A força do silêncio

a força do silêncio

OS BARULHOS DA VIDA

Você já reparou como a sua vida está cercada por sons, músicas e, principalmente, ruídos? Logo pela manhã, as conversas e os sons do trajeto até o trabalho já são intensos. Tarefas como atender pacientes, operar máquinas, executar serviços, transportar pessoas ou objetos acabam tornando o silêncio uma raridade ao longo do dia. As inquietações, os afazeres e o ritmo acelerado do mundo têm tirado do ser humano a capacidade de se encontrar com Deus e consigo mesmo. Tudo isso tem gerado pessoas cada vez mais avessas ao silêncio e à reflexão profunda sobre quem são e como viver suas vidas com sentido.

O silêncio, muitas vezes, é interpretado como ausência de conteúdo ou falta de ânimo e atitude — uma espécie de passividade. Calar-se diante de uma situação desafiadora pode parecer prostração ou incapacidade de enfrentamento. Por outro lado, quando silenciamos diante de um problema, damos espaço para que Deus fale, reconhecendo que não temos solução para tudo e depositando nossa esperança nas mãos d’Aquele que tudo pode. O silêncio é especialmente valioso nos momentos que antecedem grandes decisões.

A IMPORTÂNCIA DO SILÊNCIO NA ORAÇÃO

O silêncio é um elemento fundamental da oração, que deve ser um diálogo aberto e sincero com Deus. Os Evangelhos relatam que Jesus, ao querer falar com o Pai, retirava-se da multidão, pois a solidão favorece a intimidade, e a intimidade é o coração da oração. Devemos, em tudo, imitar os gestos de Cristo. Talvez o melhor horário para rezar seja durante a madrugada, por um motivo simples: não há vizinhos chamando, entregas chegando, cachorros latindo ou festas acontecendo. O silêncio reina na madrugada, e é nesse silêncio que encontramos Deus.

Falta-nos sensibilidade para ouvir mais e falar menos durante a oração. E aqui não me refiro apenas às orações devocionais, como o santo terço, que são importantíssimas, mas que geralmente não incluem um espaço de escuta profunda. Refiro-me à oração espontânea, aquela que brota do coração em forma de louvor e resposta ao imenso amor de Deus. Às vezes, as palavras não são suficientes para expressar o que se sente, mas Deus, que tudo conhece, entende até mesmo o nosso silêncio:

“Senhor, tu já conheces tudo o que vou dizer, antes mesmo que me venha à língua.” (Salmo 139,4)

Até mesmo nós, católicos, frequentemente nos incomodamos com os momentos de silêncio na liturgia, que são cada vez mais raros. No entanto, o silêncio é essencial na missa. Momentos como o ato penitencial, as pausas após as leituras e depois da comunhão devem ser vividos em silêncio, para que possam ser interiorizados com mais profundidade. A música é um instrumento belíssimo de manifestação do sagrado, mas deve ter o seu espaço, assim como os demais elementos litúrgicos. Nisso reside a beleza de um Deus que se revela em tudo: nos gestos, nas palavras, nas canções e também no silêncio.

O SILÊNCIO É IMPORTANTE EM TODO LUGAR

Trabalho em uma escola com alunos do ensino fundamental (do 6º ao 9º ano) e, nesse ambiente, é muito fácil perceber o quanto o silêncio é algo precioso. Quase o tempo todo lidamos com muito barulho. No intervalo, os ruídos se intensificam ainda mais: os alunos conversam, correm, brincam. Quando esse momento termina, vem o silêncio… e, com ele, a paz.

Dentro da sala de aula, quais são as reclamações mais frequentes? Alunos conversando em vez de participarem da aula. O silêncio parece incomodar esta geração de jovens. Talvez eles até compreendam a importância do silêncio no ambiente escolar, mas dificilmente o praticam no dia a dia. O barulho rouba tempo precioso dos estudantes e, da mesma forma, os barulhos da vida têm roubado de muitos a capacidade de se encontrar com o Senhor.

Como canta Márcio Todeschini:

“Deus quer falar comigo em coisas tão pequenas, nas coisas simples.”

Deus fala o tempo todo, mas frequentemente estamos distraídos e com os ouvidos “descalibrados” para perceber Sua voz. É preciso ouvir no silêncio exterior e no silêncio do coração as ordens de Deus. E creia: Ele quer a nossa felicidade. Foi para isso que fomos criados. A verdadeira felicidade é o céu; é estar nos braços de Deus.

Que você, caro leitor, seja um ouvinte atento às palavras de Deus, pois vive bem aquele que escuta e, acima de tudo, pratica a Sua vontade.

Raul Cid
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator

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