Sou um ser de desejo

sou um ser de desejo

Você sabia que não é errado ter desejos?

Isso mesmo! Deus nos criou à sua imagem e semelhança, desejoso de ter uma vida conjugada conosco. Fez-nos como seres de desejos. Por isso, não é errado ter desejo; errado está apenas em como o orientamos.

Nós somos o desejo de nosso Senhor! São João Paulo II traduziu isso para nós por meio da Teologia do Corpo, que nos explica que o Senhor não quer apagar os nossos desejos, mas sim direcioná-los, fazendo com que nós, seres humanos, possamos colocá-los para fora na intensidade de quem busca o céu.

Pode ser que, ao longo da sua vida, você tenha escutado, até mesmo dentro da Igreja Católica, que os desejos são coisas do demônio ou, pior ainda, que você precisava renunciá-los. Eu mesma já passei por isso: sentia repugnância em experimentar algo que desejava.

Entretanto, a Teologia do Corpo veio para nos despertar para algo tão rico e belo, resgatando o desejo do coração do homem que se perdeu pelo caminho e que não tem nada a ver com a fé.

Orientando o desejo. 

Todo desejo surge e muitas vezes nos escapa rapidamente, não é verdade? Por segundos, já não sabemos se queremos mais ou se o temos; o prazer é momentâneo e não sacia a nossa sede.

Porém, isso acontece para nos lembrar de que fomos feitos para mais. Precisamos tomar cuidado com o desejo, pois ele nos desperta algo bom, mas também pode nos frustrar e nos entregar decepções.

Sabemos que, muitas vezes, desejar pode ser dolorido. Quando tocamos nossas paixões desordenadas, não sabemos como agir ou o que fazer. Mas, se bem orientado, o desejo nos ensina a nos sacrificar  sim, sacrificar o nosso corpo e nossa alma para aquilo que é bom, belo e verdadeiro.

Se não soubermos fazer isso, iremos nos machucar e acabar magoando os outros. Toda essa sede existe em nós porque queremos amar e ser amados.

O Eros nos revela que somos incompletos e que precisamos do outro para encontrar sentido. O Evangelho é, sim, para o desejo. Por isso, a Sagrada Escritura começa com Adão e Eva, e depois com Deus e a humanidade, Deus e a Igreja, sempre mostrando que um completa o outro.

Tipos de dieta dos desejos


No livro Enchei estes corações, de Christopher West, ele nos explica que existem três tipos de “dieta” em relação aos desejos, e que precisamos ficar atentos a qual estamos submetidos, pois, se nos alimentamos de qualquer coisa, tanto faz para onde isso nos levará.

Inanição

É quando recusamos tudo o que sentimos, dizendo que aquilo não existe. Vivemos de um jeito tão mesquinho e tão medíocre que esquecemos quem somos, acreditando que é errado sentir o que sentimos. Um exemplo disso é quando não enfrentamos os nossos medos e problemas, escondendo-nos atrás de um vício que tapa a dor apenas momentaneamente.

Fast food

É quando, sem nos conhecermos ou termos domínio sobre nossos desejos, aceitamos qualquer migalha para satisfazê-los. Um exemplo claro é a sexualidade desordenada, quando deixamos que os desejos sexuais desordenados nos dominem, em vez de orientá-los corretamente.

Banquete

Esta é a verdadeira dieta do nosso Evangelho! Deus nos fez para muito e não nos quer saciando com pouco; Ele nos criou para muito mais! Quando experimentamos as coisas certas, estabelecidas por Deus, conseguimos encontrar o desígnio e o destino de nossos desejos.

Desígnio da Criação. 

Desígnio significa um propósito, separar para algo.

Precisamos aprender a mirar nosso desejo de acordo com o desígnio divino, a fim de alcançar nosso destino eterno. O desígnio da Criação fala dos desígnios íntimos do Criador: seus planos, seu propósito e seu convite ao homem e à mulher para adentrar no Seu próprio mistério, seu amor e Sua vida.

Toda a criação fala do mistério do matrimônio. A história da Criação nos revela as diferenças entre homem e mulher, o próprio supremo da diferença sexual e o chamado à união entre o Criador e a criatura, entre Cristo e sua Igreja.

Deus deseja ser um com sua criação; ele deseja casar-se com ela o matrimônio da divindade com a humanidade. Sim, Deus quer casar conosco! Nossos corpos são designados para tornar visível o que é invisível: o espiritual e o divino. Como dizia São João Paulo II, Deus criou nossos corpos em sua masculinidade e feminilidade precisamente para transferir do céu para a terra o mistério escondido desde a eternidade de Deus.

Deus propõe um casamento conosco na eternidade, mas não nos força a dizer “sim”. Temos todas as razões para acreditar que nada o fará parar na busca por conquistar nosso “sim”, livremente dado. Contudo, devido à nossa responsabilidade e liberdade, existe a possibilidade de escolher a eterna separação de Deus.
Deus honra os nossos desejos.

Destino qual caminho escolher? 

A chama do Eros fala do anseio do nosso coração pela eternidade. Ela revela o nosso destino, e dependendo de onde miramos, nos leva a dois tipos de caminho: o Céu ou o Inferno. O Céu, segundo o Catecismo da Igreja Católica, é o encontro com Deus, a felicidade definitiva e suprema. Por outro lado, o Inferno é a separação eterna de Deus.

A ética sexual cristã não é uma lista de proibições, mas um convite para realinharmos nossos desejos com o amor autêntico, de modo que possamos ser felizes tanto aqui quanto na vida futura.

Se tivermos como objetivo alinharmos nossos desejos eróticos à linguagem do amor, nossos instintos egoístas certamente se levantarão em batalha. É aí que entra a virtude da castidade. A castidade é a virtude que supera o impulso egoísta da luxúria dentro de nós e orienta a selvageria do Eros para a verdade do amor infinito.

Isso significa que toda pessoa, independentemente do seu estado de vida, é chamada a viver a virtude da castidade. Ela representa a integração correta da sexualidade na pessoa, promovendo a unidade interior do homem em seu corpo, espiritual e corporal. Ou o homem comanda suas paixões e alcança a paz, ou se deixa subjugar por elas e se torna infeliz.

O desígnio de Deus não se opõe à liberdade; ele se opõe àquilo que nos prende à libertinagem. A liberdade é a capacidade de acertar o alvo para onde estamos mirando. Ela nos permite escolher acertar, ou, por abuso dela, errar o alvo.

Que o bom Deus os abençoe. 

Referências

Retiro 3D- Comunidade Pantokrator

WEST, Christopher. Enchei estes corações – Deus, sexo e o anseio universal. Tradução de Laila Cândida de Jesus Lima de Sousa. São Paulo: Cultor de Livros, 2018. ISBN 978-85-5638-151-4.

Carla de Fátima Gaspar
Comunidade Católica Pantokrator

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