Poucas palavras são tão repetidas quanto amor e poucas são tão mal compreendidas. No cotidiano, o amor costuma ser associado a intensidade, atração imediata, sintonia emocional. Ama-se enquanto é fácil, enquanto satisfaz, enquanto confirma expectativas. Quando o amor começa a exigir paciência, renúncia, amadurecimento interior, ele passa a ser visto como peso ou fracasso.
Cristo, no entanto, nunca falou de amor como conforto emocional. Quando Ele diz “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”, não propõe um sentimento agradável, mas um caminho de transformação. Amar, para Cristo, não é apenas sentir algo pelo outro; é aprender a sair de si, deslocar o centro, permitir que o amor nos converta.
Essa conversão raramente é imediata. Ela passa, quase sempre, pela queda de ilusões e, sobretudo, pela travessia do orgulho.
O orgulho como obstáculo ao amor verdadeiro
Em Orgulho e Preconceito, Jane Austen oferece uma das narrativas mais lúcidas sobre o amadurecimento do amor. Elizabeth Bennet e Mr. Darcy não fracassam no amor porque não sentem; fracassam porque veem mal. Ambos se relacionam mais com projeções do que com pessoas reais. O orgulho de Darcy o impede de se abrir; o preconceito de Elizabeth a impede de compreender.
O amor só se torna possível quando algo neles morre: a necessidade de controle, a autodefesa, a imagem idealizada de si e do outro. Amar, ali, não é encontrar alguém perfeito, mas aprender a ver com verdade.
Essa dinâmica não é apenas literária; é profundamente humana. Grande parte das relações afetivas se rompe não por falta de sentimento, mas por incapacidade de amadurecer o olhar. Confundimos amor com expectativa, desejo com posse, entrega com dependência. Quando o outro não corresponde à imagem que criamos, o amor se frustra.
Cristo chama esse processo de purificação interior de amor.
Amar não é possuir: é reconhecer a dignidade do outro
É aqui que a Teologia do Corpo, desenvolvida por São (sugestão) João Paulo II, é tão fundamental. Para ele, o amor autêntico nunca reduz a pessoa a objeto de uso ou consumo. Amar é afirmar o valor do outro por ele mesmo: corpo, história, limites, feridas e vocação.
Na lógica do Evangelho, o corpo não é mercadoria nem vitrine; é linguagem. E a linguagem própria do corpo humano, quando vivida na verdade, diz sempre: “eu me dou”, nunca “eu uso”. Por isso, o amor cristão é incompatível com a lógica do descarte. Onde há amor verdadeiro, há respeito, espera, cuidado e responsabilidade.
Elizabeth e Darcy só conseguem amar quando deixam de usar o outro como espelho do próprio ego. O mesmo acontece conosco. Enquanto o amor gira em torno do “que eu sinto” ou “o que eu ganho”, ele permanece frágil. Quando passa a perguntar “como posso cuidar?” e “como posso permanecer?”, ele amadurece.
O amor que educa o desejo e liberta o coração
A cultura contemporânea costuma apresentar o desejo como algo soberano: se é desejado, deve ser vivido; se é difícil, deve ser evitado. Cristo propõe o contrário. Para Ele, o desejo não precisa ser reprimido, mas educado. Um desejo sem direção escraviza; um desejo ordenado liberta.
Amar não é seguir qualquer impulso, mas integrar sentimento, razão e vontade. É escolher o bem do outro, mesmo quando isso exige renúncia. Isso não significa tolerar abusos ou anular a própria dignidade, mas reconhecer que só quem se conhece e se respeita é capaz de amar sem se perder.
O amor cristão não infantiliza o ser humano; ele o amadurece. Ele ensina que intensidade não é profundidade e que permanência é mais exigente do que paixão.
O mandamento que continua sendo escandaloso
Quando Cristo deixa o mandamento do amor, Ele não oferece um ideal romântico, mas um caminho concreto de vida. Amar como Ele amou significa permanecer quando o encanto passa, perdoar quando o orgulho resiste, cuidar quando o outro se mostra frágil.
Esse amor é escandaloso porque contraria a lógica do mundo. Em uma cultura marcada por relações rápidas, descartáveis e utilitárias, o amor cristão parece lento, exigente, até “difícil demais”. Mas é o único que não mente. O único que não abandona quando a realidade se impõe. O único que não deixa um rastro de vazios.
Amar como Cristo: risco, cruz e liberdade
Todo amor verdadeiro envolve risco. Quem ama se expõe, se torna vulnerável, aceita a possibilidade de sofrer. Mas todo amor que foge do risco já nasceu raso. A cruz não é o oposto do amor; é sua consequência quando vivido até o fim.
Talvez o maior desafio dos jovens hoje não seja amar pouco, mas aprender a amar bem. Desaprender as versões frágeis de amor que confundem intensidade com verdade. E redescobrir que amar, à maneira de Cristo, é um caminho de liberdade interior, não de prisão.
Porque amar não é encontrar alguém perfeito. Mas, sim escolher caminhar com alguém real com verdade, coragem e fidelidade.
Érika Tartari
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator



