Nos dias de hoje ouvimos muito falar sobre o amor – em músicas, textos (como este aqui!), filmes, séries e tantas outras coisas. No entanto, muitas vezes, vazios de Deus e cheios de idealizações e fantasias, em que muitos são mais levados a uma superficialidade do que a uma profundidade do que de fato é o amor.
Não digo apenas sobre amor humano e uma relação afetiva, mas do chamado de Deus, uma vocação dada ao homem: somos chamados ao amor.
Criados à imagem e semelhança
“Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”(Gn 1,26), “Deus é amor” (1Jo 4:16)
Todo homem tem dentro do seu coração a graça, a capacidade para amar. Deus criou a todos unicamente para este fim: amar. Porque Ele próprio é o Amor. Podemos notar que toda a história da Salvação que lemos na Bíblia são atos concretos do Amor de Deus. Desde a Criação do mundo à crucifixão de Jesus, vemos com que tipo de amor nos ama o Pai do céu: um amor de sacrifício.
É o próprio Senhor que nos diz: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”(Jo 15,12). Com que amor nos amou Jesus, senão com amor de cruz? Parece que falar de sacrifício gera uma certa repulsa em nossos corações, pois implica perda e nós não queremos perder. Porém, na dinâmica do amor sempre há oferta, renúncia e decisão.
Esse amor que nos ensina Jesus, nos liberta de todo amor próprio, de todo egoísmo que possa nos prender ao nosso mundo ou às nossas idealizações. Não é confortável sair do nosso comodismo, mas há um bem, uma graça que talvez não sejamos capazes de compreender, mas que trás vida e vida em abundância. Que gera uma alegria plena e verdadeira.
Ir ao encontro do outro
Decidir-se. Sim, quando se fala de amor é necessário decisão, principalmente nas nossas relações com aqueles que estão ao nosso redor. Amar é decisão e quando decidimos romper com nosso egoísmo para ir ao encontro do outro, um mistério acontece: a graça de Deus é posta em nossos corações.
É muito fácil estar com aqueles que nos são favoráveis, amigos e irmãos que nos dão aquela sensação de paz. Mas quando há um cenário contrário, nossa vontade é rapidamente direcionada para a retenção e não para a doação. Nisso, caímos muitas vezes no ato de reclamação, pois a situação acaba por nos exigir muito é há peso, falta amor de verdade.
Não somos obrigados a amar ninguém, pois como já foi dito, o amor é decisão. Mas, se somos verdadeiramente cristãos, comprometidos com a santidade, nós precisamos nos decidir por amar, porque só alcançaremos o Céu na medida em que amarmos.
Há uma coisa que me faz refletir quando me deparo com a minha dureza de coração em relação àqueles que não quero amar, porque muitas vezes me são difíceis e custam uma resposta de conversão profunda da minha parte. Jesus me ama tanto e quantas vezes eu não falho com esse amor? Ele não se cansa de se abaixar até a minha imperfeição, a minha fraqueza, debilidade e me eleva, me faz filha amada, sonhada e querida por Ele. Por que eu apontaria os erros daqueles que estão ao meu redor, quando nem o próprio Deus me acusa dos meus pecados? Ou, porque não seria capaz de suportar a presença daqueles que são desagradáveis, quando muitos acabam por suportar as minhas fragilidades com amor e paciência.
E se isso acontece, é porque falta conhecimento de quem eu realmente sou. Se tenho sempre à minha frente a minha verdade, a minha pequenez e do quanto sou amada por Deus, não serei capaz de negar amor ao outro. Isso gera leveza, nos leva a um amor gratuito, sem cobranças ou peso, eu simplesmente amo, porque o outro é digno, merece o amor que foi derramado no meu coração pela graça do Espírito Santo.
Amar sem esperar nada em troca
Recentemente, tive a graça de poder conhecer um pouco da história de um grande homem de Deus: Cardeal Van Thuan, o qual passou 13 anos da sua vida preso, no Vietnã. Seu testemunho nos ensina que sem o amor não podemos ser verdadeiramente cristãos, não existe cristianismo sem amor.
Segue um pequeno diálogo com um carcereiro:
Carcereiro: —Ama-nos mesmo?
Van Thuan: —Sim, amo-vos sinceramente.
Carcereiro: —Mesmo depois de lhe fazermos mal? Mesmo ainda sofrendo por ter passado anos na prisão sem ter sido julgado?
Van Thuan: —Pensem nos anos que temos vivido juntos. Eu amo-vos realmente!
Carcereiro: —Quando for libertado, não enviará os seus para nos fazerem mal a nós ou às nossas famílias?
Van Thuan: —Não, continuarei a amar-vos, mesmo que me quisessem matar.
Carcereiro: —Mas, por que?
Van Thuan: —Porque Jesus me ensinou a amar-vos. Se o não fizesse, não seria digno de ser chamado cristão. (Livro: 5 pães e 2 peixes, Cardeal Van Thuan)
Esse querido cardeal nos ensina com a sua vida o coração do Evangelho. Se olharmos pela ótica da justiça, ele teria todos os motivos do mundo para não amar, guardar ressentimentos e dar outras respostas. Mas, porque ele conheceu o Amor de Cristo e sua ação redentora, ele não poderia responder de outra forma. O Cardeal Van Thuan foi um grande testemunho do verdadeiro e autêntico amor cristão.
O amor nos leva à santidade
Os Santos verdadeiramente viveram o amor e por isso hoje gozam do Céu, são uma escola para nós, eles nos mostram que é possível, com a nossa realidade, com nossas vidas, abraçar a via do amor.
Por inúmeros motivos, parece que vemos a vida do santos como algo floreado e fantasioso. Infelizmente, é uma visão distorcida. Pois também suas vidas não foram isentas de lutas e renúncias, mas fixaram seus olhares apenas em Cristo. Porque o amor foi resposta para tudo que viveram, não desistiram. Como homens e mulheres valentes, guerreiros e corajosos deram o seu tudo ao Tudo, porque compreenderam que o caminho do amor leva à plenitude da alma.
Como nos diz São João da Cruz, “No entardecer da vida, seremos examinados no amor”. Que todo nosso ser possa ser transformado pelo amor. E que todos aqueles que estejam ao nosso redor sejam tocados por esse dom que transbordará dos nossos corações.
Joana D’Arck
Discípula da Comunidade Católica Pantokrator



