Santidade e Martírio

Como cristãos católicos e batizados somos chamados a viver a santidade do próprio Deus. Ele mesmo nos chama em Levítico 19, 2: “Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”. Buscar e viver a santidade é um caminho de cruz e ressurreição, de renúncias e de alegria que devemos viver com os olhos voltados para o Céu, que é nossa recompensa final e eterna.

Neste caminho rumo à Pátria definitiva experimentamos desafios de conversão de vida, pois nossa carne é tendenciosa ao pecado. Muitas vezes não conseguimos vencê-lo facilmente e caímos, como diz São Paulo: “Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero”. (Romanos 7, 19)

Entre tantos tipos de pecado já conhecidos, em especial, é preciso falar sobre uma batalha mais profunda: aquela que enfrentamos com nossa afetividade, com o jeito que vemos o mundo e concebemos as coisas, com nossos traumas passados, feridas de relacionamentos, temperamento, nossos comportamentos advindos da cultura e modo de viver.

São comportamentos sutis, disfarçados de virtudes, mas que podem nos levar ao caminho oposto de onde desejamos ir. Com isso, é preciso nunca se esquecer de que o inferno existe e está cheio de almas bem-intencionadas, mas fracas em sua decisão de conversão e santidade.

Todos nós temos a soberba e o orgulho, que são a raiz de todos os pecados e, normalmente, não percebemos que somos orgulhosos e soberbos. Seguimos cegos, ensimesmados, olhando somente nossos direitos e desejando somente as graças de Deus, mas ignorando os pecados mais profundos e evitando de arrancá-los, já que esse processo é doloroso, longo e custoso.

Tudo isso pode ser causa de queda no pecado sem que percebamos, já que não é algo tão visível assim, mas que podem nos afastar do ideal de santidade que o Senhor nos chama, afinal, os pecados mais carnais, como a luxúria e a gula são mais escancarados. Somente os santos atingiram esse patamar de purificação de tais tendências, enquanto nós, em nossa caminhada na terra, seguimos na luta.

Definitivamente é preciso nos enfrentar interiormente para vencer-se a si mesmo. Quanto mais olharmos para o Senhor e desejarmos a santidade com docilidade e espírito generoso, mais o próprio Senhor vem em nosso auxílio para nos dar forças de mudança.

A Santidade no nosso dia a dia

A radicalidade do Evangelho, o caminho de santidade que Cristo nos propôs é forte, mas Ele mesmo nos diz: “Coragem, eu venci o mundo”, portanto, já somos vencedores Nele, basta apostar nessa graça e seguir sem olhar para trás.

Esse processo é comparável a um martírio incruento, ou seja, sem que haja derramamento de sangue. É aquele em que, por amor a Jesus e pelo desejo de Céu, aceitamos amorosamente pequenos sofrimentos interiores que nos unem e nos configuram à Ele. Digo pequenos, pois se trata de situações banais do cotidiano, nas quais enfrentamos nosso orgulho e nos permitimos ser humilhados. Banais, mas não menos dolorosos.

Falando em santos, como um bom exemplo de santidade cotidiana temos Santa Teresinha do Menino Jesus. Ela foi uma criança muito mimada, muito poupada dos sofrimentos por sua família e muito cedo ingressou para a vida religiosa, com apenas 15 anos, totalmente inexperiente de vida. Tinha uma baixa resiliência emocional e tudo era motivo de choro e drama, traço psicológico que provavelmente a fez desenvolver a “doença dos escrúpulos ” na infância, o que hoje sabemos que se tratava de uma depressão.

Tinha tudo para dar errado na vida dela, pois além dessa fragilidade extrema, era “órfã” de mãe, a qual morreu quando ela era muito nova, e as irmãs que cuidaram dela se fazendo como mãe ingressaram para o Carmelo deixando-a também. Mas ela conseguiu virar o jogo e essas feridas não a dominaram, pelo contrário, ela as utilizou como trampolim para viver a santidade.

Ao ler sua autobiografia intitulada “História de uma Alma” vemos sua conversão no Natal de 1886, quanto tomou uma firme decisão de confiar em Deus nas pequenas coisas, transformando todas as ocasiões em oportunidades de amor e não de pecado. Foi o dia em que ela decidiu por crescer no amor e assim, foi galgando passos de “gigante” ao desabrochar naquela que hoje conhecemos como a Pequena Via, que é o resumo de sua “receita” para a santidade.

Seu coração se encheu de tanta caridade, a ponto de declarar seu desejo de ser um Holocausto de Amor, dando tudo o que tinha, mesmo sendo pouco, como uma oferta generosa ao Senhor. Ela nos ensina a aproveitar as situações incômodas, onde nosso orgulho e soberba gritam, como momentos de transcendência para o amor.

Como na ocasião em que a irmã espirrava água em seu rosto na lavanderia ou quando ela acolheu a bronca da madre por algo que não tinha feito, essas são situações claras onde percebemos sua firme decisão, como corrobora a sua célebre frase: “não desejo ser santa pela metade”.

Sejamos, pois, inspirados por Santa Teresinha, cuja alma foi ardente de amor a Jesus, a lutarmos contra nós mesmos naquilo que é mais profundo deixando-nos ser modelados à imagem de Cristo sem medo. Que tenhamos a ousadia de amar em tudo na certeza de atrair os olhos de Deus, deixando de lado tudo o que não Lhe agrada.

“Quando se ama tudo é alegria, a cruz não pesa, o martírio não se sente, vive-se mais no Céu que na terra.” (Santa Teresinha do Menino Jesus)

Luciana Ronqui
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator. 

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