Saciados no Louvor

Que Saciados e Sustentados por Cristo, Possamos Alimentar o Mundo na Fidelidade e no Louvor

 

  Existe no coração humano uma fome que nenhum bem deste mundo é capaz de saciar plenamente. Podemos buscar realizações, reconhecimento, segurança, afetos e tantas outras coisas, mas permanece em nós uma sede que somente Cristo pode preencher.

  É por isso que a vida cristã começa e permanece em uma experiência fundamental: deixar-se alimentar pelo próprio Cristo. Não podemos oferecer aquilo que não recebemos. Não podemos sustentar aqueles que Deus coloca em nosso caminho se nós mesmos não estivermos firmados n’Ele. Não podemos viver uma vida de verdadeira doação se nosso coração procura encontrar nas criaturas aquilo que somente o Criador pode conceder.

  Ser saciado e sustentado por Cristo é, portanto, muito mais do que receber consolo em determinados momentos. É permitir que Ele seja verdadeiramente o centro da nossa existência, a fonte de onde recebemos a graça necessária para amar, servir, perseverar e permanecer fiéis.

Jesus nos apresenta uma das imagens mais profundas para compreendermos essa realidade:

Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podeis dar fruto, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,4-5)

  O ramo não tem vida independente da videira. Ele recebe dela a seiva, permanece unido a ela e, justamente por isso, pode produzir frutos. Assim também acontece conosco. Nossa capacidade de amar, servir, perdoar, perseverar e nos entregar não nasce simplesmente da nossa força de vontade. É fruto de uma vida que permanece unida a Cristo.

  Todos nós somos chamados a viver todas as realidades da vida unidos a Jesus Cristo, em fidelidade ao Pai e sob a ação do Espírito Santo. A santidade não é reservada a momentos extraordinários, mas se concretiza na vida cotidiana, quando cada realidade se transforma em oportunidade de oferta, fidelidade e amor.

  Por isso, antes de perguntarmos “o que posso fazer por Cristo?”, precisamos permitir que Ele nos conduza a uma pergunta ainda mais profunda: estamos verdadeiramente permanecendo n’Ele? É da permanência que nasce o fruto.

  A Igreja nos oferece, de modo especial na Eucaristia, o alimento que sustenta nossa caminhada. Cristo não apenas nos ensinou a amar: Ele entregou a própria vida por nós. Na Santa Missa, participamos do mistério de Sua entrega e recebemos o próprio Cristo, que se faz alimento para nós.

  A Eucaristia nos recorda que a vida cristã tem uma dinâmica muito concreta: receber para oferecer, ser alimentado para alimentar, ser amado para amar. Quando recebemos Cristo, não somos chamados a guardar essa graça somente para nós. A experiência do encontro com Ele conduz necessariamente à missão.

  Maria é para nós um exemplo luminoso dessa dinâmica. Depois de acolher o anúncio do Anjo e receber em seu ventre o Salvador, ela não permanece fechada em sua própria experiência. Coloca-se a caminho para servir Isabel. Aquela que foi visitada pela graça torna-se também portadora da graça para o outro.

  No Evangelho de São João, Jesus declara:

Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim nunca mais terá fome, e quem crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6,35).

  Cristo é o alimento que permanece. O mundo oferece muitas coisas que prometem preencher o coração, mas somente Jesus pode conduzir o homem à verdadeira plenitude. Quando compreendemos isso, nossa vida começa a mudar de direção.

  Já não precisamos buscar incessantemente nas pessoas aquilo que somente Cristo pode nos dar. Já não precisamos viver para receber aprovação. Já não precisamos fazer da nossa própria realização o centro de tudo. Podemos nos tornar livres para amar.

  E essa liberdade é essencial para a doação. Uma pessoa que encontra em Cristo sua fonte aprende a se doar gratuitamente, porque sua recompensa não está no aplauso humano, mas no próprio Senhor.

  É nesse sentido que a doação cristã ultrapassa uma simples atitude de generosidade. Ela se torna oferta de vida.

  Quando falamos em “alimentar o mundo”, não estamos falando apenas de realizar grandes obras. Podemos alimentar o mundo com uma palavra verdadeira, com uma escuta atenta, com um perdão concedido, com um serviço escondido, com uma presença fiel, com uma família vivida segundo o Evangelho, com um trabalho realizado com honestidade e com cada pequena realidade oferecida ao Senhor.

  É na vida concreta que nossa fé precisa tornar-se visível, vivendo as realidades humanas como oportunidades de oferta de fidelidade e amor ao Senhor.

  Assim, aquilo que aparentemente é pequeno pode tornar-se uma grande oferta. Uma mãe que serve sua família, um pai que persevera em suas responsabilidades, um jovem que escolhe permanecer fiel a Cristo, um profissional que trabalha com honestidade ou uma pessoa que serve sem esperar reconhecimento: tudo isso pode transformar-se em louvor quando oferecido ao Senhor.

