A liberdade de ser o que Deus pensa de mim

Esses dias estava rezando sobre minhas misérias e limitações, e beirando a ideia de cogitar como poderia ser bom não ser eu, de vez em quando. Porém, o Senhor suscitou em mim a figura de João Batista, e me inspirou a rezar com ele.

Além de uma grande fã de São João Batista, sou uma grande aprendiz da voz que clama no deserto, pois ele era de fato aquilo que Deus pensava dele: o precursor, o amigo do Esposo, enviado para preparar o caminho do Senhor e apontar o Cordeiro de Deus. Sua vida não foi uma busca por glória própria, mas uma entrega total à verdade revelada. Ele possuía discípulos fiéis, que o seguiam com zelo; contudo, quando estes foram atraídos por Jesus, como André e o outro discípulo, João não se apegou de forma ciumenta.

Pelo contrário, seu coração transbordou de alegria: “Ele deve crescer, e eu diminuir” (Jo 3,30). Em sua humanidade, pode ter havido um instante de sofrimento natural, a dor de ver os seus partirem, mas a Verdade de Cristo era maior, eclipsando qualquer sombra de perda. Essa liberdade interior ecoa profundamente em nossa alma: quando Jesus é o centro, o desapego torna-se fonte de uma paz autêntica.

O Desapego que Liberta: Discípulos Partem, João Se Alegra

Imagine a cena: João batiza no Jordão, multidões acorrem e discípulos o cercam como mestre. No entanto, ele conhece sua identidade: não sou o Cristo, mas aquele que vem depois de mim. Quando os discípulos murmuram sobre Jesus atrair mais pessoas, João responde com humildade luminosa: “O amigo do esposo, que está presente e o ouve, enche-se de alegria pela voz do esposo” (Jo 3,29). Ele não reteve ninguém por orgulho ou senso de posse; libertou-os para o verdadeiro Noivo.

Santo Agostinho contempla essa atitude com admiração: João viu o Senhor, apontou o dedo e disse “Eis o Cordeiro de Deus”, sem inveja, mas com alegria pura. Esse desapego não foi frieza, mas fidelidade à própria vocação: João nasceu para isso, para diminuir e apontar para o Maior.

Em nossa alma, essa atitude ressoa como um chamado à liberdade interior. Quantas vezes nos apegamos a papéis, relacionamentos ou conquistas como se nos pertencessem? Quantas vezes sofremos ao ver discípulos que nos seguem, filhos, amigos, admiradores, buscarem algo maior? João nos ensina que o sofrimento humano é real, mas passageiro; a Verdade de Cristo, o fato de Ele ser o centro, sacia e liberta.

Santa Teresinha do Menino Jesus, em sua “pequena via”, conforme nos ensina a tradição da Igreja, mostra que a verdadeira liberdade nasce de se fazer pequeno: “Tudo é graça”. Trata-se de aceitar com alegria aquilo que Deus pensou para nós, sem inveja dos outros, apontando sempre para Jesus. Teresinha, assim como João, diminuiu para que Cristo crescesse, encontrando êxtase na humildade de ser “nada” diante do Tudo.

Jesus no Centro: A Alegria da Vocação Única

Essa fidelidade de João nos conduz a uma reflexão íntima: o que Deus pensa de mim? Ele nos santifica no Batismo para sermos aquilo que Ele sonhou, não o Messias, mas Seus membros, chamados a apontar para Ele no mundo. Quando Jesus é o centro, a alma experimenta uma liberdade que transcende o sofrimento humano. João viveu no deserto, humilde em seu manto de pelos de camelo, inabalável diante dos ventos de doutrina, porque sua identidade estava firmemente ancorada no Pai. Pode ter doído ver os discípulos partirem, mas sua alegria era maior: ouvir a voz do Esposo, cumprir o porquê de sua existência.

Permita que isso ecoe em sua alma hoje: solte as amarras do ciúme, do controle e da autossuficiência. Deixe que Jesus seja o centro, na família, no trabalho e na Igreja. Como João, sofra se necessário, mas regozije-se na Verdade maior. Santa Teresinha nos sussurra: viva pequeno, ame grande, e a liberdade interior florescerá, saciando o coração com a alegria de ser exatamente aquilo que Deus pensou.

Ana Clara Borges
Discípula da Comunidade Católica Pantokrator. 

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