Esse é o grito que clama no interior daquele que reconhece em si a sede de Deus, onde Ele habita, onde encontrá-l’O. Esse “onde” revela muito mais que um lugar, revela estar na intimidade, onde verdadeiramente encontramos nossa realização.
O que é intimidade?
É a revelação da essência do nosso ser. Esse era o desejo daqueles dois discípulos que começaram a seguir e Jesus e recebem d’Ele um questionamento: “Que procurais?” (cf. Jo 1,38-39). E a resposta daquele que tem sede da intimidade de Deus não poderia ser outro: “Rabi, onde moras?” Jesus, conhecedor dos seus corações não poderia dar uma resposta qualquer, mas faz um convite: “vinde e vede”.
É o convite que Jesus faz a todos que desejam a sua intimidade, convite que ressoou na vida dos santos que desejaram o mais alto grau da perfeição, que não se obtém pelos simples esforços e méritos humanos, mas que está na intimidade, na vida da graça do Mestre.
“Façamos o homem a nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26).
Muito se tem estudado sobre o homem, muitos conceitos temos disponíveis, mas o principal e primeiro continua atual e mais verdadeiro. O homem foi criado por Deus, e o Criador o fez de maneira admirável: “Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso” (Sl 138,14a.), e o criou a sua imagem e semelhança.
Isso nos leva a um questionamento e ao mesmo tempo a uma sublime resposta. Qual imagem de Deus é espírito? A imagem do Seu Filho encarnado. N’Ele fomos moldados.
E aí está a resposta do “por que” aqueles dois discípulos procuravam a intimidade do Mestre, reconheceram n’Ele a sua essência primeira, a sua identidade e o grito de reconciliação com todo criado. Eles são o símbolo da humanidade decaída que tem saudade do Criador, da sua intimidade (cf. Gn 3,8).
Grande mistério de amor
A vida do homem está entrelaçada com o próprio Deus; em Jr 31, 3 lemos: “De longe me aparecia o Senhor: amo-te com eterno amor”. Eterno pressupõe algo que não tem começo nem fim, portanto, esse longe nos revela que o homem é amado e querido por Deus desde sempre, desde toda eternidade, muito antes da criação e antes de nossa concepção.
O filho de Deus encarnado é o ápice desse mistério, nele é revelada e atraída toda história do homem, da sua essência, da sua dignidade. Ele abarca tudo sobre o seu ser encarnado, a perfeição do criado e a resposta dos nossos anseios mais profundos. É o encontro de Abraão com Melquisedec, quando Abraão se alegrou e se reconheceu um como ele (cf. Hb 7,1-3).
Em Cristo nós nos reconhecemos, mergulhamos em nossa essência. Toda casca, toda máscara que o mundo tenta nos impor cai por terra, porque Cristo é a imagem viva da Criação, é o mistério que atrai a si e em torno de si todo criado, tudo gira em torno d’Ele, para n’Ele ser reordenado, recapitulado.
É o El Shaddai que desce as profundezas da nossa essência ferida pelo pecado e nos eleva em Sua grande misericórdia, desde que reconheçamos nossa fragilidade e dependência. É o “grito” do filho pródigo que tem saudade da casa do Pai (cf. Lc 15,17-20).
O seguimento de Jesus
O Evangelho nos diz que aqueles dois discípulos foram e passaram o dia com o Senhor. Desde então, deixaram de seguir João Batista, seu mestre anterior, e passaram a seguir Jesus.
João Batista é tido como o maior dentre os nascidos de mulher, dito pelo próprio Jesus, ou seja, ele é a “replica” mais perfeita do molde, imagem da criação do homem que é o próprio Jesus, mas para aquele que anseia a plenitude da vida da graça, não basta a melhor “réplica”, necessita do “original”. E o próprio João é primeiro a indicar Jesus aos seus discípulos: “Eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1,36). Por isso a doutrina dos Santos nunca aponta para si, mas sempre para Jesus Cristo.
Coração de Jesus aberto na cruz, fonte de encontro.
Para mergulharmos na Sua intimidade, Jesus permitiu que fosse aberta uma chaga perene no seu sacratíssimo coração, para nele ser lugar de encontro com sua intimidade e dele beber todo necessário para nossa vida espiritual.
O Coração aberto de Jesus é o “portal” de intercâmbio entre o céu e a terra. Dele emana toda vida da Igreja, nele encontramos a intimidade que cura nossa história, que nos reconcilia com todo criado, nele podemos passar o “dia” com o Senhor e saciar nossa sede de intimidade com o Mestre.
O Coração aberto de Jesus na cruz é o grande abismo que os que verdadeiramente creem são chamados a se lançar sem reservas, sem nenhum segurança humana, a exemplo dos santos. E o mais interessante que esse abismo de amor é diferente do abismo comum que conhecemos, no qual nós caímos. Esse abismo ao contrário, nele não caímos, mas somos elevados para o mistério do amor eterno do Pai. Nele nós rompemos os limites do tempo e do espaço para nos lançarmos no hoje eterno de Deus e aí transcender, tocar no mistério no qual fomos criados.
Em cada sacrário o Senhor nos espera para ser resposta desse questionamento: “Mestre, onde moras?” e lá encontraremos a resposta do “vinde e vede”.
Fontes
Retiro interno da Comunidade Católica Pantokrator
Regra de vida Comunidade Católica Pantokrator
Livros e retiros espirituais.
Elias Gobbi
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator



