Antes de educar um filho, é preciso que um pai eduque a si mesmo
Agosto chega acompanhado de homenagens, fotografias e palavras de gratidão. É o mês em que celebramos os pais, reconhecemos suas histórias e recordamos os gestos que ajudaram a formar quem somos. Talvez seja também uma oportunidade para pensar, com um pouco mais de profundidade, sobre o que significa ocupar esse lugar na vida de alguém.
A paternidade começa com o nascimento de um filho, mas não se completa nesse instante. Um homem se torna pai ao longo do tempo, nas responsabilidades que assume e nas escolhas que faz todos os dias. Afinal, não existe um acontecimento capaz de prepará-lo inteiramente para essa missão. Há somente um caminho que vai sendo aprendido enquanto é vivido.
É sobre essa relação feita de amor, autoridade, limites, erros e recomeços que Fulton J. Sheen reflete em Pais e Filhos. O livro não apresenta uma fórmula para criar filhos perfeitos. Sua proposta é mais exigente: levar os adultos a examinar a maneira como educam e, principalmente, a pessoa que estão se tornando enquanto educam.
Paternidade e aquilo que os filhos aprendem em silêncio
Os filhos observam como o pai reage quando é contrariado, como trata as pessoas quando não precisa impressioná-las, como enfrenta o cansaço e como lida com os próprios fracassos. Além disso, percebem se ele cumpre o que promete, se reconhece seus erros e se existe correspondência entre aquilo que exige e aquilo que vive.
Pode-se ensinar muito por meio de conselhos, porém algumas verdades só se tornam convincentes quando encontram uma vida que as sustente e que seja coerente.
Essa é uma das provocações mais fortes da obra: antes de perguntar por que um filho não escuta, seria necessário perguntar o que ele tem visto.
A autoridade paterna não se estabelece apenas porque alguém ocupa determinado lugar na família. Ao contrário, ela se constrói na coerência. Um pai pode admitir que errou sem perder o respeito dos filhos. Nesse sentido, reconhecer uma falha pode ensinar mais sobre caráter do que manter uma imagem impossível de perfeição.
O filho não precisa encontrar no pai um homem que nunca cai. Precisa encontrar alguém que saiba por que deve se levantar.
O difícil equilíbrio entre amor e autoridade na paternidade
Uma das tarefas mais delicadas da paternidade é compreender que amar não significa tornar tudo fácil.
Existe uma tentação muito humana de proteger os filhos de qualquer frustração. Alguns pais fazem isso porque sofreram e desejam oferecer uma experiência diferente. Outros, por sua vez, temem perder o afeto dos filhos ou serem considerados duros. Assim, pouco a pouco, o cuidado pode transformar-se em permissividade.
Fulton Sheen chama a atenção para esse risco. Quando o amor perde a coragem de orientar, pode deixar de preparar o filho para a realidade.
A vida não aceitará todos os seus desejos. Haverá esperas, limites, derrotas e portas fechadas. Portanto, evitar toda dificuldade não fortalece uma criança. Apenas adia seu encontro com aquilo que um dia precisará enfrentar.
No entanto, o extremo contrário também deixa marcas. A severidade excessiva, a crítica constante e a autoridade exercida pela humilhação podem produzir obediência aparente, mas nunca verdadeira maturidade. O medo controla comportamentos por algum tempo, mas dificilmente forma uma consciência livre.
O desafio está entre esses dois extremos. Educar é corrigir sem diminuir, escutar sem renunciar à responsabilidade e oferecer liberdade acompanhada da capacidade de responder pelas próprias escolhas.
Pais e Filhos: uma leitura sobre paternidade para agosto
Pais e Filhos nasce de uma visão cristã da família e compreende a educação como formação integral da pessoa. Para Fulton Sheen, não basta preparar um jovem para conquistar uma profissão ou alcançar reconhecimento. É preciso ajudá-lo a formar a vontade, ordenar os desejos e tornar-se capaz de amar, servir e assumir responsabilidades.
Algumas de suas formulações pertencem ao tempo em que foram escritas. Ainda assim, as perguntas permanecem atuais.
Que tipo de homem um filho encontra quando olha para o pai? O que aprende ao observar suas escolhas? A autoridade exercida dentro de casa forma ou apenas controla? Há tempo para escutar aquilo que ainda não conseguiu ser dito?
Por isso, esta não é uma leitura apenas sobre os filhos. É também um convite ao exame da própria vida.
No mês em que tantos presentes são oferecidos aos pais, Fulton Sheen nos recorda que a paternidade também é um presente, embora venha acompanhada de uma enorme responsabilidade. Um filho não entrega ao pai apenas seu afeto. Entrega-lhe, durante algum tempo, a confiança de quem ainda está aprendendo a compreender o mundo.
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Érika Tartari
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator



