O QUE FAZ CADA UM DOS SETE DONS INFUSOS?

O que faz cada um dos sete dons infusos-

No artigo anterior a este, escrevi umas linhas a respeito dos dons infusos, mais especificamente sobre o que eles são, o porquê são tão importantes e como fazemos para adquiri-los (caso ainda não tenha lido, convido você a fazê-lo clicando aqui ). Desta vez, dando continuidade a um tema tão rico, pretendo esboçar – ainda que de forma bastante resumida – as características principais de cada um dos sete Dons do Espírito Santo.

Antes de tudo, porém, é preciso recordar uma coisa fundamental: nós não temos o poder de produzir os dons infusos, ou mesmo de controlar sua atuação em nós. Se os dons são sobrenaturais, apenas podem ser causados por Alguém sobrenatural (Deus). O nosso papel, portanto, é em um sentido mais passivo, ou seja, precisamos nos preparar para quando Deus quiser enviar os seus preciosos presentes.

Um exemplo clássico na teologia é o do barco à vela em meio ao oceano. O marinheiro não controla o vento, nem escolhe o momento ou a direção em que ele irá soprar. No entanto, ainda que o vento sopre com toda a força, de nada adiantará se o marinheiro estiver com as velas dobradas ao invés de estendidas. Outro exemplo é o da antena de rádio ou televisão: se ela não for colocada no alto, o sinal pode passar ali o dia inteiro, mas não será captado.

Em outras palavras, Deus quer derramar seus dons abundantemente sobre nós, mas nem sempre estamos abertos ou dispostos a recebê-los. Essa disposição começa, principalmente, em uma alma que reza todos os dias, que frequenta assiduamente os sacramentos e que se mantém afastada dos pecados mortais.

Dito isto, consideremos brevemente cada um dos sete dons infusos e suas principais características, fazendo uma lista dos menores para os maiores. Vale lembrar que esses sete dons são reconhecidos de forma unânime pela Tradição da Igreja e possuem fundamentação bíblica (Is 11, 2-3).

7) TEMOR DE DEUS

Apesar de ser considerado o menor dos sete dons, o Temor de Deus é importantíssimo, já que é a porta de entrada para os dons maiores. Afinal, o livro dos Provérbios nos lembra que “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 9.10).

Muitas pessoas não compreendem a importância deste dom, pois consideram estranho que o “temor” seja compatível com a visão de um Deus Misericordioso. Mas, atenção: “Temor de Deus” não significa simplesmente “ter medo” do Senhor, mas sim, ter medo de perdê-lo. A pessoa que é tomada por este dom passa a ter uma visão clara da grandeza e da importância do Senhor, de modo que passa a criar uma aversão à ideia do pecado.

Exemplo prático do Temor de Deus é São Domingos Sávio, o jovem que costumava dizer a famosa frase: “Antes morrer do que pecar”.

6) PIEDADE

As pessoas também costumam fazer confusão com relação a este dom em razão do nome: pensam que “piedade” significa simplesmente rezar com bastante devoção. No entanto, é muito mais do que isso.

O dom da Piedade é aquele que nos faz ter uma ternura especial por Deus, tal como um filho querido. Através de uma graça especial, a pessoa deixa de ver Deus como um patrão cruel, propenso à punição, e passa a enxergar claramente o Senhor como um Pai bondoso e aberto a um relacionamento próximo. Como consequência, passa a enxergar o próximo como verdadeiro irmão.

Um exemplo prático do dom de Piedade é Santa Teresinha, que rezava sempre – não por obrigação ou medo, mas porque descobriu um Deus maravilhoso e terno.

5) CIÊNCIA

O dom infuso da Ciência é aquele que nos leva a enxergar a criação e todas as coisas em sua relação com Deus. Quem tem este dom consegue discernir com clareza o que leva à salvação e o que leva à perdição; o que conduz ao amor de Deus, e o que leva ao amor-próprio.

Trata-se de um dom extremamente valioso, ainda mais nos dias de hoje – em que somos facilmente escravizados pelo dinheiro ou pelo celular. Com essa graça da Ciência, passamos a ter uma dimensão mais exata das prioridades e dos valores.

Exemplo eminente disso era São Francisco de Assis, que sabia usar os bens materiais sem apego idolátrico e conseguia enxergar o amor de Cristo em todas as criaturas – a quem chamava de “irmãs”.

4) FORTALEZA

Trata-se de um dom especial que nos leva a enfrentar de forma heroica as dificuldades e os obstáculos que surgem diante da nossa fé. Mais ainda, nos permite perseverar no caminho correto e vencer o medo – ainda que a nossa própria vida esteja em risco.

Existe uma virtude com o mesmo nome e com efeitos parecidos. No entanto, o dom infuso da Fortaleza se diferencia pelo fato de que o próprio Deus “empresta” sua força sobrenatural à pessoa, a qual se torna verdadeiramente inquebrável e invencível na força da sua fé – não importando as ameaças ou os sacrifícios.

