“Sereis felizes, sob condição de as praticardes.”

felizes

“Sereis felizes, sob condição”. Destaco esse trecho do nosso tema, pois quem não quer ser feliz? A felicidade é um anseio profundo da alma humana. Deus é feliz e toda felicidade se encontra n’Ele, sendo assim, nosso desejo de felicidade é o desejo que temos de Deus.

Porém, após a vírgula destaquei duas palavrinhas que mudam o cenário: “sob condição”.  É exatamente nesse ponto que esperneamos. Na verdade, já começa no “se” do título (retirado do Evangelho de São João 13,17).

“Se (…) sob condição”

Quem dera o “sereis felizes” viesse despregado dessas duas asas: “se compreenderes e sob condição de as praticardes”. Falamos do contexto da última ceia, ocasião do Lava pés. No entanto, a felicidade não é só um desejo nato, é decisão e consequência de nossas escolhas. Por isso, ela precisa ser conhecida para ser escolhida de forma consciente.

A felicidade está em Deus e é Ele mesmo. Se aderimos a Ele, decidimos ser felizes, ao mesmo tempo que iremos fazer as coisas que nos levem a sua aquisição plena e eterna, nos céus.  Por isso, Jesus nos diz “se compreenderes… e sob a condição de as praticares”.

De que adianta ouvir as palavras de Deus, sem compreender e praticar? Se elas não nos provocam conversão? Sem o Espírito Santo, é impossível seguir a Cristo e é esse mesmo Espírito quem nos dá a verdadeira compreensão das palavras do Salvador. Palavras que não se contradizem e não mudam.

Se eu compreender e não praticar, pior para mim, pois saberei o que devo fazer e não farei, por escolha própria. Cada um é o único responsável pela própria vida; nem a vizinha, nem o amigo, nem o presidente, ninguém é responsável pela nossa vida a não ser nós mesmos. Escolher entre o pecado ou a virtude é uma decisão nossa.

Se houver a prática mesmo sem entendimento, esse mérito dependerá da nossa intenção ao praticar o ato. Se fizermos por legalismo, o vazio “fazer por fazer” ou para nos exibir, pior para nós, pois perderemos uma grande oportunidade de nos exercitar na virtude. Trago como exemplo os homens que encheram as talhas d´água nas bodas de Caná, não compreenderam o que estavam fazendo, porém obedeceram. A obediência de fé e a caridade podem transformar uma prática não compreendida, pois concedem ao ato um sentido mais elevado.

Porém Jesus quer nos ensinar a sermos felizes, a viver o sentido de Suas palavras, compreendê-las e praticá-las, sermos coerentes e responsáveis pela nossa conversão, e levar outros pelo mesmo caminho.

“Sereis felizes!”

O problema é que queremos viver do nosso jeito e procuramos a felicidade assim. Queremos a “taça da vitória” sem correr a maratona, queremos dar uns passinhos e, já cansados, pedir que alguém puxe a faixa de chegada para perto de nós. Exigimos, muitas vezes, que o prêmio nos seja dado de qualquer forma, mesmo que eu burle o jogo, bagunce as peças do tabuleiro ou até roube a taça, a vitória tem que ser minha a todo custo, sob as “minhas regras”.

Porém, felicidade também é mérito, consequência da honestidade e do empenho do jogador.

Felicidade verdadeira, que preenche a alma e é eterna, só Deus pode nos conceder. O mundo nos oferece um protótipo fuleiro de felicidade, através da promoção de episódios de alegria. Mas Jesus, no sermão da montanha, não confundiu as coisas ao proclamar as “bem-aventuranças”!

Muitas vezes agimos como crianças mimadas, perdemos a resistência ao sofrimento, qualquer coisa nos causa dor, desespero, vestimos nossa casquinha de ovo e ai de quem ousar tocar nela! Se não acontece como eu determinei ou esperei, já começo a espernear, como aquela criança que dá escândalo no supermercado quando os pais lhe negam algo.

Vivemos numa sociedade mimada pelos prazeres de momento, pílulas de êxtases, facilidades e rapidez. O problema é que isso nos deixa hiper sensíveis à dor, qualquer coisa já nos incomoda. A criança mimada chora por pouco e por tudo que sai do seu controle ou do seu desejo.

Estamos iludidos de que o mundo, as pessoas e até Deus têm que se encaixar naquilo que nossa mente impura e limitada pensa. (No “meu” modo de ver as coisas: eu, eu e eu.) Achamos que somos o centro do universo, que as pessoas nos devem coisas e endurecemos nosso coração à gratidão.  Quantas vezes agimos como se pensássemos que o direito é nosso e o dever, do outro?

Jesus, o Centro, Deus do Universo, Mestre e Senhor, o Pantokrator, se abaixa e nos lava os pés…

E nós, míseros ingratos, nos achamos bons demais para lavar os pés do outro mísero ingrato, servir o outro, perdoar o outro…

Será que não estamos nos comparando demais com os outros? Justas e benéficas são as comparações que fazemos conosco mesmo (nosso antes e depois) e com Jesus Cristo, o Modelo central da vida humana.

Quereis ser felizes? Aprenda com quem é!

Jesus é o Deus feliz, o Mestre que pratica o que fala. E nos ensina a fazer o mesmo.

“O Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em regate por uma multidão”.  (cf. Mt20,28)

Ele lava os pés dos discípulos, abaixa-se a nossa sujeira, desce dos céus a nossa miséria para nos lavar. Esse é o movimento de Sua Misericórdia! Ele desce, lava-nos e nos eleva.

“Logo, se eu, vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros.” (cf. Jo13, 14)

Imitar o Mestre é ser como Ele, ser como Jesus é a maior elevação que uma alma pode alcançar e Ele veio ser nosso caminho! Muitos santos o trilharam e agora são “bem-aventurados” eternamente.

“Em verdade, em verdade, vos digo: o servo não é maior que o seu Senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou.” (cf. Jo13, 14)

Quantas vezes acreditamos que sabemos mais que o Mestre e que a nossa maneira de ser e fazer é melhor do que a Dele? Nós acabamos por criar nossos próprios “mandamentos”, desejando receber a recompensa dos Dele. Na verdade, queremos “ser como deuses” sem Deus (a tentação da serpente a Adão e Eva), mas, na verdade, só seremos “deuses em Deus”.

Que o Espírito Santo nos ajude a viver esses dias santos em que adentramos, imersos na Misericórdia de Deus, para que, compreendendo o Amor que nos amou ao extremo: lavou-nos dos nossos pecados por Sua Paixão e nos convidou à Sua glória, por Sua ressurreição. Que possamos a Ele responder, vivendo a felicidade de uma vida renovada.

Rosana Vitachi
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator

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