A identidade do filho é a falta

A IDENTIDADE DO FILHO É A FALTA

Descobri essa verdade recentemente. O fundador da nossa comunidade, André, a traduziu e, até então, eu não dimensionava o impacto e a eficácia dessa descoberta, apesar de ela estar incutida na verdade de quem eu sou, desde sempre. Muito menos eu dimensionava os seus desdobramentos.

Na Grécia Antiga, identidade estava ligada à busca pela essência e permanência, pode-se dizer, na constante que faz com que uma coisa seja ela mesma. Podem as circunstâncias mudarem, mas a essência permanece. Posso envelhecer, cortar o cabelo, casar, mudar de emprego, estar feliz ou triste, a identidade é uma, ela pode até tentar ser distorcida, copiada, puxada, ou estendida, mas nunca pode ser criada novamente, porque há um desígnio, um desejo único sobre a identidade: a verdade que Deus pronuncia sobre quem somos. E essa constante é que somos filhos: amados e desejados. E por sermos filhos, temos marcados em nós a falta.  

A falta que refaz

Mas o que isso significa? Ser filho indica a existência de um pai e pressupõe uma relação de confiança e, por conseguinte, de dependência. Então o lugar do filho é a falta, na certeza de que há um Pai, que sempre – uma constante – me preenche com o Tudo, o Amor: livre, total, fiel, fecundo e poderoso, de um Deus infinito.

Porém, ao mesmo passo que descobri essa verdade, comecei a teme-la, pensar que era injusta a ideia de que a minha identidade pressupunha uma falta. Poderia até pensar: que Deus é esse? Então me deparei com outra verdade: se tenho medo da falta, é porque desconfio do amor. Se tenho medo de depender, é porque desconfio que alguém me sustenta. Se tenho medo da falta, é porque confio mais no peso da minha insuficiência do que na misericórdia de Deus. Ele me desejou, me sonhou e se realiza em me amar, porque Ele próprio é o Amor.

Mas por que temo isso? Porque confundo a falta com a escassez. O lugar do filho não é a escassez. Segundo o Google: “escassez é uma condição estrutural de recursos limitados diante de necessidades infinitas”, já a falta e a indisponibilidade eu simplesmente não tenho. Não há nada. Não há recursos que vão acabar, não tenho medo do que possa vir a me faltar, porque isso significa porque isso significa que, em algum momento, eu possuí algo por mim mesma e corri o risco de perdê-lo. Mas eu nunca fui a fonte de mim. Tudo o que sou é dom; tudo o que recebo é graça. A falta, portanto, não é a ameaça de perder o que tenho, mas a verdade de que não me basto, e de que nunca precisarei me bastar.

A falta que não faz falta para a liberdade

Ser filha é reconhecer que minha vida não começa em mim e não encontra em mim o seu fim. É receber-me continuamente das mãos de um Pai que não se cansa de me dar tudo o que sou e tudo aquilo de que necessito para cumprir o desígnio de amor que pensou para mim. A falta não é um vazio condenado a permanecer vazio; é um espaço aberto para a presença, para a relação, para o dom.

Por isso, a minha insuficiência não é uma sentença contra mim. Ela é o lugar onde a misericórdia pode me alcançar. A dependência não diminui a minha liberdade, mas ela me liberta da ilusão de ter de produzir sozinha o sentido da minha existência. E a confiança não elimina a falta, mas transforma o modo como a habito: já não como quem espera ser abandonada, e sim como quem sabe que é sustentada.

Talvez a verdadeira cura consista justamente em deixar de lutar contra o fato de ser filha. Em aceitar que há em mim uma falta que não precisa ser preenchida por controle, desempenho, reconhecimento ou posse, porque ela foi feita para ser preenchida pelo Amor. Não sou um projeto inacabado tentando tornar-se suficiente: sou uma filha amada, chamada a acolher, livremente, o dom de existir.

A falta, então, deixa de ser aquilo que me acusa e passa a ser aquilo que me orienta. Ela me recorda que fui feita para uma relação, que o meu coração não se completa isolado e que o Amor que me sustenta é maior do que qualquer medo. Sou filha: não porque me falte um valor, mas porque recebi um Pai. E, diante desse Pai, a minha falta não é escassez, é abertura para o Tudo. Porque para que o Infinitamente Tudo possa se realizar, Ele precisa do infinitamente nada para amar.

Ana Clara Gonçalves
Discípula da Comunidade Católica Pantokrator 

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