O brilhante escritor inglês Chesterton dizia uma frase engraçada, a respeito dos inimigos do cristianismo: “Qualquer pedaço de pau serve para bater na Igreja”. Embora Chesterton tenha morrido há mais de 80 anos, esta frase continua sendo verdadeira. Talvez, mais verdadeira do que nunca… E quando se trata de “bater” no catolicismo, o assunto preferido dos detratores é a “famigerada” História da Igreja.
Conheço muitos católicos – às vezes, até bons entendedores de Doutrina – que sentem vergonha e constrangimento ao se referirem à história da Igreja. De fato, todos nós já tivemos professores que se aproveitavam de convicções pessoais para dar algumas alfinetadas na “Inquisição Espanhola” ou nos “terrores da Idade Média”.
Se você for um destes envergonhados, eu tenho algo muito sério a te dizer: Você deveria ter orgulho de pertencer à Verdadeira Barca de Pedro! A história da Igreja não deve ser vista como um “ponto fraco” ou algo a ser ignorado. Muito pelo contrário: a história da Igreja é a comprovação cabal de que esta não é uma instituição deste mundo!
Isto é algo muito certo. Não existe nenhuma outra instituição humana (com sua estrutura, hierarquia e normas) que tenha sobrevivido por dois milênios, nem perto disso. Quem estuda com profundidade as épocas, perseguições, batalhas e conflitos atravessados pelo catolicismo, não terá a menor dúvida de que a Igreja somente permaneceu em pé por obra do próprio Deus!
CONHECER PARA AMAR
Querem um exemplo daquilo que eu digo? Há algumas décadas, viveu um historiador alemão chamado Ludwig Von Pastor. Ele era protestante e, certa vez, desafiou publicamente a Igreja Católica a abrir os famosos “arquivos secretos do Vaticano”. Ludwig afirmava que a Igreja escondia seus documentos para que não fossem revelados os mais sujos segredos.
O grande Papa Leão XIII aceitou o desafio: mandou dizer a Ludwig Von Pastor que todos os documentos da Igreja estariam à sua disposição, a fim de que ele fizesse a pesquisa que bem entendesse. O historiador não pensou duas vezes: resolveu escrever uma obra contando a história dos papas da Igreja.
Ludwig passou anos produzindo uma obra monumental, em mais de 40 volumes (uma das mais respeitadas até hoje!). Ele se deparou com algumas histórias belíssimas e com outras bastante horríveis. Um dia, ele pediu uma audiência com o Papa e afirmou que queria se tornar católico. Leão XIII não entendeu nada e o questionou. Ludwig explicou: “Santidade, eu me convenci de que a Igreja Católica é realmente uma instituição divina. Afinal, se nem os Papas conseguiram destruí-la, é porque é divina mesmo!”.
A IGREJA NÃO TEME A VERDADE
É preciso ressaltar que muitas das acusações e lendas envolvendo a história da Igreja já foram desmentidas por historiadores de renome mundial, muitas vezes não religiosos. E a Igreja não vê problema algum em incentivar os estudos históricos, muitas vezes fornecendo elementos e financiando pesquisas.
Um exemplo: no ano de 1998, São João Paulo II reuniu os trinta maiores especialistas do mundo sobre o tema das Inquisições (sendo que muitos deles nem eram católicos). O Santo Padre concedeu acesso aos arquivos do Vaticano, a fim de que fosse realizado um estudo completo e detalhado sobre a questão. As investigações terminaram em 2004, quando o resultado dos trabalhos foi publicado. Conclusão: muitas das “lendas negras” contra a Igreja foram derrubadas.
O já mencionado Papa Leão XIII escreveu uma epístola (“Saepenumero Considerantes”), onde abordou o tema dos estudos sobre a História da Igreja. Ele enalteceu que muitos atacam a Santa Igreja com calúnias e que nós, católicos, não devemos ter medo de buscar a verdade de cada acontecimento. Ele anotou, em certo trecho: “Esperamos que o maior número possível de homens tenha desejo de investigar a verdade, recorrendo a documentos dignos de consideração”.
A ESTRATÉGIA MALIGNA: ESCONDER O QUE É BOM, EXAGERAR O RUIM
Se alguém for te dar uma aula sobre a “história da medicina”, certamente não começará falando sobre os médicos que causaram mortes por não cumprirem as normas técnicas. Do mesmo modo, a pessoa que for narrar a história da arquitetura, não dará o seu enfoque aos prédios que caíram por terem sido mal planejados.
Porém, quando se trata de história da Igreja, é justamente assim que agem alguns “professores” e “intelectuais”. Note que a Igreja possui milhares de santos canonizados; é a instituição que mantém mais hospitais e orfanatos no mundo inteiro; possui uma Teologia riquíssima, que jamais entrou em contradições; foi quem fomentou a cultura no mundo civilizado; quem criou as universidades…
Mas não são estas coisas que nós costumamos ouvir. Ao invés disso, dizem que as Cruzadas foram empreendimentos meramente econômicos (quando, na verdade, milhares de pessoas derramaram o próprio sangue pela fé e pela glória de Deus); dirão que as Inquisições matavam “milhões” de pessoas (quando, na verdade, elas salvaram muita gente de condenações injustas); dirão que a Igreja matou o cientista Galileu Galilei (quando, na verdade, ele morreu de velhice em sua confortável mansão, recebendo os Sacramentos católicos).
Atacar a história da Igreja é uma artimanha compreensível, afinal não são muitas as pessoas que irão pesquisar a verdade dos fatos. Isso começou a ocorrer já no século XVI, com as propagandas protestantes, e se intensificou no século XVIII, com o iluminismo. É justamente por isso que precisamos nos aprofundar cada vez mais na busca pela Verdade.
ENTÃO QUER DIZER QUE A IGREJA NUNCA ERROU?
É preciso fazer uma distinção bem clara: a Igreja é Santa; os filhos da Igreja, nem sempre. Em outras palavras, a Igreja não erra (e nem pode errar) em determinadas matérias, como por exemplo, o ensino dos Dogmas ou a interpretação das Escrituras. Afinal, ela é movida pelo Espírito Santo e as portas do inferno jamais prevalecerão sobre ela (cf. Mt 18,18).
Por outro lado, é evidente que os filhos da Igreja são suscetíveis a erros. E quando erram, devem ser repreendidos, pois são verdadeiros traidores do Corpo Místico de Cristo. Todos os últimos papas, inclusive o atual Santo Padre, pediram perdão ao mundo pelos pecados cometidos pelos filhos da Igreja, porque realmente houve abusos e atrocidades em muitos pontos.
Contudo, até mesmo no grupo dos seguidores de Jesus havia um Judas. E isso não tornava o Mestre menos santo ou menos Deus. Até o fim dos tempos, precisaremos conviver entre “lobos em pele de cordeiro” (cf. Mt 7,15); até o final, o trigo estará misturado com o joio (cf. Mt 13, 29-30). Porém, haverá um dia em que toda a verdade virá à tona e a realidade da Igreja resplandecerá triunfante no céu.
Quanto a nós, não tenhamos medo jamais de olhar para trás e nos deparar com eventuais obras de traidores. Destes, o Senhor cuidará no seu julgamento. Por outro lado, garanto que, ao mergulhar nesta prodigiosa história da Igreja, você encontrará inúmeras riquezas escondidas que alimentarão sua fé.
Que Deus nos abençoe sempre!
Rafael Libório
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator



