FINADOS: O SILÊNCIO DA SAUDADE E O SOPRO DA ESPERANÇA

Novembro convida todos a refletirem sobre a vida, a morte e a esperança que é oferecida em Cristo. O mês começa com duas celebrações que nos tocam profundamente: o Dia de Todos os Santos e o Dia de Finados. Uma celebração indica a direção do Céu, a outra faz encarar a condição terrena e nos lembra da fragilidade na existência humana, algo que ninguém pode evitar. Juntas, as datas induzem à contemplação do mistério da vida, da morte e da santidade.

Celebrar todos os santos, conhecidos e anônimos, que viveram com fidelidade e autenticidade o Evangelho, recorda que a santidade não é privilégio de poucos, mas vocação de todos. Eles são aqueles que, mesmo em meio às tribulações e falhas, mantiveram os olhos fixos em Cristo.

Assim, os próximos 30 dias representam, também, um convite à reconciliação com Deus, com os outros e com a própria vida. Visitar os cemitérios, acender velas e rezar pelos que partiram nos lembra que somos peregrinos: a vida é breve e o tempo é um dom sagrado, um presente oferecido por Deus sem possibilidade de ser recuperado. Ao entender que nossos dias são limitados, somos convidados a viver com propósito, rever nossas prioridades e buscar o que realmente importa, como disse o salmista: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos um coração sábio” (Salmo 89/90, 12 ).

A perda de alguém amado é uma ferida que não cicatriza com o tempo, mas com a graça. É uma das experiências mais dolorosas a ser enfrentada. A angústia gerada é um sinal de um amor profundo. Parece que dormimos e acordamos com a dor dentro de nós. Ela nos acompanha onde estivermos e isso faz parte do luto, um processo natural e importante de ser vivido em todas as suas fases, com reconhecimento da dor sentida. Choramos sim, e devemos chorar. Um dos versículos mais curtos e profundos de toda a Escritura diz, simplesmente: “Jesus chorou” ( João 11, 35 ). Diante da morte de Lázaro, mesmo sabendo que o traria de volta à vida, Cristo se comoveu com o sofrimento de Maria e Marta, e derramou lágrimas. O Senhor não é indiferente à dor, mas compartilha dela e nos convida a buscar conforto n’Ele.

Não há vergonha em sofrer. No entanto, como cristãos, somos chamados a olhar além da angústia e da tristeza. A nossa fé ensina que a morte não é o fim, mas uma passagem para a vida eterna, como garantiu Jesus: “Eu sou a ressureição e a vida. Aquele que crê em mim nunca morrerá”. (João 11, 25-26 ). Essa é a esperança que nos sustenta. A morte não tem a última palavra. Em Cristo, a vida supera a morte e a fé não é uma fuga da realidade, mas a força capaz de enfrentá-la.

Perder é parte da existência. Esperar e acreditar, mesmo em meio à dor, é um ato de coragem. E viver, apesar de tudo, é o maior tributo a oferecer aos que se foram e, principalmente, aos que estão à nossa volta e a nós mesmos.

Se você vive o luto, não se sinta sozinho. Deus caminha contigo. Que a dor não lhe endureça, mas fortaleça. Não ignore a saudade e nunca se esqueça da promessa: “Ele enxugará toda lágrima de seus olhos, e não haverá mais morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque as coisas antigas passaram” (Apocalipse 21, 4 ).

Ana Marta Fonseca
Discípula da Comunidade Católica Pantokrator

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