Certo dia, um jovem de 24 anos entrou em uma igreja para rezar e teve uma das experiências mais impressionantes da história: ao conversar com Jesus, olhando para um ícone-crucifixo, o jovem se espantou quando a imagem de Cristo mexeu os lábios e falou com ele. De tantas coisas que Jesus poderia ter dito, Ele se limitou a fazer um pedido àquele jovem italiano. E um pedido estranho, aliás: “Vai e reconstrói a minha Igreja”.
Para quem estiver confuso sobre o que eu estou falando, vou tentar contextualizar a história…
O Cristo “enigmático”
Uma das características mais peculiares de Nosso Senhor Jesus Cristo é o fato de que, por diversas vezes, Ele se utiliza de linguagem figurada para expressar realidades espirituais – e nem sempre seus discípulos estão atentos a isso.
O Evangelho de São João é rico desses exemplos: Jesus fala a Nicodemos que, para ver o Reino dos Céus, ele deveria “nascer de novo”, e o Mestre da Lei ficou tentando compreender como voltaria ao ventre de sua mãe (Jo 3, 3-4); Jesus fala à Samaritana sobre a “água viva”, e ela pensou que Ele estivesse se referindo à água do poço (Jo 4, 10-11); ao dizer aos apóstolos que Ele tinha uma comida que eles não conheciam (ou seja, a Vontade do Pai), os apóstolos interpretaram que Ele, literalmente, tinha levado algum alimento para a viagem (Jo 4, 32-33).
Não é que Jesus faça questão de confundir as pessoas em uma espécie de “pegadinha” divina. O fato é que existem verdades tão sublimes que, às vezes, o Senhor precisa utilizar exemplos ou palavras simples; assim como nós fazemos para explicar coisas complexas às crianças.
Isso vale também com relação a nós: tantas e tantas vezes o Senhor tentou falar conosco em meio a acontecimentos e estivemos tão distraídos que não conseguimos prestar a atenção aos ensinamentos divinos – talvez em um sofrimento que foi permitido, em uma demissão ou em uma desilusão amorosa.
Voltando ao jovem italiano…
“Vai e reconstrói a minha Igreja que, como vês, está toda em ruínas”. Quem ouviu essas palavras foi São Francisco de Assis, no final do século XII. Ele se encontrava em uma capelinha modesta, dedicada a São Damião, perto de Assis. O local era antigo e estava praticamente abandonado, quase que “caindo aos pedaços”.
Ao ouvir a ordem do Cristo, Francisco não teve dúvidas: o Deus Altíssimo queria que aquela capelinha de São Damião fosse reformada. Foi então que o jovem, tal como um louco apaixonado, retirou tecidos do comércio de seu pai, vendeu-os e destinou o dinheiro à restauração daquela igreja.
É evidente que o pai de Francisco – um homem muito rico e extremamente rígido – não ficou muito contente com a iniciativa do filho. Tratando-o como um louco, chegou a espancá-lo e a trancá-lo em cativeiro. Percebendo que não conseguia “mudar a cabeça” do filho, levou-o perante o Bispo de Assis, para que a questão fosse resolvida diante da autoridade eclesiástica. Diante do bispo, Francisco renunciou publicamente aos bens e à herança paterna.
São Francisco: de jovem rico a Poverello
A reação de Francisco é lendária: o santo se despiu até das próprias roupas e devolveu absolutamente tudo ao seu pai. Ele jamais voltaria a usar roupas finas novamente: seria para sempre um pobre de Jesus. De fato, Francisco levou algum tempo e reconstruiu a capela de São Damião. Não apenas isso: reformou outras igrejinhas da região – sempre comovendo outras pessoas e acumulando uma série de seguidores.
Até que o Poverello (apelido dado a Francisco que significa “pobrezinho”) percebeu que Jesus estava falando de outra coisa ao mandá-lo “reconstruir sua Igreja”. Naquela época, a sociedade medieval vivia um período de intenso crescimento urbano e comercial. Contudo, essa nova onda de prosperidade econômica acabou gerando um fascínio generalizado pelas riquezas materiais – tragicamente presente até mesmo dentro de mosteiros e dioceses.
Ao mandar que Francisco reconstruísse Sua Igreja, o Senhor queria dizer que as pessoas precisavam voltar ao seu fervor original, precisavam se purificar dos apegos terrenos e sonhar novamente com o brilho da santidade. Muito mais que uma parede pintada ou janelas consertadas de uma humilde capela, Deus queria que o Seu povo voltasse a levar à sério a vida espiritual.
São Francisco teve um papel ilustre nessa renovação espiritual da Igreja na Idade Média ao fundar a Ordem dos Frades Menores (os Franciscanos), tendo influenciado gerações inteiras de monges, sacerdotes e leigos por todo o mundo. Não apenas ele, mas também outros grandes santos foram levantados por Deus nessa mesma época para renovar o brilho da pobreza evangélica: São Domingos de Gusmão, São Boaventura, Santo Tomás de Aquino, Santo Antônio, e por aí vai…
O chamado do crucificado segue sendo atual
Se a Igreja da época do Poverello tinha as suas dificuldades, o que dizer da Igreja dos nossos tempos? Basta adentrarmos as nossas paróquias para percebermos uma série de problemas reais: fiéis com catequese insuficiente, escassez de vocações religiosas e sacerdotais, crise de autoridade no clero, concorrência de “igrejas” separadas, desânimo espiritual de muitos jovens etc.
Diante de tal realidade, é para nós que Cristo dirige a Sua ordem: “Vai, reconstrói a minha Igreja!”. E não precisamos ser da estatura de um São Francisco de Assis para que aceitemos essa tarefa. Ela compete a todos nós.
Mas note bem: a atitude do Pobrezinho de Assis não foi de revolta ou de cisão. Francisco não quis “refazer” a Igreja do zero, nem teve pretensões de refundar sobre si aquilo que Cristo fundou sobre Pedro. Reformar a Igreja, no sentido Católico do termo, significa santificar a casa de Deus, começando pela nossa própria vida.
A principal tarefa de Francisco foi, “simplesmente”, ser um santo. Aliás, um grande santo. Não tenha dúvida de que uma única alma, inflamada pelo fogo do Espírito Santo, é capaz de incendiar o mundo inteiro.
São Francisco de Assis, rogai por nós!
Rafael Aguilar Libório
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator



