Cruz: Lugar de fidelidade incondicional ao Pai

fidelidade

Ser fiel é muito mais do que não trair a namorada ou a esposa. Na verdade, “fidelidade” é uma postura, uma decisão firme de manter um compromisso que foi assumido. Se eu prometo ao meu filho que jogarei futebol mais tarde, eu serei fiel se mantiver a minha promessa. Se eu garanto ao meu chefe que os relatórios estarão prontos até sexta-feira, a fidelidade é o que me fará cumprir o combinado.

No fim das contas, fidelidade tem tudo a ver com justiça. Afinal, é justo que eu faça ou pague tudo aquilo que me comprometi a fazer ou pagar. Se todas as pessoas decidissem não ser mais fiéis, a vida em sociedade se tornaria um verdadeiro caos!

Aliás, nem mesmo o cristianismo existiria se Deus não tivesse criado este dom precioso que é a fidelidade. Ora, só somos cristãos porque acreditamos nas promessas de Alguém. São as garantias de Deus que nos permitem ter fé na ressurreição, no paraíso, nos sacramentos ou até na origem divina da própria Igreja.

Portanto, graças ao nosso livre-arbítrio, temos a plena capacidade de cumprir os nossos propósitos e compromissos, desde a entrega exclusiva à esposa até as mais simples promessas feitas às crianças.

TEMOS UM MODELO DE FIDELIDADE

Imagine agora a seguinte cena: um homem totalmente maltratado e ferido está passando pela rua, levando uma pesada cruz sobre suas costas. Ele foi torturado de formas terríveis e quase não tem forças para andar sozinho. Existe uma coroa de espinhos em sua cabeça, fazendo jorrar sangue sobre os olhos e impedindo a visão. 

A multidão ao redor deste homem não sente pena. Ao contrário, escarram em seu rosto e proferem as mais obscenas provocações. Os amigos se esconderam, por medo da morte. Ele sabe que, depois de subir o monte (chamado popularmente de “Calvário”), ele será pendurado em um madeiro e humilhado de diversas formas. Sofrerá uma terrível morte por asfixia.

Porém, este não é um homem comum. É o próprio Deus encarnado, Aquele que poderia destruir e recriar o universo com uma única palavra. Enquanto Ele caminha cheio de dores e sofrimentos, existe uma multidão incontável de anjos aguardando um simples pedido de ajuda. Se este Homem pedir, tudo aquilo terminará no mesmo instante. Ele passará de humilhado a glorioso, diante dos olhos de todos!

Mas não foi isso o que aconteceu. Todos nós conhecemos a história: mesmo tendo a opção de abandonar aquele castigo e todas aquelas humilhações (que eram absolutamente injustas), Jesus abraçou a Sua cruz e aceitou a pior de todas as mortes. E Ele fez isso, justamente, para manter Sua fidelidade ao Pai – e, consequentemente, nos libertar do pecado.

Não pense que Jesus agiu “obrigado”. Poucas horas antes, mesmo sabendo o que iria acontecer, Ele afirmou aos Seus discípulos: “Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de sofrer” (Lc 22, 15). O evangelista João deixou clara a opção do Cristo: “Sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como amasse os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou” (Jo 13, 1).

Cristo é o Homem fiel por excelência. Seu maior desejo era cumprir o desígnio que o Pai desejou – nem que para isso precisasse derramar até a última gota do Seu sangue. “Pai, não se faça a minha vontade, mas sim a tua!” (Cf. Lc 22, 42).

TAMBÉM TEMOS A NOSSA CRUZ

Se uma pessoa comum receber nas mãos uma peça de ouro e uma bijuteria dourada, dificilmente conseguirá distinguir qual é a peça valiosa e qual é a barata. Uma boa maneira de descobrir o valor do objeto é arremessá-lo no fogo: a bijuteria logo se desfaz, enquanto o ouro permanece firme até altas temperaturas. 

Da mesma forma como o ouro se prova no fogo, a fidelidade dos verdadeiros cristãos é provada na cruz. É através dos sofrimentos e das mortificações que nós podemos mostrar que estamos dispostos a cumprir nossos compromissos perante Deus. Como bem nos lembram as Escrituras: “Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata, e os homens agradáveis a Deus, pelo cadinho da humilhação” (Eclo 2, 5). 

Significa dizer que, assim como Cristo glorificou ao Pai através daquela pesada cruz, nós também somos convidados a expressar a mais firme fidelidade – independentemente dos sacrifícios que o mundo nos imponha. Nosso Senhor já nos lembrava desde o início: “Se alguém quiser vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (Lc 9, 23).

A cruz do Salvador era um madeiro preparado pelos romanos. A sua (e a minha) cruz pode vir com aparência de uma humilhação pública; um fracasso profissional; uma doença incurável; ou até a perda de pessoas queridas. Quanto mais forte o fogo, maior será a purificação. Quanto maior a purificação vivida com fé, maior a fidelidade oferecida ao Pai.

Perceba, porém, que a grandeza não está no nível do sofrimento, mas no nível do amor. Se amarmos a Deus com o coração totalmente entregue, será fácil fazer a opção pela fidelidade incondicional – independentemente do tamanho da cruz. Como ensina a Grande Madre Santa Teresa D’Ávila: “O essencial não é pensar muito, é amar muito”.

Que possamos, portanto, abrir o nosso coração a Deus e nos predispor a viver a fidelidade. Mas não qualquer fidelidade, e sim a fidelidade incondicional, aquela que não mede os sacrifícios e nem faz cálculos. A mesma “fidelidade de cruz” que viveu o Nosso Senhor no Monte Calvário.

Que a Virgem Santíssima, sempre fiel, nos ensine a ser dóceis e confiantes no amor do Pai. 

Rafael Aguilar Libório
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

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