Zaqueu: é preciso descer

Zaqueu queria ver Jesus. O Evangelho diz que procurava vê-lo, para saber quem era, mas não conseguia por causa da multidão, porque era pequeno de estatura. Então correu à frente e subiu numa árvore.

Há algo muito bonito nesse primeiro movimento de Zaqueu, porque existe nele um desejo verdadeiro. Ele poderia ter aceitado que a multidão o impedisse e seguido sua vida, mas alguma coisa o atrai. Ele quer ver Jesus e, para isso, corre, procura um lugar, sobe. Antes mesmo que compreenda exatamente o que procura, seu coração já se move em direção a Cristo.

Há também uma contradição nesse gesto: Zaqueu sobe porque é pequeno. 

Aquilo que o leva à árvore é justamente a sua baixa estatura. Ele percebe a própria limitação e procura superá-la. Não consegue ver dali, então precisa encontrar um lugar mais alto. De algum modo, acredita que precisa deixar de ser pequeno para conseguir chegar até Jesus. E talvez esteja aqui uma das coisas mais bonitas dessa passagem: Zaqueu ainda não sabe que aquilo que considera um impedimento é justamente aquilo que atrai Jesus.

Porque o Reino dos Céus é dos pequenos. Jesus repete isso de diferentes maneiras no Evangelho. É preciso tornar-se como criança para entrar no Reino. O Pai revela seus mistérios aos pequeninos. Há uma lógica de Deus que continuamente nos reconduz à pequenez.

Mas essa pequenez não é apenas uma condição exterior. Há uma diferença entre experimentar a própria limitação e reconhecê-la. Posso ser pequena e passar a vida inteira tentando provar o contrário. Posso precisar e viver como se não precisasse.  Posso conhecer minhas limitações e procurar constantemente alguma coisa que me coloque acima delas.

Talvez Zaqueu faça exatamente isso. Ele é pequeno e, diante dessa constatação, sobe. Óbvio que não há nada de errado em subir numa árvore para enxergar melhor.  Mas a imagem me confronta porque me faz perguntar o que faço quando descubro minha própria pequenez. Permaneço nela, permitindo que ela me revele algo verdadeiro sobre mim, ou imediatamente procuro uma árvore que me faça sentir maior?

E quais são as árvores da minha vida? 

Talvez sejam o orgulho, a autossuficiência, a necessidade de controle ou de encontrar sempre uma explicação. Talvez sejam o desempenho, o reconhecimento, a preocupação com a maneira como sou vista, a necessidade de acertar e de parecer forte. Até mesmo meus dons, meu trabalho, minha inteligência ou minha vida espiritual podem se tornar lugares de elevação quando deixo de recebê-los como dons e começo a usá-los para fugir da minha própria medida.

Porque é difícil permanecer pequena. Ser pequena significa reconhecer que não vejo tudo, não alcanço tudo, não controlo tudo e não consigo tudo. Mas a pequenez do Evangelho não significa diminuir-se ou negar os próprios dons. Significa não precisar ser suficiente. É reconhecer a própria medida sem transformá-la numa acusação contra si.

Zaqueu ainda não sabe disso. Por isso, sobe. Jesus, porém, não o chama para subir mais. Quando chega ao lugar onde Zaqueu está, Ele para, levanta os olhos e diz: “Zaqueu, desça depressa, porque hoje preciso ficar em sua casa”. Zaqueu havia feito todo aquele esforço para ver Jesus e, de repente, descobre que Jesus já o havia visto. Antes que diga qualquer coisa, antes que explique sua vida, reconheça seus erros ou prometa repará-los, Cristo olha para ele e o chama pelo nome. E seu nome também guarda uma verdade.

Zaqueu vem do hebraico Zakkai, nome relacionado à ideia de puro, justo ou inocente.  Há algo quase contraditório nisso. Aquele homem era chefe dos cobradores de impostos, rico e conhecido por uma vida que parecia distante daquilo que seu próprio nome significava. Seu nome parecia guardar uma verdade que sua vida já não o conseguia mostrar.

E Ele diz: “Zaqueu”. Ao chamá-lo pelo nome, Jesus parece alcançar nele uma verdade mais profunda do que sua desordem. Como se o chamasse de volta àquilo que ele é e àquilo que ainda pode tornar-se pela graça. Nós também podemos passar tanto tempo identificados com nossos erros, nossas fragilidades ou com a opinião que os outros formaram a nosso respeito que começamos a acreditar que essa é toda a nossa verdade. Jesus conhece tudo isso, mas seu olhar chega mais fundo. Ele sabe o nosso nome.

Para Zaqueu descobrir essa verdade, é preciso descer. 

O desejo o levou até ali, mas agora precisa dar lugar à entrega. Já não basta querer ver Cristo. É preciso consentir em ser visto por Ele. “Desça. ” Volte à sua medida.  Aceite ser pequeno. Não pequeno porque alguém o diminuiu ou porque lhe falte dignidade, mas porque já não precisa fabricar uma grandeza para ser amado.  Pequeno porque pode apresentar-se diante de Deus sem aquilo que o eleva, o protege ou o faz sentir que finalmente está à altura.

O “desça” é o chamado à humildade: consentir com a verdade. Não precisar ser maior nem menor do que sou. Reconhecer meus dons sem fazer deles minha segurança e minhas limitações sem fazer delas minha identidade. Quando Zaqueu aceita descer, acontece algo que não poderia acontecer enquanto permanecesse no alto da árvore:  Jesus entra em sua casa.

Enquanto tenta vencer sua pequenez, Zaqueu consegue ver Jesus de longe. Quando aceita descer, pode recebê-lo na intimidade. E é justamente ali que Jesus diz: “Hoje preciso ficar em sua casa”. Hoje. Não quando Zaqueu tiver se tornado justo, reparado tudo ou finalmente estiver à altura do próprio nome. Cristo quer entrar na vida que existe agora!

A casa é o lugar da intimidade

A casa é o lugar de intimidade, onde estão as escolhas, os afetos, os bens, as relações, as desordens e as responsabilidades. Jesus não quer permanecer apenas na parte da vida que Zaqueu escolheu mostrar. Quer entrar onde ele realmente vive.

A intimidade com Jesus alcança os lugares concretos da existência de Zaqueu. Seu dinheiro, suas relações, as injustiças cometidas. O encontro com Cristo não o retira da realidade, mas o devolve a ela transformado. O amor recebido desperta uma resposta, e a misericórdia não elimina a necessidade de reparação, mas torna possível olhar para aquilo que foi feito sem fugir.

Então acontece algo especialmente bonito: Zaqueu começa a tornar-se aquilo que seu nome já anunciava. Aquele cujo nome remete à justiça começa a praticar justiça.  Aquele cujo nome fala de pureza permite que sua vida seja purificada. Não porque tenha finalmente conseguido elevar-se o suficiente, mas porque deixou Cristo entrar.

Zaqueu tentou resolver sua pequenez subindo. Jesus o transforma pedindo que desça. E talvez seja por isso que essa passagem me faça voltar às minhas próprias árvores. Onde procuro altura quando me sinto pequena? O que uso para não experimentar minha dependência? O que preciso sustentar para acreditar que sou digna de ser encontrada?

Talvez eu ainda pense que preciso alcançar determinada altura para que Deus possa me ver., Mas Jesus já está debaixo da árvore. Ele já levantou os olhos. Ele já sabe meu nome. E continua dizendo: desça, e eu não só posso, como quero descer, porque Ele quer entrar em minha casa.

 

Ana Clara Gonçalves
Discípula da Comunidade Católica Pantokrator

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