Há uma cena do Evangelho que sempre me desconcerta. Jesus chega à região dos gadarenos e encontra dois homens dominados por demônios, vivendo entre os túmulos, afastados de todos e incapazes de conviver em paz. Os próprios demônios reconhecem imediatamente quem está diante deles: “Filho de Deus”. Sabem que não podem resistir à autoridade de Cristo e suplicam para entrar numa manada de porcos. Jesus permite, os animais precipitam-se no mar e aqueles homens, até então escravizados, são libertados.
Seria de esperar que a região recebesse Jesus com gratidão. Dois homens haviam sido arrancados de uma existência de violência, isolamento e morte, e devolvidos à própria vida. Mas acontece o contrário. Os habitantes saem ao encontro do Senhor e, depois de verem o que havia acontecido, pedem que Ele deixe o seu território.
É difícil passar por essa passagem sem me perguntar o que, afinal, aquele povo desejava preservar. Porque a presença de Jesus tinha trazido libertação, mas essa libertação também havia produzido uma perda concreta. Os porcos morreram. Alguma coisa que pertencia à economia, aos interesses e à ordem estabelecida daquela região foi atingida pela chegada de Cristo. E, diante disso, aqueles homens pareceram preferir a antiga tranquilidade à presença d’Aquele que acabara de manifestar o seu poder.
Talvez seja justamente aí que esse Evangelho se torna tão incômodo para mim. Também eu posso desejar a libertação enquanto ela não toca naquilo que decidi preservar. Posso querer que Cristo transforme a minha vida, desde que a transformação não alcance os meus apegos, as minhas justificativas, a imagem que construí de mim mesma ou os pequenos territórios nos quais ainda insisto em ser senhora.
Quando a libertação tem um preço
É fácil desejar uma mudança que não custe nada. Quero paz, mas não quero abandonar o controle. Quero liberdade, mas ainda alimento aquilo que me escraviza. Quero amar, mas resisto à humilhação de reconhecer o meu egoísmo.
E há nisso uma contradição que nem sempre quero enxergar. Às vezes, torno-me tão habituada às minhas desordens que começo a tratá-las como parte de mim. Certos pecados ganham nomes mais brandos, certos apegos passam a parecer necessidades, certas compensações são justificadas como se fossem indispensáveis. Não escolho necessariamente o mal porque o reconheço como mal, mas porque me acostumei aos benefícios aparentes que ele me oferece.
Então passo a defender como “meu bem” aquilo que, na verdade, apenas preserva a minha escravidão.
Essa é uma das forças mais silenciosas do pecado. Ele desordena também o meu julgamento. Começo a acreditar que não posso viver sem aquilo que me afasta de Deus, como se a renúncia fosse uma mutilação e a obediência, uma perda. Digo a mim mesma que preciso daquele prazer, daquele reconhecimento, daquela segurança, daquele controle. Digo que não é tão grave, que todos fazem, que ainda não estou pronta, que um dia mudarei. E, enquanto construo justificativas, Cristo permanece diante de mim como o Sumo Bem.
Ele não vem destruir aquilo que sou. Vem destruir aquilo que me impede de ser plenamente aquilo para o que fui criada. A liberdade que Ele oferece não é a possibilidade de viver sem vínculos ou de fazer tudo aquilo que desejo. É a liberdade de já não ser governada pelo pecado, pelo medo e pelo amor desordenado de mim mesma. É a liberdade de pertencer inteiramente Àquele para quem fui feita.
Por isso, a ação de Deus pode, num primeiro momento, parecer violenta àquilo que em mim se acostumou à desordem. Jesus não quer apenas aliviar os sintomas das minhas escravidões. Ele quer chegar à raiz. Não quer simplesmente que eu me sinta melhor, mas que eu seja verdadeira. E ser devolvida à verdade exige, muitas vezes, que eu deixe morrer aquilo que passei tanto tempo protegendo.
A pergunta, então, deixa de ser apenas: quero ser libertada? Preciso perguntar se quero ser libertada mesmo quando a liberdade tiver um preço. Mesmo quando Cristo tocar nas minhas prioridades, contrariar os meus desejos, expuser as minhas justificativas e derrubar alguma coisa que eu acreditava indispensável para ser feliz.
