Amar também é fazer bem aquilo que me foi confiado

Nem sempre deixo de amar por fazer algo evidentemente mau. Às vezes, deixo de amar quando não realizo, com atenção e responsabilidade, aquilo que me foi confiado. A desordem pode aparecer em coisas pequenas: uma resposta que adio, uma conversa que evito, uma entrega que atraso, uma explicação que não dou.

Essas pequenas coisas, porém, não são insignificantes. É nelas que a caridade se torna concreta. Há algum tempo, percebi que vinha falhando na responsabilidade que havia assumido dentro da comunidade que participo. Não se tratava apenas de cumprir uma tarefa, mas de corresponder a um chamado que eu havia acolhido livremente e que, de algum modo, estava ligado ao bem de outras pessoas, sobretudo ao anúncio da Verdade. Pela correria e pela dispersão, fui deixando essa responsabilidade para depois. E, pior, também demorei a comunicar com clareza o que estava acontecendo.

Fui corrigida com muito amor e zelo. E essa correção me humilhou.

Obviamente não me humilhou pela forma como foi dito, porque fui muito amada. Humilhou-me, primeiro, porque atingiu a imagem que eu queria conservar sobre mim mesma: a imagem de alguém responsável, disponível e comprometida. Mas humilhou-me também por algo mais profundo. Percebi um egoísmo velado. Eu sou adulta, tenho responsabilidades, e a correria faz parte da vida de todos. Eu havia recebido uma missão e, pouco a pouco, permiti que outros bens, ainda que lícitos, ocupassem o lugar daquilo que deveria ser cuidado naquele momento.

O resultado não dizia respeito somente a mim. Minha falta de atenção afetou o trabalho e o tempo de outras pessoas. E compreendi que, quando não faço com amor aquilo que me foi confiado, posso deixar de amar concretamente. Por isso, vamos usar essa falta e percepção, como uma oportunidade de viver com amor, magnanimidade e humildade a missão que Deus nos confia, seja num apostolado na sua Igreja, na fidelidade no seu trabalho, ou na sua missão em casa.

As pequenas desordens também ferem

Muitas vezes a minha falha nasce da dispersão, da falta de ordem, da dificuldade de assumir limites ou do desejo de preservar uma boa imagem, que pode me levar à procrastinação. Posso não querer prejudicar ninguém e, ainda assim, causar prejuízo ao não cumprir o que aceitei ou ao não comunicar que não conseguirei cumprir.

Quando percebo que não darei conta, a caridade pede que eu fale, peça ajuda, renegocie ou reconheça humildemente a minha limitação. O problema não está apenas em falhar, mas em fugir da responsabilidade pela falha.

A magnanimidade não consiste somente em realizar coisas grandiosas. Consiste em colocar grandeza de alma nas pequenas tarefas, tratando aquilo que me foi confiado como uma oportunidade verdadeira de amar. Uma obra pode ser simples, escondida e cotidiana, mas tornar-se grande quando é feita com fidelidade.

Distraída de um bem por outros bens

Muitas vezes, não abandono uma responsabilidade por algo mau, mas por outros bens: trabalho, estudos, descanso, preocupações, projetos ou necessidades legítimas. Contudo, até os bens bons precisam ser ordenados.

Uma coisa boa pode se tornar desordenada quando ocupa o lugar de uma responsabilidade concreta. Posso querer ajudar muitas pessoas e, por isso, deixar de cuidar daquelas que dependem de mim naquele momento. Posso buscar muitos frutos e perder o fruto específico que Deus queria me dar por meio de uma pequena fidelidade.

Talvez a graça esteja justamente na tarefa que parece simples, na resposta que venho adiando, na conversa que preciso ter, na humildade de reconhecer que não consegui ou na decisão de reorganizar a minha vida para corresponder melhor ao que recebi.

Não quero fazer tudo. Quero fazer, com amor e inteireza, aquilo que devo fazer.

Humilhação que amadurece

Não quero transformar essa percepção em escrúpulo. O escrúpulo me prenderia a uma análise interminável e poderia me paralisar. A prudência, ao contrário, ajuda-me a reconhecer o que precisa ser corrigido e a agir com simplicidade.

Também não quero usar a misericórdia como desculpa para continuar imatura. A misericórdia não diz que nada aconteceu; ela me permite olhar para o que aconteceu sem fugir e sem desesperar.

Preciso amadurecer. Isso significa reconhecer o dano, pedir perdão quando necessário, reparar o que puder ser reparado e criar meios concretos para ser mais fiel. Significa não confiar apenas na boa intenção, mas organizar a minha vida de modo que as responsabilidades que acolhi tenham nela um lugar verdadeiro.

A correção foi uma graça porque desmascarou uma imagem. Eu queria ser vista como responsável, mas precisava tornar-me responsável também quando ninguém estava me observando. Queria conservar a imagem de alguém generosa, mas precisava perguntar se estava realmente amando as pessoas concretas que dependiam da minha fidelidade. Por isso é preciso redescobrir que amar é sobretudo ser responsável.

A responsabilidade é uma forma de caridade porque reconhece que os outros não são obrigados a carregar aquilo que eu poderia ter cuidado. Quando faço o que devo, libero o outro para realizar a própria missão. Quando não faço, talvez esteja exigindo dele um sacrifício que não lhe pertencia.

Quero pedir a Deus a graça de não desprezar as pequenas coisas. Que Ele me mostre o que me foi confiado, o que está sob a minha responsabilidade e qual é o bem concreto que posso realizar agora, sem me dispersar em tantos outros bens.

Que o Senhor me livre tanto da negligência quanto do escrúpulo: da negligência, que não leva a sério o amor concreto; e do escrúpulo, que me paralisa em vez de me converter. Que me dê prudência para discernir, humildade para reconhecer, coragem para reparar e magnanimidade para entregar bem até as pequenas coisas.

Acho que a graça que Deus deseja me dar não esteja em algum grande feito futuro, mas na fidelidade escondida de hoje. E posso perdê-la não por recusar abertamente o bem, mas por me distrair dele.

Ana Clara Gonçalves 

Discípula da Comunidade Católica Pantokrator 

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