Um exemplo belíssimo de fortaleza é a Santa de nome Felicidade, que viveu no início da Igreja – quando o Império Romano perseguia os cristãos de modo implacável. Felicidade estava grávida de oito meses quando foi capturada e, mesmo diante da insistência dos amigos, se recusou a negar o Cristo. Teve o filho em meio a muitas dores e logo foi martirizada em uma arena ao ser atacada pelas feras – sempre com uma intrépida força e coragem espiritual.

3) CONSELHO

Trata-se do dom infuso que nos leva a resolver de forma santa as questões práticas e concretas da vida. É um pouco diferente da virtude da prudência (na qual a pessoa vai aprendendo, com o tempo e o esforço, a tomar boas decisões). No dom infuso do Conselho, é a própria “voz de Deus” que mostra à pessoa o que ela deve fazer ou para onde deve ir.

É um dom maravilhoso e especialmente útil às pessoas que possuem funções de comando ou de direcionamento, como por exemplo os governantes e os diretores espirituais. Quem possui este dom costuma ser muito consultado em todas as coisas.

Exemplo eminente do dom do Conselho foi São Bernardo de Claraval, que no seu tempo era chamado para intermediar conflitos, dava orientações aos reis e era até mesmo consultado com frequência pelos papas.

2) ENTENDIMENTO

Também conhecido como “Dom de Inteligência”, o Entendimento é a capacidade espiritual que concede à alma a possibilidade de adentrar profundamente o mistério das coisas reveladas por Deus.

A pessoa que é tomada por esta graça passa a ter um profundo olhar espiritual sobre as verdades de fé ensinadas por Cristo e sua Igreja. Matérias que antes pareciam muito complexas e impenetráveis passam a se tornar claras e brilhantes, como as definições dogmáticas, as discussões cristológicas ou os temas mais profundos de teologia. Em suma, a pessoa começa a compreender com muito mais facilidade as coisas de Deus.

É o caso do grandioso Santo Tomás de Aquino, considerado por muitos – inclusive por mim – como o maior teólogo da história da Igreja. A mente de Santo Tomás era tão iluminada pela Graça que ele conseguia enxergar como ninguém as discussões mais profundas da teologia e do mistério.

1) SABEDORIA

É muito mais do que um conhecimento mais aprofundado: o dom da Sabedoria é aquele que faz a pessoa ter uma experiência íntima do amor de Deus. De todos, é o dom mais sublime e o mais importante, pois faz com que a pessoa enxergue tudo sob a perspectiva do Senhor. É como se ela já estivesse começando a viver o céu aqui nesta terra.

Para quem recebe este dom incomparável, não existe razões para desespero ou preocupação: mesmo na pior das doenças, mesmo vivendo uma situação aparentemente catastrófica, a pessoa enxerga em tudo a mão bondosa de Deus e consegue identificar o “porquê” Deus permite determinadas coisas – sempre visando um bem muito maior. Enfim, é o dom da paz e da verdadeira felicidade.

Um exemplo extraordinário do dom da Sabedoria é São Maximiliano Kolbe, que em Auschwitz ofereceu-se para morrer no lugar de um pai de família condenado. Durante duas semanas no bunker da morte, sem água nem comida, enquanto os outros enlouqueciam de desespero, Kolbe conduzia orações e cantava hinos. Os guardas nazistas ficavam perturbados – nunca tinham visto alguém morrer assim, com tamanha paz. Kolbe havia experimentado a verdade suprema: dar a vida por amor é ganhar tudo. Tinha a perspectiva de Deus sobre vida e morte.

E QUANTO A NÓS?

Perceba que, em todos esses casos, não foi a força humana que venceu, mas a onipotência divina. Teresinha, Bernardo ou Francisco de Assis não teriam sido santos se tivessem empregado apenas suas próprias forças. Se foram grandes heróis da fé, é justamente por terem aberto as velas dos seus barcos, para que o forte sopro de Deus os levasse adiante.

Também nós podemos fazer o mesmo, independentemente das nossas limitações. Deus é poderoso para fazer infinitamente mais! Confiemos em Sua graça e peçamos os Seus dons.

Que Ele nos abençoe sempre!

Rafael Aguilar Libório

Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

Tags:
Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Faça a sua doação e ajude a manter a nossa comunidade ativa e próspera

Conteúdos Relacionados

Ao continuar a navegar ou clicar em "Aceitar todos os cookies", você concorda com o armazenamento de cookies próprios e de terceiros em seu dispositivo para aprimorar a navegação no site, analisar o uso do site e auxiliar em nossos esforços de marketing.
Políticas de Cookies
Configurações de Cookies
Aceitar todos Cookies
Ao continuar a navegar ou clicar em "Aceitar todos os cookies", você concorda com o armazenamento de cookies próprios e de terceiros em seu dispositivo para aprimorar a navegação no site, analisar o uso do site e auxiliar em nossos esforços de marketing.
Políticas de Cookies
Configurações de Cookies
Aceitar todos Cookies