Entenda o ciúme de Deus na sua vida

A palavra de Deus traz em várias passagens, de vários livros, que Deus nos ama e nos ama profundamente. Deus nos ama até o Ciúme!

“Eu te atraía com laços humanos, com laços de amor” (Os 11,1)

Crescemos ouvindo (e experimentando) que o ciúme é uma coisa ruim, um apego que precisa ser liberto, uma escravidão afetiva para quem é ciumento e um jugo para quem é o alvo do ciumento. 

Mas o que é o ciúme?

A palavra “ciúme” tem sua origem no latim, vem de ZELUMEN, por sua vez é derivada de ZELUS, que pode ser traduzida para o português como “desejo amoroso, ciúme, emulação”. Indo mais a fundo, a palavra latina que deu origem a todas essas é ZELOS, que significa “zelo, ciúme, ardor”, essa palavra também é a etimologia de “zelo”¹

Veja, ciúme é uma palavra que em sua origem, em sua raiz e na sua essência é zelar, cuidar, amar. Deus nos criou e nos ama. Ele nos ama tanto que Seu amor gera um Ciúme por nós. O Ciúme de Deus é muito diferente do nosso.

Nós, pessoas limitadas e miseráveis, temos contaminado nosso amor pelos outros. Misturamos nosso amor com egoísmo, com posse, com controle ou desejo de ser cuidado e, de forma irracional (ou nem tanto) entramos em um círculo vicioso e nos afundamos afetivamente.

Deus não! Seu Ciúme é proteção, amor e zelo. Ele nos ama tanto, tanto… tanto que, literalmente, deu a Sua vida a nós. E continua dando a Sua vida por nós. Ele nos criou, Ele nos sustenta, Ele cuida de nós.

Se Deus por um milésimo de segundo deixar de pensar em nós, simplesmente desaparecemos. O sustento de nossa vida está nas mãos de Deus. Nosso nome está escrito em Sua palma, nossa vida é um sopro de Seus lábios, insuflado em nossas narinas e armazenada em nossos pulmões².

Esse amor se manifesta de muitas maneiras. Devido a nossa história e, como latinos, romantizamos demasiadamente a vida, queremos “florir” situações e “encantar” outras e, emocionalmente, fugimos da realidade criando, “esquizofrenicamente”, outra realidade da qual temos a convicção que deveria ser aquela.

Criamos um deus. Criamos uma relação inexistente com um deus que nós mesmos imaginamos. Construímos e vivemos por anos uma paixonite de novela mexicana com esse deusinho e projetamos o que achamos que deveria ser a relação com o Verdadeiro Deus.

Amor Poderoso

O Ciúme de Deus é verdadeiro! O Amor de Deus é profundo, verdadeiro, apaixonante … enfim: Poderoso!

Deus é extremamente didático, realista simples e prático. Trago aqui 2 exemplos para clarificar e destrincharemos esse assunto:

Você chega esbaforido no trabalho, pois o trânsito estava caótico. Ao dar bom dia a seu colega, o mesmo lhe ignora. O que se pensa: “Puxa, com a manhã que tive, se fosse com essa pessoa, tinha surtado, não consegue nem responder um bom dia…” Ao inquirir a pessoa, a mesma está “no mundo da lua” devido ao problema que surgiu e nem ouviu seu cumprimento. 

Outro caso é quando a moça ao entrar no elevador, o rapaz lhe dá um sorriso e segura a porta do elevador para ela passar. Já mil borboletas surgem em sua mente e em seu coração. O rapaz, gentil e educado cruzou com a moça em um momento delicado e frágil em sua afetividade onde ela vê cada gesto como um sinal de algo que espera.

Trouxe 2 situações do quotidiano: uma com emoção quente outra com emoção mais fria. Fazemos a mesmíssima coisa com Deus:

  • Se pedimos um namoro, Ele tem que dar, afinal vou à missa, devolvo o dízimo, tenho trabalho apostólico, rezo e blá, blá, blá;
  • Se pedimos um emprego e não vem, culpamos a Deus porque Ele não ouve nossas preces, não dá nada a nós, fazemos muito e recebemos pouco e blá, blá, blá;
  • Se pedimos a Deus que tome conta de um ente querido doente e o mesmo falece, acusamos a Deus de injusto, insensato e blá, blá, blá;
  • Se buscamos o caminho de consagração, achamos que Deus nos mimará, afinal estamos dando a Ele toda nossa vida, nossa sexualidade e afetividade e começamos com doçuras e encantos de Santa Teresinha, os poemas de São João da Cruz e Deus, por vezes, responde-nos como a São Padre Pio, ou seja, não nos dá o romantismo que queremos, mas a realidade que nos é necessária.

O Amor Poderoso e ciumento de Deus nos dá o que é imprescindível: 

  • Se é tempo de crescer, permitirá situações difíceis e contraditórias para que nosso amor seja purificado;
  • Se é tempo de ser consolado, dará todo o afeto necessário a isso;
  • Se é tempo de purificação, permitirá as situações contraditórias e que levam, por vezes, ao limite nossa decisão para que ela seja livre e firme;
  • Se é tempo de colher os penosos caminhos de conversão, Ele será, por vezes, afetivamente amoroso e efetivamente demonstrativo.

Jesus passou por nós e passou como homem. Subiu ao Céu como homem, do sexo masculino. E traz em Si estas características como ser prático e objetivo, salvaguardar e defender o seus, construir, empreender, abnegação e exigência em seus objetivos. Isso é manifestação do Amor ciumento. 

Não pensamos no Amor (e, principalmente, o amor ciumento de Deus) como as situações acima mencionadas, mas são elas que quebram os deusinhos que construímos. Relacionar com o Deus verdadeiro, com o Jesus Deus e HOMEM, nos faz crescer e experimentar verdadeiramente Seu Amor.

A liberdade do Ciúme de Deus: as núpcias com o Cordeiro³

Não existe união matrimonial com Jesus sem passar por essa purificação: abrir mão da maneira que gostaria que Deus me tratasse para RELACIONAR com Deus como uma pessoa que tem gostos, preferências e Vontade.

O Ciúme de Deus nos faz livres e livres de nós mesmos, para que sendo livres possamos nos dar inteiramente a Ele. A quaresma que vivemos (e viveremos anualmente) tem (quando bem vivida) essa capacidade de nos libertar de nós mesmos para, no tempo Pascal, exultar no amor poderoso de Deus e no comum de nossa vida, perseverar até o fim.

Possamos nós, experimentar e deixar ser experimentado por esse Amor profundo, grandioso, apaixonante, Ciumento, enfim, Poderoso de nosso Deus!

¹https://www.gramatica.net.br/etimologia-de-ciume/ e conforme https://www.dicio.com.br/ciume/ 
²Is 49, 16; Ez 37 1-5
³Cf Ap 19, 7-8. A Noiva é a Igreja, somos nós que nos purificamos para nos unir eternamente com Cristo Glorioso. Ele nos espera para nos desposar. Para isso, é necessário encontrar o Verdadeiro Deus, o Verdadeiro Cristo: o homem-Deus que nos salvou e se relaciona conosco como Pessoa

Leonardo Araujo Pataro
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

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