Os grandes generais e conquistadores da história concordam em uma coisa: muitas guerras não são vencidas pela superioridade numérica ou pela força das armas, mas pela pura e simples estratégia. Por meio de uma manobra bem-sucedida, é possível desviar o adversário para um campo desfavorável a ele. Através de uma técnica de batalha, pode-se deixar o exército rival encurralado e perdido.
E, se estou escrevendo sobre guerra em um site católico, é porque existe uma realidade que não pode ser negada: vivemos em meio a uma guerra espiritual. Ainda que não enxerguemos, anjos bons e maus estão duelando o tempo todo por nossa alma – uns para nos levar à alegria indescritível do Céu, outros para nos perderem eternamente.
Trata-se de uma batalha fundamental. O grande Apóstolo São Paulo vivia mencionando essa realidade. Em Efésios 6,10-18, ele fala que devemos nos vestir da armadura de Deus, colocando a couraça da justiça, protegendo-nos com o escudo da fé e empunhando a “espada do Espírito”, que é a Palavra de Deus.
Mas, como eu dizia no início, essa é uma guerra que precisa ser vencida com inteligência. É evidente que estamos do lado mais forte: o nosso Deus é poderoso e vencedor — disso não há dúvida alguma. No entanto, sabendo disso, o nosso grande inimigo — o diabo — faz uso de estratégias para nos afastar do Nosso Senhor e nos deixar vulneráveis. Quase sempre, são estratégias sujas e baseadas na mentira.
A TÁTICA DA DISTRAÇÃO
Quem tem filhos ou convive com crianças sabe o quanto elas são curiosas, especialmente naqueles primeiros anos em que estão conhecendo o mundo. Querem pegar tudo, balançar e, se possível, colocar na boca. Todos os meus filhos seguiram esse padrão.
O grande problema é quando os pequenos pegam algo que não deveriam, seja pelo perigo físico (como uma faca), seja pelo risco de quebra de algo caro ou importante (como o meu controle do videogame). Uma vez que a criança pega algo e gosta, é dificílimo que ela abandone rapidamente.
Nesses casos, quando o filho pega o que não devia, os pais geralmente têm três opções:
- Retiram o objeto à força, o que costuma gerar um choro alto, longo e indignado da criança, a qual ainda não possui maturidade para compreender que o papai fez aquilo pelo bem dela. Raros são os que têm paciência para ouvir esse drama até o fim;
- Deixam o objeto nas mãos da criança, mesmo que seja caro ou perigoso, para evitar gritaria e estresse. Não costuma ser a opção mais adequada, já que o nosso dever, enquanto pais, deve ser zelar pelo bem dos filhos, custe o que custar;
- Usam a tática da distração — que é a minha preferida.
A tática da distração consiste em apresentar à criança outro objeto, de preferência mais colorido e brilhante do que aquele que ela está segurando, e propor uma simples troca. Quem já fez isso sabe como a mágica funciona: a criança tende a aceitar imediatamente — mesmo sem saber que recebeu um papel de presente amassado ou um plástico bolha, que nem são tão interessantes assim.
No fim das contas, o filho percebe, após alguns minutos, que aquilo não tem muita graça e o abandona pelo caminho. Mas isso já não importa, já que ele terá se esquecido do meu tão valioso controle do videogame, que, a essa altura, estará bem seguro no alto de uma estante.
MAS… E QUANDO AS CRIANÇAS SOMOS NÓS?
A “tática da distração” é um dos principais subterfúgios utilizados pelo nosso inimigo na guerra espiritual. Já ouvi de muitas pessoas um relato curioso: a pessoa se afasta em um lugar silencioso para rezar, pega sua Bíblia, traça o sinal da cruz e, de repente… o celular apita com uma nova notificação. Curiosa, a pessoa vai verificar, acaba vendo uma postagem interessante, confere os comentários e, quando se dá conta, acabou o tempo que havia separado para rezar.
Por mais bizarro que pareça, o diabo não se cansa de chacoalhar “papéis amassados de presente” ou “plásticos bolha” diante de nós, com o único propósito de nos desviar do que temos em mãos. Mas, diferente de um bom pai de família, que distrai a criança para protegê-la de algo perigoso, o inimigo a distrai justamente para que ela não corra o “risco” de se aprofundar no conhecimento e no amor de Deus.
É assim que, infelizmente, começamos a perder batalhas sem sequer perceber. Nosso Senhor está o tempo todo tentando se comunicar conosco — seja por meio de meditações, exames de consciência, uma boa leitura espiritual ou simplesmente moções silenciosas do Espírito Santo —, e nós, como crianças imaturas, trocamos tudo por alguns vídeos engraçados na internet.
Veja o que Nosso Senhor nos ensina em João 15,4: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós.” Permanecer significa “continuar”, “perseverar”. Jesus está, basicamente, nos dizendo para não trocarmos a sua Graça por tesouros fúteis deste mundo, “que os ladrões roubam e as traças corroem”. Nossa postura deveria ser como a dos discípulos de Emaús, que perceberam que o Senhor seguiria adiante e suplicaram: “Fica conosco!”
Portanto, termino este meu texto resumindo os dois conselhos que deixei acima. Primeiro (e mais importante): não permita que o inimigo o distraia das coisas de Deus, pois só assim ele terá chance de vencê-lo. E segundo: mantenha os controles de videogame e as outras coisas caras longe do alcance das crianças.
Que Deus nos abençoe sempre!
Rafael Libório
Consagrado da Comunidade Pantokrator



