Como isso é possível? Corremos para cumprir horários, entregar tarefas, responder mensagens, alcançar metas e organizar o que ainda nem aconteceu. Terminamos um compromisso pensando no próximo. Acordamos com pressa e, muitas vezes, levamos essa pressa até para os momentos que deveriam nos devolver o fôlego.
Enquanto conseguimos acompanhar esse ritmo, acreditamos que está tudo bem. O problema aparece quando alguma coisa muda.
Uma mudança de cidade, um novo trabalho, a perda de uma função que dominávamos, uma doença, o fim de um ciclo ou qualquer situação que retire de nossas mãos a sensação de controle. De repente, aquilo que fazíamos com facilidade já não funciona. Precisamos parar, observar, aprender caminhos e compreender um cotidiano que ainda não nos pertence.
É como se a vida diminuísse a velocidade sem nos consultar.
E isso pode parecer uma violência.
Quando parar parece fracassar
Não fomos ensinados a diminuir o ritmo. Aprendemos a produzir, resolver e seguir adiante. Por isso, quando a vida nos obriga a parar, não sabemos permanecer ali.
Queremos respostas rápidas. Tentamos apressar a adaptação, encurtar o luto e dominar imediatamente aquilo que ainda estamos conhecendo. Cobramos de nós o mesmo desempenho de antes, mesmo quando tudo ao redor mudou.
O corpo, porém, percebe o que tentamos ignorar. O sono se desorganiza, o cansaço bate, a atenção se dispersa e a irritação aparece nas pequenas coisas. Continuamos realizando tarefas, mas já não conseguimos estar inteiros naquilo que fazemos.
Passamos a agir no automático.
Talvez a comparação com as máquinas nunca tenha sido tão próxima. Recebemos comandos, processamos informações e produzimos respostas. Pulamos de uma tela para outra, respondemos antes de pensar e nos acostumamos a estar disponíveis o tempo todo.
Uma inteligência artificial pode operar assim. Uma pessoa, não.
Precisamos de silêncio, intervalo, encontro, descanso e tempo para compreender o que estamos vivendo. Quando ignoramos isso por muito tempo, alguma parte de nós começa a pedir socorro.
Não somos máquinas com defeito quando não conseguimos manter o mesmo rendimento. Somos pessoas alcançando um limite.
O ritmo de Jesus
Ao olhar para os Evangelhos, é interessante observar que Jesus caminhava.
Mesmo quando se dirigia a encontros importantes, Ele não vivia apressado. No caminho, percebia quem estava à margem, escutava perguntas, acolhia interrupções e permitia que alguém se aproximasse.
Jesus sentava-se à mesa, partilhava o pão e permanecia com as pessoas. Também se afastava para rezar, enquanto muitos ainda o procuravam. Ele sabia que nem toda urgência precisava governar seus passos.
Nós fazemos o movimento contrário. Abrimos os olhos pela manhã e já começamos a correr. Trocamos o encontro pela produtividade, o silêncio pelo excesso de informações e a oração pela sensação de que existe sempre algo mais urgente.
Talvez não estejamos apenas cansados porque fazemos muitas coisas. Talvez estejamos cansados porque tentamos viver em um ritmo para o qual não fomos criados.
Isso não significa abandonar responsabilidades ou fazer da lentidão um ideal. Há períodos em que a vida exige agilidade, esforço e decisões rápidas. O problema começa quando a pressa deixa de ser uma circunstância e se transforma em nosso modo permanente de existir.
Desacelerar também é confiar
Existe uma sensação de poder quando tudo está sob nosso comando. Sabemos o que fazer, conhecemos os caminhos e conseguimos prever os resultados. Quando o ritmo diminui, encontramos aquilo que a correria ajudava a esconder: medos, dúvidas, frustrações e perguntas que ainda não possuem resposta.
Por isso, desacelerar pode ser desconfortável.
No silêncio, percebemos que não controlamos tanto quanto imaginávamos. Há processos que não podem ser antecipados. Há lugares que precisam ser conhecidos aos poucos. Há feridas que não obedecem a prazos. Há respostas que Deus ainda não nos deu.
Desacelerar, nesse sentido, também é um ato de confiança.
É aceitar que nem todo tempo aparentemente improdutivo está vazio. Enquanto esperamos, algo pode estar sendo reorganizado dentro de nós. Enquanto observamos, aprendemos a enxergar o que a pressa não permitia. Enquanto não sabemos o próximo passo, somos convidados a caminhar apenas com a luz necessária para hoje.
Talvez Deus não esteja nos impedindo de avançar, mas apenas nos ensinando outra maneira de caminhar.
A vida continua sendo rara quando o ritmo diminui. Continua acontecendo nos cafés que tomamos sem perceber, nas conversas interrompidas pelo celular, nas pessoas que amamos e no corpo que insiste em pedir descanso. Continua acontecendo enquanto planejamos finalmente começar a viver.
Desacelerar não é desistir da vida. É voltar a encontrá-la.
Acredito que viver no ritmo de Jesus comece assim, prestando atenção em quem está no caminho, acolhendo os próprios limites e compreendendo que nem sempre precisamos correr para chegar ao lugar onde Deus já está.
Érika Tartari
Consagrada Comunidade Católica Pantokrator