 

 A fidelidade do Louvor

  Entretanto, para que essa entrega permaneça, precisamos da fidelidade. Não basta experimentar Cristo em determinados momentos. É necessário permanecer.

  A fidelidade aparece justamente quando a consolação diminui, quando surgem dificuldades, quando não somos reconhecidos ou quando aquilo que oferecemos parece não produzir frutos imediatos. É aí que aprendemos a amar de maneira mais profunda.

  A espiritualidade carmelita, tão presente no Carisma Pantokrator, aponta para esse caminho de entrega e confiança. Santa Teresinha do Menino Jesus nos ensina, através da pequena via, que a santidade pode ser vivida nas pequenas coisas, com atos concretos de amor e confiança.

  A fidelidade não significa fazer coisas extraordinárias todos os dias. Muitas vezes, significa simplesmente continuar amando, continuar rezando, continuar servindo, continuar oferecendo e continuar pertencendo a Cristo.

  É dessa perseverança silenciosa que nasce uma vida verdadeiramente fecunda.

  E quando reconhecemos que tudo recebemos do Senhor, surge naturalmente o louvor. O louvor não depende de circunstâncias perfeitas. Ele nasce do reconhecimento de quem Deus é.

Em todas as circunstâncias, dai graças, porque esta é a vosso respeito a vontade de Deus em Cristo Jesus” (1 Ts 5,18).

  Louvar em todas as circunstâncias não significa considerar boas todas as coisas que acontecem conosco. Significa reconhecer que, mesmo em meio às dificuldades, Deus continua sendo Senhor.

  O louvor nos tira do centro e coloca Cristo novamente no centro. Quando louvamos, proclamamos que nossa vida não está sustentada apenas pelas circunstâncias, pelos resultados ou pelas nossas próprias capacidades. Nossa vida está nas mãos daquele que nos criou, nos ama e nos chama a uma vida de santidade.

  Por isso, o louvor também sustenta a missão. Quem louva aprende a confiar. Quem confia permanece. Quem permanece dá fruto. E quem dá fruto pode alimentar aqueles que Deus coloca em seu caminho.

  Maria nos apresenta o caminho de quem foi profundamente alcançado por Deus e transformou essa experiência em louvor:

Minha alma glorifica o Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador” (Lc 1, 46-47).

  O Magnificat é a oração da mulher que recebeu uma missão extraordinária, mas que não coloca a si mesma no centro. Maria reconhece aquilo que Deus realizou, louva, se entrega e se coloca a serviço.

  Nela encontramos uma síntese preciosa daquilo que somos chamados a viver: acolher Cristo, permanecer n’Ele, deixar que Sua graça nos transforme e oferecer nossa vida como resposta de amor.

  Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes que podemos fazer hoje: de onde estamos recebendo nosso sustento?

  Se nossa fonte não for Cristo, cedo ou tarde nossas forças se esgotarão. Mas quando permanecemos n’Ele, quando nos alimentamos de Sua Palavra, da Eucaristia, dos Sacramentos, da oração e da vida da Igreja, encontramos a fonte que nos faz continuar.

  Então acontece algo maravilhoso: aquilo que recebemos começa a transbordar.

  Somos saciados e podemos saciar. Somos sustentados e podemos sustentar. Somos amados e podemos amar. Somos perdoados e podemos perdoar. Somos alcançados pela graça e podemos ser instrumentos dessa graça na vida dos outros.

  É assim que o cristão alimenta o mundo: não oferecendo a si mesmo como fonte, mas conduzindo todos à Fonte.

  Que nossa vida seja cada vez mais unida a Cristo. Que nossa fidelidade seja perseverante nas pequenas e grandes realidades do cotidiano. Que nossa entrega seja livre, generosa e escondida quando necessário. E que nosso coração seja uma boca de louvor, capaz de proclamar, em todas as circunstâncias, a bondade e a soberania do Senhor.

  Que, saciados e sustentados por Cristo, possamos alimentar o mundo na fidelidade e no louvor.

  Que nossa vida inteira se torne oferta. Que cada realidade seja oportunidade de amar. Que cada dia seja vivido na presença do Senhor. E que, unidos a Cristo, possamos ser no mundo sinais vivos daquele Amor que recebemos e que somos chamados a oferecer.

  Permanecei em mim e eu permanecerei em vós” (Jo 15,4).

  É permanecendo n’Ele que damos fruto. Sustentados por Ele é que podemos nos doar. E é vivendo n’Ele que nossa própria vida pode se transformar em louvor.

  Tudo o que respira louve o Senhor!” (Sl 150,5).

Fabiana Galeffi 

Membro da Fraternidade Pantokrator 

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