Nós conhecemos a expressão “virar a chave”; é muito comum usá-la no dia-a-dia, diante de muitas situações. Quando um amigo está vivendo alguma situação que precisa de mudança, um namoro terminado, demissão do emprego, etc., nosso conselho é “vire a chave”. Pouco tempo atrás tivemos a virada do ano civil, e muitos fizeram a proposta de ”virar a chave”. Parece algo tão banal, mas pode ter resultados muito bons se soubermos aplicar em nossa vida. E na vida espiritual também não é diferente; precisamos, em muitas situações, “virar a chave”.
Exemplo de quem não soube virar a chave
Temos, nos três Evangelhos sinóticos, a história do “jovem rico”. Vamos nos ater no Evangelho de Marcos, capítulo 10, 17ss.
O “jovem rico” é a figura do pleno cumprimento da lei. É o símbolo do verdadeiro legalista. Sabe que Deus é bom, por isso chama Jesus de “bom Mestre”; talvez seja o único que usa essa expressão. Conhece de maneira conceitual a vida eterna, e Jesus, conhecedor do seu coração, lhe faz uma indagação em cima da pergunta dele sobre a vida eterna: “conheces os mandamentos?”. “Sim”, responde ele, “tudo isso tenho observado desde minha mocidade”. Ele não diz que tem tentado ou observado parcialmente, mas tudo tem observado, ou seja, é cumpridor da lei.
Mas o Senhor faz a proposta para ele “virar a chave” da sua vida, o que vai mudá-la totalmente, e vai abrir verdadeiramente as portas da vida eterna. Jesus fixou nele o olhar, amou-o, e lhe disse: “uma só coisa te falta, vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me”. Mas aquele jovem ficou muito triste, porque era muito rico. O Evangelho não nos mostra o tipo de riqueza, mas dá para perceber que uma coisa muito cara para ele era cumprir a lei, ele é o símbolo fiel da antiga Aliança; tudo o que aprendeu desde muito cedo e pôs em prática lhe era muito precioso, mesmo sendo de forma legalista.
Conosco não é diferente; quantas vezes relutamos em mudar, em “virar a chave” em situações nevrálgicas de nossa vida porque as temos como muito caras, e isso faz que caminhemos escravos dessas situações, mesmo, muitas vezes, parecendo ser coisas boas. Também somos muito ricos.
Santa Terezinha soube virar a chave.
No Natal de 1886 quando ela tinha 13 anos e após participarem da Missa, ela chegou em casa toda feliz para abrir os presentinhos que estavam nas meias penduradas na lareira, mas seu amado pai terreno, já cansado, diz algo que a afeta fortemente – seria o último ano daquele dengo. Instantaneamente lhe vem o choro, mas, em uma firma decisão, ela engole o choro, começa a sorrir e faz talvez o “virar a chave” mais importante de sua vida: percebe sim o amor da família, mas mergulha em um amor maior, do próprio Filho de Deus encarnado. Que decisão extraordinária! Mudou sua vida para sempre, e continua a mudar a vida de muitas outras pessoas pelo seu testemunho. Ela poderia permanecer na lamúria dos seus mimos, mas decide mudar, se abre ao novo e tudo se transforma.
Quantas vezes relutamos em mudar diante de situações tão claras em nossa vida. Preferimos nossos mimos, nos escondemos neles e não crescemos na vida espiritual.
O cobertor
Quando criança, eu padecia de alergias respiratórias causadas por cobertores comuns, a famosa coberta. Diante disso, minha mãe fez para mim, com todo amor de mãe, um cobertor de retalhos, bem bonito. Ele foi a solução para mim naquela situação de alergia. Me apeguei tanto àquele cobertor que, mesmo depois de adulto, para onde quer que fosse, o levava comigo. Mudei de cidade várias vezes por causa do trabalho e sempre o levava comigo. Já quando tinha mais de 26 anos, depois de participar de algum retiro ou alguma pregação que me tocou, fui impelido a me desfazer daquele cobertor; foi uma decisão difícil, pois tinha todo um apelo sentimental, além do físico. Mas aquela decisão foi um “virar a chave” na minha vida. Saí do dengo da mãe, do apego, do “dodoizismo”, para uma nova vida e foi importante demais para minha vida como um todo, não só espiritual, foi uma verdadeira libertação.
Quantas libertações o Senhor tem para nós, mas insistimos em não “virar a chave” porque somos muito ricos.
Nicodemos, o rico que soube passar pelo buraco da agulha.
Nicodemos era príncipe dos sacerdotes que foi ter com Jesus de noite, às escondidas, e Jesus lhe diz que é necessário nascer de novo (cf Jo3,1ss). Ele não entendeu muito naquele momento, mas após a morte de Jesus na Cruz, ele foi ajudar a descer o corpo do Senhor e a sepultá-lo. Ele é citado na via sacra como o rico que soube passar pelo buraco da agulha, alusão ao texto do jovem rico citado acima. Soube “virar a chave”.
O jovem rico em outra perspectiva.
Muitos dizem ser Marcos o jovem rico. Não temos elementos para afirmar isso, mas se realmente era Marcos, que depois se tornou Evangelista, ele realmente soube “virar a chave”. Muitos também dizem que o jovem que acompanhava de longe Jesus na hora da Paixão e foi apanhado, fugindo depois de se desvencilhar do pano de linho que o cobria (Mc 14,51), era o próprio Marcos. E veja que coisa bela: vendeu tudo, se libertou da veste da sua riqueza e fugiu nu, despido de toda riqueza, para encontrar a mais bela riqueza dos homens, a misericórdia encarnada, o próprio Cristo. Isso é verdadeiramente “virar a chave”.
A Cruz, a chave que virou a história da humanidade.
A grande chave que verdadeiramente muda, vira nossa vida, é a Cruz de Jesus; nela reluz a misericórdia Divina. Dela emana toda sorte de bênçãos e graças em nossa vida, em virtude Daquele que a ela se sujeitou. Ela é fonte de salvação para a humanidade perdida, condenada à escravidão eterna.
Precisamos nos desnudar das nossas riquezas diante da misericórdia de Deus, como o próprio Jesus se permitiu ser desnudado na Cruz.
Elias Gobbi
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator



