nos acostumaram a olhar apenas para os momentos de destaque. Tudo precisa ser impressionante. Tudo precisa ser grandioso. E, sem perceber, podemos carregar essa mesma expectativa em relação à nossa vida espiritual.
Passamos a acreditar que caminhar com Cristo é viver continuamente “de glória em glória”, como se a presença de Deus fosse medida pela quantidade de acontecimentos extraordinários que experimentamos.
Mas onde está a verdadeira glória?
Talvez ela esteja justamente nas pequenas coisas, talvez a glória de Deus esteja em um casamento que não é perfeito, mas permanece de pé porque foi construído sobre a rocha que é Cristo.
Talvez ela esteja em um casal que continua escolhendo um ao outro todos os dias, mesmo conhecendo as limitações, os defeitos e as fragilidades do outro.
Talvez a glória de Deus esteja em filhos que não são prodígios espirituais, nem têm experiências místicas como as dos grandes santos, mas que fazem o sinal da cruz, rezam antes das refeições, sabem que podem recorrer a Jesus quando sentem medo e sabem que Nossa Senhora é sua mãe.
Talvez a glória de Deus esteja em uma família que não tem tudo o que deseja, mas que tem tudo o que realmente precisa. Um lar, uma mesa compartilhada, uma vida de oração, a Santa Missa, a confiança na Providência, a esperança do Céu.
Nazaré: quando Deus escolheu a simplicidade
Jesus passou a maior parte da Sua vida no ordinário. Durante aproximadamente trinta anos, viveu a simplicidade de uma casa, de uma família e de um trabalho. Foi na rotina de Nazaré que Deus santificou o comum.
E talvez a pergunta que devemos fazer seja: se Deus podia escolher qualquer família da história para acolher Seu Filho, por que escolheu justamente aquela?
Jesus poderia ter nascido em um palácio. Poderia ter sido filho de reis, cercado por riquezas, influência e poder, mas escolheu vir ao mundo através de uma jovem simples de Nazaré e sendo filho “adotivo” de um carpinteiro desconhecido. Não havia luxo. Não havia prestígio. Não havia sequer um lugar digno para o nascimento do Salvador.
A Sagrada Família nos ensina que a grandeza de Deus não se manifesta, necessariamente, naquilo que o mundo considera grandioso. O Rei dos reis escolheu crescer em uma casa simples, aprendendo o ofício de José e vivendo sob os cuidados amorosos de Maria.
Durante trinta anos, o Filho de Deus santificou a rotina de uma família comum para mostrar que o Céu pode habitar os lugares mais simples da terra.
A santidade que floresce dentro de casa
Talvez por isso a Igreja nos apresente tantos exemplos de santidade vivida dentro da família. Entre eles estão São Luís Martin e Santa Zélia Martin, pais de Santa Teresinha do Menino Jesus.
Eles não ficaram conhecidos por grandes pregações, nem por fundar congregações ou realizar feitos extraordinários. Tornaram-se santos porque viveram com fidelidade a vocação matrimonial. Trabalharam, enfrentaram dificuldades, sofreram perdas, experimentaram enfermidades, educaram seus filhos na fé, perseveraram quando tudo parecia difícil. A santidade daquela família nasceu da disposição de servir a Deus todos os dias. E talvez esse seja um dos maiores segredos da alegria cristã.
Uma família católica não existe para buscar conforto, reconhecimento ou sucesso terreno. Existe para servir.
Servir a Deus.
Servir à Igreja.
Servir aos irmãos.
Servir ao próximo.
Ajudar uns aos outros a chegar ao Céu.
Quando um “sim” transforma uma família
Quando nossa família respondeu ao chamado de Deus para vir para Itapetininga, não imaginávamos tudo o que Ele preparava para nós. Humanamente, existiam dúvidas, medos e perguntas sem respostas. Como toda decisão importante, não tínhamos garantias, mas havia uma certeza: Deus estava nos chamando.
Hoje, olhando para trás, conseguimos enxergar quantas graças recebemos desde então, não porque todos os problemas desapareceram, não porque a vida se tornou perfeita.
Mas porque encontramos aquilo que realmente importa: estar no lugar onde Deus nos quer. Em apenas cinco meses em Itapetininga, fomos chamados a servir como ministros extraordinários da Sagrada Eucaristia. Deus abriu portas para que eu pudesse colaborar no grupo de pais da escola do meu filho, partilhando formações sobre masculinidade, paternidade, cura interior, vida conjugal e a missão do homem como pai, marido, provedor e cuidador.
Também começamos a caminhar em novos apostolados, incluindo o apoio a um importante trabalho voltado aos casais em segunda união, auxiliando um sacerdote que busca conduzir essas famílias ao encontro da misericórdia de Deus e à regularização de sua vida sacramental.
Nada disso aconteceu porque somos especiais.
Muito pelo contrário.
Quanto mais caminhamos, mais percebemos nossas limitações, fraquezas e pecados.
A alegria de ser a ovelha encontrada
Por isso, uma frase me marcou profundamente. Nosso bispo, Dom Luiz Antonio Lopes Ricci, compartilhou certa vez uma reflexão que dizia:
“Eu sempre achei um absurdo Jesus deixar noventa e nove ovelhas para procurar apenas uma. Até descobrir que essa uma ovelha era eu”.
Essa frase resume muito daquilo que vivemos.
Não somos os melhores.
Não somos os mais preparados.
Não somos os mais santos.
Mas somos profundamente amados.
E Deus continua nos escolhendo todos os dias.
A maior bênção que recebemos ao seguir Jesus não é uma recompensa material. Não é uma vida sem problemas. Não é a ausência da cruz.
A maior bênção é experimentar a plenitude do Seu amor. É saber que somos encontrados pelo Bom Pastor quando nos perdemos. É descobrir que somos escolhidos mesmo sem merecer.
É perceber que Deus continua nos chamando apesar das nossas misérias, é viver a alegria de pertencer a Ele. Porque, no fim das contas, a verdadeira felicidade não está em ser importante para o mundo. Está em descobrir que somos infinitamente importantes para Deus.
“Quem é fiel no pouco também é fiel no muito” (Lc 16,10).
Denis Dias
Postulante na Comunidade Católica Pantokrator



