Vocação Matrimonial

Vocação Matrimonial

Meu último texto foi sobre “Cristo no centro do amor real”, que abordava, de certa forma, a minha vida matrimonial. Isso porque falar sobre vocação é falar sobre identidade; é falar sobre o hoje, sobre o agora. Vocação não é algo etéreo ou um status: é o chamado perene do Senhor para mim em vista do Eterno — é o chamado do Senhor para ser d’Ele.

Concretizar isso no matrimônio é sedimentar, no outro escolhido por Deus, uma união que revela Cristo, o verdadeiro centro. Toda vocação tem por fim comum conduzir o homem, de uma forma ou de outra, à via mais concreta para o Céu e, no meu caso, essa via direta é o Lucas. O matrimônio traz a dádiva e a dívida de que Cristo seja bem encarnado no outro: eu amo Cristo amando o Lucas; eu honro Cristo cuidando do Lucas, suportando-o, entregando-me, doando-me, sacrificando-me, compreendendo-o, desejando-o.

Estou casada há apenas seis meses, mas, se hoje o Senhor tirar minha vida, posso dizer que já experimentei uma boa porção do Amor ao qual Ele me vocaciona. Concretizar a vontade de Deus é delicioso na mesma medida em que é desafiador; é sacrificante na mesma medida em que constrange diante de tanto Amor; e passa brevemente, ainda que com a sensação de eternidade. Casada, estou descobrindo a totalidade da minha identidade — não porque eu “sou” apenas sendo do Lucas, mas porque, sendo dele (Lucas), eu me descubro inteiramente n’Ele (Cristo).

Assim, compreendo de maneira muito concreta e encarnada que amar Jesus é simples por ter o Lucas, mas também é exigente por tê-lo, pois o pressuposto da vocação matrimonial é o sacrifício. A fusão de uma só carne exige que eu me disponha de mim mesma para ser “um” com o outro; impõe que eu saia de mim, que me supere, para descobrir a verdadeira liberdade de amar e ser amada.

Começo, então, a entender de maneira mais clara o significado da música com a qual entrei em meu casamento. O nome da música é “Jesus Cristo, Tu és a minha vida”, de Marco Frisina. Essa era a sede do meu coração, o grito de uma noiva que, olhando para o noivo, tinha uma alma que clamava por amar a Cristo. Aquela canção era um forte lembrete de que o casamento não é apenas um dia bonito, com um vestido bonito, um homem apaixonado, amigos e música — é também tudo isso —, mas é, sobretudo, uma decisão por Jesus para o resto da vida.

A minha grande alegria em ser casada com o Lucas, além do homem extraordinário que ele é, é ter a certeza de que estou sentenciada a ter Cristo como centro da minha vida até o dia da minha morte, até o fim. O Lucas me ancora a essa verdade: a minha vocação é um eterno grito da minha alma de que Jesus Cristo é a minha vida. E mais do que isso: é saber que essa sede de realizar a minha vocação se manifesta no ordinário da vida — fazendo comida, tendo planos com meu marido, sonhando com nossos filhos, compreendendo as nossas diferenças, pedindo desculpas quando erro ou quando exagero, perdoando quando necessário, desejando-o em nossa vida matrimonial, chorando com ele e morrendo de rir também.

A minha grande alegria é saber que tudo isso é real, que há uma Graça para eu viver, e que o Senhor me vocaciona a uma vida com Ele — longe da perfeição, mas próxima da Eternidade. A minha vocação me enche de esperança de que o Céu é possível e de que isso faz parte da minha identidade: Ana Clara, mulher, filha, esposa, futura mãe — com a graça de Deus —, vocacionada ao Carisma El-Shaddai Pantokrator!


Ana Clara Cardoso
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator

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