A Quaresma é o tempo litúrgico que se inicia na quarta-feira de cinzas e termina na quarta-feira da Semana Santa. Nesse período, somos especialmente chamados à vivência da conversão e do recolhimento, momento propício para um encontro consigo mesmo e com Deus. Durante esse tempo, intensificamos as práticas da vida de oração, jejum e caridade (Cf. Mt 6). Muitos parecem temer esse momento por nos remeter ao sacrifício, à penitência e à ascese… Façamos a experiência desse tempo oportuno de graça! Faremos aqui uma breve reflexão sobre a penitência. Você já escolheu a sua?
O que a Igreja nos diz sobre a penitência?
“A penitência interior é uma reorientação radical de toda a vida, um regresso, uma conversão a Deus de todo o nosso coração, uma rotura com o pecado, uma aversão ao mal, com repugnância pelas más ações que cometemos. Ao mesmo tempo, implica o desejo e o propósito de mudar de vida, com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda da sua graça. Esta conversão do coração é acompanhada por uma dor e uma tristeza salutares, a que os Santos Padres chamaram animi cruciatus (aflição do espírito), compunctio cordis (compunção do coração) (Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 1431).
“A penitência interior do cristão pode ter expressões muito variadas. A Escritura e os Padres insistem sobretudo em três formas: o jejum, a oração e a esmola que exprimem a conversão, em relação a si mesmo, a Deus e aos outros. A par da purificação radical operada pelo Baptismo ou pelo martírio, citam, como meios de obter o perdão dos pecados, os esforços realizados para se reconciliar com o próximo, as lágrimas de penitência, a preocupação com a salvação do próximo, a intercessão dos santos e a prática da caridade «que cobre uma multidão de pecados» (1 Pe 4, 8) (Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 1434).
Como escolher a penitência mais adequada?
A melhor maneira de discernir a penitência mais adequada para cada um é, antes de tudo, colocar-se em oração e clamar o auxílio e a sabedoria do Espírito Santo. Devemos entrar em comunhão com Deus e silenciar-nos para que o Senhor fale aos nossos corações.
Toda penitência implica sacrifício. Portanto, se você não tem costume de tomar refrigerantes, não tem sentido deixar de beber Coca-Cola durante a Quaresma. É necessário que gere em você uma ascese, um exercício, uma busca de desapego, equilíbrio, temperança e conversão. Abstemo-nos de algo de que gostamos não para passar fome, sede ou vontade, mas há significado muito mais interior do que exterior.
É interessante também refletir sobre a oração, o jejum e a caridade. Pense em penitências que te ajudem a desenvolver essas práticas, como por exemplo, rezar o terço todos os dias (ou mais de um, se você já tem esse costume), participar da missa mais vezes durante a semana, manter-se firme no jejum, pular os lanchinhos da tarde ou deixar de petiscar durante o dia, ajudar alguém que passa por uma dificuldade específica ou visitar um parente que você não vê há muito tempo. O Espírito Santo é criativo e suscitará muitas ideias!
A Quaresma também é um tempo oportuno para o exercício das virtudes. Uma sugestão é incluir uma ou duas na sua lista de penitências! É importante a escolha de penitências espirituais e físicas, que externalizem a vivência interior.
Viver as penitências no escondimento
“Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu.
Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, irá recompensar-te. Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, te recompensará.” (Mt 6,1-6)
Nossas práticas de penitência não devem ser um ato de exibicionismo para que sejamos vistos pelos outros como “heróis” ou “santos”. Pelo contrário, elas devem ser vividas com discrição e no escondimento. Assim, cresceremos em humildade e santidade. É fundamental darmos sentido à vivência das penitências. Não viva seus sacrifícios e privações em vão! Você pode oferecê-los pela salvação das almas ou pelas almas que se encontram no purgatório, por exemplo! Quando feito com amor, até o menor dos gestos é capaz de salvar uma alma!
Quaresma – momento de graça!
Aproveite o momento de graça próprio da Quaresma para amadurecer espiritualmente! Caminhe pelo seu deserto ao lado de Deus, encare suas fraquezas e combata frente às tentações com as armas do autodomínio e da força da graça de Deus!
É a autêntica vivência do tempo da Quaresma que nos preparará para a Páscoa, a fim de sermos plenificados com a graça da Ressurreição de Cristo!
Que o Bom Deus nos abençoe e que o Espírito Santo nos conduza!
Adriane Luz
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator



