Jornada da identidade feminina: de Eva a Maria
Qual é a verdadeira resposta para a pergunta: “Quem sou eu além dos papéis que desempenho?”. Para a tradição católica, a resposta se encontra voltando ao princípio, no caminho que nos leva de Eva a Maria.
Na Criação, a identidade feminina foi forjada de maneira única. Enquanto o homem foi feito do pó da terra e ligado ao prático, a mulher foi feita de uma pessoa (a costela do homem), o que a remete à afetividade, às relações e a algo fora do tempo. O chamado fundamental da mulher é ser filha, esposa e mãe — um caminho trilhado na construção de sua identidade. Mesmo sem filhos biológicos, a potência para ser esposa e mãe e o chamado à maternidade espiritual permanecem.
No núcleo da alma feminina reside uma força intacta que o mundo não pode roubar. Neste núcleo, encontramos três anseios profundos colocados ali pelo próprio Deus:
- Expressar Beleza (Filha/Virgem);
- Desempenhar um papel insubstituível numa aventura compartilhada (Esposa/Mãe, a ezer kenegdo, ou aliada que salva-vidas);
- Viver um Romance (Esposa/Virgem).
Para Edith Stein, a atitude básica da mulher é voltada para o ser “pessoal-vivente,” com o desejo de cuidar e nutrir, sendo o “calor que não deixa as sementes congelarem” e a “terra benéfica” que absorve as dores da humanidade. A mulher é chamada a ser uma brisa de paz, reservada e “vazia de si para deixar amplo espaço para os outros,” criando um ambiente de escuta e silêncio onde as pessoas conseguem desabrochar.
O desvio de Eva e as distorções modernas
Quando Eva cedeu à serpente, o pecado entrou no mundo, e a identidade original foi distorcida. A mulher, que deveria ser a heroína e o asilo, passou a ser vista historicamente como procriadora ou objeto.
Hoje, essa distorção é potencializada por visões modernas, como o feminismo, que pegam os desejos puros e os corrompem, gerando o que Viktor Frankl chama de vazio existencial.
- A Beleza é reduzida ao uso da sensualidade, vulgaridade, ou, no extremo oposto, ao desleixo com a própria imagem, onde a mulher mede seu valor pela quantidade de curtidas.
- A Aventura Compartilhada degenera na hiperindependência da “boss babe” — o discurso de que “homem não serve de nada” —, que resulta em uma mulher exausta, sobrecarregada e solitária.
- O Romance é trocado pelo cinismo, pela cultura do desapego e pela redução dos relacionamentos a “contratos utilitários”.
Enquanto Eva escolheu a falácia de ser “como Deus”, Maria escolheu o Fiat: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1, 38). Essa é a proposta de dois destinos. Maria é o modelo para restaurar a “natureza feminina em sua pureza,” sendo receptiva ao Amor, generosa, digna e maternal.
O caminho de volta para casa
O único modo de conseguir ser essa brisa fresca e esse abrigo quente é ter o próprio coração preenchido e purificado por Deus. A entrega irrestrita a Ele é a única realização adequada para o anseio absoluto de pertencer da mulher, o Romance Supremo (Sponsa Christi).
A jornada prática para trilhar o caminho de Eva a Maria envolve:
- Encarar as feridas e renunciar a falsos votos: Convidar Jesus para os lugares destruídos do coração e renunciar aos “pactos” internos feitos para se proteger.
- Praticar o esvaziamento e o aquietamento: Entregar as ansiedades a Deus para criar um espaço de silêncio e paz, afastando o “eu barulhento”.
- Cultivar o trabalho objetivo e aceitar o “Véu” (Humildade): Atuar de forma amorosa nos bastidores, sustentando os outros sem exigir reconhecimento público.
- Desenvolver uma Intimidade Eucarística: Buscar uma vida intensamente litúrgica, separando um tempo consistente para a adoração, permitindo que Deus cure o coração e afirme a beleza divina.
- Oferecer a própria presença: Viver o Fiat no dia a dia, encorajando os outros e convidando-os ao descanso, sem o desespero de controlar os resultados.
A resposta final para a identidade feminina é simples, mas redentora: Sou o que Deus pensa de mim.
Que o Espírito Santo nos guie nessa jornada! Fiquem com Deus. Até a próxima.
Fernanda Guardia
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator



