HÁ UM OLHAR SOBRE MIM. E ISSO É MARAVILHOSO!

Imagine a seguinte cena: diversas câmeras apontadas para você, o tempo todo, em todos os lugares. Essas câmeras te seguem mesmo quando você está na multidão ou escondido embaixo do cobertor, captando todos os seus movimentos, as suas falas e as mínimas expressões. Nesse exercício de imaginação, haveria alguém, em algum lugar, olhando para você.

Meu objetivo aqui não é estabelecer um roteiro de terror, tampouco explorar as teorias modernas de espionagem pessoal. Minha intenção é mais singela e se resumiria a uma única reflexão: como você agiria ao saber que há alguém te observando? Falaria as mesmas coisas? Contaria as mesmas piadas? Como você viveria a sua jornada de trabalho?

Essa é uma reflexão importante e que vale alguns minutos do teu tempo. Já parou para pensar o quanto você é influenciado pelo olhar das outras pessoas? Todos nós o somos, em alguma medida. Não é à toa que o maior medo moderno, para muitas pessoas, é o famoso “cancelamento digital” – em que a pessoa subitamente passa a ser avaliada e criticada por uma multidão de perfis internet afora. Todos querem ser olhados, mas ninguém quer ser visto negativamente.

A “CULTURA DO INSTAGRAM”

Basta navegar por poucos minutos em qualquer rede social para encontrar incontáveis perfis de pessoas “perfeitas”: todas as fotos captam o melhor ângulo; todos os textos são sábios; o humor é sempre maravilhoso. Mas, convenhamos, quem vive assim realmente? Quem é alegre e imperturbável 24 horas por dia, 7 dias por semana?

Já ouvi relatos de muitas mulheres, por exemplo, que se sentem frustradas em seus lares e em sua maternidade – tudo por conta das comparações com as “influencers” inalcançáveis do Instagram. Mulheres que se lastimam de não conseguir dar conta da casa, do trabalho, do marido e dos filhos, tudo ao mesmo tempo, e que veem perfis de mulheres sempre maquiadas, com roupas deslumbrantes, fórmulas mágicas de educação e maridos perfeitos.

Mas será que esse mundo cor-de-rosa é verdadeiro? A verdade é que ninguém posta tudo o que vive; e raramente vive tudo o que posta. As pessoas têm a necessidade de serem olhadas no seu melhor perfil, na sua melhor versão. É uma tendência humana natural querer ser reconhecido, elogiado, admirado.

Medite por um minuto: nunca aconteceu de você postar algo e, algum tempo depois, voltar ansioso para ver quantas pessoas “curtiram” ou comentaram? Ou, mesmo que você não tenha redes sociais, nunca se deparou com uma situação em que precisou falar em público ou se expor e depois ficou se perguntando sobre o que os outros teriam achado de você?

A TRISTE FABRICAÇÃO DE MÁSCARAS

O fato é que, se não soubermos lidar com essa necessidade humana de sermos reconhecidos, podemos cair em armadilhas sutis. Uma delas é a da pessoa “fanfarrona”, que gosta de se exibir, falar alto, rir de piadas sem graça e expor a própria imagem sempre que puder. É um espetáculo patético e triste de quem literalmente quer ganhar a atenção “no grito”.

Outra armadilha emocional é o extremo oposto disso: a pessoa que se fecha em uma timidez exagerada e em um medo absoluto de “passar vergonha”. Ela pensa que a qualquer momento será notada e ridicularizada e, por isso, acaba enterrando muitos dons que possui – o que é igualmente triste.

Há também a armadilha da hipocrisia – bastante combatida pelo Nosso Senhor Jesus Cristo nos evangelhos. A palavra “hipocrisia” é derivada do grego e teve origem nas encenações de teatro, quando as pessoas usavam máscaras para interpretar personagens fictícios. Ser hipócrita, neste sentido, é assumir um personagem irreal: a pessoa que critica uma conduta e faz aquilo escondido; que fala uma coisa, mas pensa outra; que finge emoções ou indignações apenas quando sabe que está sendo vista.

Haveria ainda muitas armadilhas a serem comentadas, mas o pequeno espaço deste texto não me permite. Seja como for, é patente o quanto temos medo de passar despercebidos, de não sermos valorizados, a tal ponto que passamos a viver para nos submeter e nos adequar aos olhares do mundo.

O ÚNICO OLHAR QUE IMPORTA

Já dizia uma música antiga: “Se compreendesses o quanto te amo, deixarias de mendigar qualquer amor”. Existe uma verdade importantíssima – e esse texto foi escrito para lembrá-la a você: há alguém que te vê e que se importa realmente com você. Não é apenas modo de dizer: é real!

As Sagradas Escrituras revelam certa insistência com essa ideia de que Deus nos vê pessoalmente. Ao encontrar Natanael pela primeira vez, Jesus diz claramente: “Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas debaixo da figueira” (Jo 1,48). Ao nos ensinar a rezar, Nosso Senhor nos instrui a não fazermos como os fariseus, e sim a nos voltar ao Pai que está sempre observando: “Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, te recompensará” (Mt 6,6).

É o salmista quem nos lembra que o Senhor o observa sempre, seja quando está deitado ou andando (Sl 138). Também é o salmista quem afirma que Deus é o nosso guarda, pois “não dorme e nem cochila” ao nos observar o tempo todo (Sl 120). São Pedro, em sua primeira carta, tranquiliza os cristãos ao dizer: “Entregai-Lhe todas as vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós(I Pd 5,7).

Essa informação tem um valor fundamental. Quando fiz um excelente trabalho e não fui elogiado pelo meu chefe, não preciso me desanimar: Alguém me viu e se alegrou. Quando sofro alguma injustiça por fazer o bem, ou quando suporto em silêncio uma dor de cabeça, não preciso gritar isso ao mundo inteiro: o meu Deus estava ali comigo!

Então, voltando àquela questão do início do texto: como eu agiria ao saber que alguém está me observando? Pois bem. O Deus Altíssimo, meu Pai, está me vendo agora. Não com um olhar irado de um tirano, ou um olhar indiferente de um desconhecido; mas com um olhar amoroso de quem tem ciúmes de mim e me quer por perto. E isso deve me levar à paz. Afinal, como bem lembra Santa Teresinha do Menino Jesus: “Eu sou o que Deus pensa de mim”.

Rafael Aguilar Libório
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

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