O meu suposto bem diante do Sumo Bem
Há algo profundamente pagão em desejar um Deus que não interfira. Posso professar a fé, rezar, frequentar os sacramentos e, ainda assim, reservar partes da minha vida nas quais o Senhor não tem autoridade. Quero um Deus que console, mas não necessariamente um Deus que converta. Que perdoe, mas não peça mudança. Que me acompanhe, desde que não questione aquilo que decidi conservar.
O povo daquela região não precisou expulsar Jesus com violência. Apenas pediu que Ele fosse embora. Talvez essa seja uma das formas mais sutis de resistência a Deus: não negá-Lo, mas mantê-Lo a uma distância conveniente. Aceitá-Lo como consolo, devoção e esperança, desde que Ele não seja, de fato, o Senhor de tudo.
Eu também posso dizer “fica comigo” enquanto, na prática, acrescento: “mas não toques nisso”. Posso desejar a presença de Cristo sem desejar a sua autoridade, querer os seus benefícios sem permitir a sua purificação. O amor próprio desordenado não precisa negar Deus. Basta que encontre uma maneira de conservar o próprio eu no centro e de fazer da vontade de Deus algo que será acolhido apenas quando coincidir com a minha.
Mas Cristo não veio negociar comigo a parte da minha vida que poderá possuir. Ele veio salvar-me inteira.
E talvez seja justamente por isso que a libertação às vezes assuste. Porque, diante de Jesus, descubro que algumas coisas que eu chamava de liberdade eram apenas maneiras mais sofisticadas de permanecer escrava. Descubro que certos bens que eu protegia eram pequenos demais diante do Bem que se oferece a mim. E descubro também que aquilo que Deus me pede para abandonar nunca poderá ser maior do que aquilo que Ele mesmo deseja me dar.
“Fica, Senhor Jesus”
Diante desse Evangelho, não quero defender as minhas resistências. Quero reconhecê-las. Meu Jesus, misericórdia.
Quero aprender a desejar tudo aquilo que desejas realizar em mim, inclusive quando a tua graça vier por caminhos que eu não escolheria. A humilhação que quebra a minha soberba e me devolve a humildade. O esforço que educa o meu coração para a caridade. A falta de reconhecimento que me ensina a fazer o bem sem precisar ser vista. A renúncia que purifica os meus afetos. A obediência que me liberta da pretensão de ser a medida de todas as coisas.
Expulsa de mim tudo aquilo que ocupa o lugar que pertence a Ti. O amor próprio, a vaidade, o controle, a sensualidade desordenada, a autossuficiência, o medo. Não permitas que eu preserve uma escravidão simplesmente porque ela se tornou conhecida, nem que eu chame de paz a tranquilidade de uma vida na qual aprendi a conviver com aquilo que me afasta de Ti.
Que o desconforto da conversão se torne pequeno diante da grandeza do Bem que és. Que eu não prefira os meus porcos à presença de Cristo, nem as pequenas seguranças que posso perder à liberdade que somente Tu podes me dar. Contra tudo aquilo que em mim ainda deseja dizer “retira-te”, quero aprender a dizer: fica, Senhor Jesus.
Fica justamente onde eu mais resisto à tua presença. Fica nas minhas desculpas, nas minhas indisposições, nas minhas negociações e naquele lugar onde ainda acredito saber melhor do que Tu o que me fará feliz. Não esperes que eu esteja pronta para começar a tua obra, porque talvez parte dela seja justamente tornar-me disponível.
Eu sou tua. Portanto, pode começar em mim.
Purifica o que precisa ser purificado. Derruba o que precisa cair. Retira de mim aquilo que me impede de amar e não permitas que eu confunda a perda de uma escravidão com a perda de mim mesma. Se a tua presença desinstalar o que construí, permanece. Se a tua verdade contrariar aquilo que eu queria preservar, permanece.
Senhor Jesus, não te retires do meu território.
Entra nele inteiro e faz da minha vida não um lugar onde aprendi a tolerar aquilo que me escraviza, mas uma casa aberta à tua presença. E, se alguma coisa tiver de se perder para que eu permaneça contigo, ensina-me a reconhecer que nenhum suposto bem pode ser maior do que o Sumo Bem que és Tu.
Ana Clara Gonçalves
Discípula da Comunidade Católica Pantokrator



