Vivemos em uma época que valoriza intensamente a autonomia e o controle. Planeja-se quase tudo: carreira, corpo, tempo, afetos. Nesse contexto, a maternidade e, com ela, a paternidade, passaram a ser vistas, muitas vezes, como algo a ser adiado indefinidamente ou até evitado. Ter filhos deixou de ser entendido como dom e passou a ser tratado como risco.
Entretanto, essa lógica de controle absoluto entra em choque com uma realidade profunda: o ser humano foi criado para gerar vida, cuidar dela e transmiti-la, não apenas biologicamente, mas também espiritual e afetivamente.
A dor silenciosa de quem deseja gerar vida
Ao mesmo tempo em que a sociedade oferece inúmeros meios para evitar filhos, pouco se fala sobre aqueles que desejam ser pais e não podem. Há mulheres que sonham com a maternidade e convivem com a infertilidade. Há homens que desejariam exercer a paternidade e enfrentam limites que não escolheram.
Essa dor costuma ser invisível. O discurso dominante diz que há “outras prioridades”, “outras formas de realização”. Contudo, o desejo de gerar vida não é um capricho cultural: ele nasce de uma vocação profunda inscrita no coração humano.
São sonhos interrompidos, orações repetidas, silêncios aprendidos. E ainda assim, nesses mesmos corações, permanece uma capacidade intacta de amar, cuidar e proteger.
Outras formas de maternidade e paternidade
Ao longo da história da Igreja, santos e santas testemunharam que é possível gerar filhos para Deus por meio da presença, da doação e da fidelidade cotidiana. Nessa perspectiva, a maternidade aparece como vocação do amor que se oferece e não apenas como função orgânica.
Gerar vida, então, é também formar consciências, sustentar esperanças, proteger o que ainda é frágil, mesmo quando nada disso é visível ou reconhecido.
A cultura que teme a vida
É impossível ignorar o modelo de sociedade que se consolidou nas últimas décadas. Nunca houve tantos recursos contraceptivos, tantas promessas de controle reprodutivo e, paradoxalmente, tanta dificuldade em sustentar vínculos duradouros.
O problema não está apenas nos meios, mas na mentalidade que se formou: uma cultura que vê a vida como ameaça à liberdade.
São João Paulo II, em sua defesa constante da dignidade humana, alertava para esse risco ao falar da oposição entre a cultura da vida e a cultura da morte. Para ele, quando a sociedade deixa de acolher a vida nascente, começa também a perder o sentido da própria humanidade.
Bento XVI, por sua vez, recordava que a vida não é algo que possuímos, mas algo que recebemos. Quando esquecemos isso, tudo se transforma em objeto de uso, inclusive o corpo, o tempo e as relações.
Maternidade como ato de resistência
Em um mundo que rejeita compromissos definitivos, a maternidade em todas as suas formas, torna-se um ato silenciosamente revolucionário. Ela afirma que a vida vale mais que a eficiência, mais que o cálculo, mais que o medo de perder autonomia.
Ser mãe, ser pai biologicamente ou espiritualmente é dizer: eu fico.
É aceitar que a vida não cabe inteira em nossos planejamentos.
É reconhecer que amar implica risco, entrega e permanência.
O Salmo recorda: “Tua mulher será em teu lar como uma vinha fecunda. Teus filhos em torno à tua mesa serão como brotos de oliveira.” (Salmo 127,3).
Mesmo quando essa herança não vem da forma esperada, o chamado a proteger e promover a vida permanece.
Escolher a vida, sempre
Falar de maternidade hoje é falar de sonhos, de perdas, de esperança e de responsabilidade social. É reconhecer a dor de quem não pôde gerar, sem romantizá-la. É valorizar outras formas de cuidado, sem relativizar o valor da vida.
Uma sociedade que rejeita filhos corre o risco de esquecer como ser filha.
Uma cultura que teme a vida acaba empobrecendo o amor.
Defender a vida não é um discurso ideológico. É um compromisso humano, ético e espiritual. E toda pessoa que aprende a cuidar da vida, onde quer que ela esteja, já participa do mistério mais profundo da criação.
Érika Tartari
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator



