Entre a Cruz e o Louvor?
Certa vez, durante uma formação, ouvi que nós devemos ter uma boca de louvor, que nossa boca deveria ser uma via de louvor que alimenta o mundo através da nossa fidelidade. É uma frase muito bonita, mas viver isso concretamente é um dos maiores desafios da vida cristã. É fácil louvar quando tudo está bem. Quando a família está bem, quando o trabalho está bem, quando tudo está do jeito que a gente gostaria. Mas e quando não é assim? Como manter o louvor quando as coisas não acontecem do jeito que pedimos ou gostaríamos?
É aí que se revela o quanto ainda precisamos aprender a entregar. Porque uma coisa é dizer que Deus está no controle; outra é realmente soltar o controle. O orgulho e a soberba muitas vezes nos fazem pensar que sabemos qual é o melhor caminho. Mas há situações em que Deus parece nos convidar para outra coisa: confiar quando não entendemos, confiar quando não sentimos, confiar quando a resposta não chega, confiar quando dói.
São João da Cruz nos ajuda a entender um pouco dessa experiência naquilo que conhecemos como a noite escura. Sua vida foi marcada por sofrimentos, incompreensões e momentos de aridez espiritual. Sua experiência nos recorda que não sentir a presença de Deus não significa que Ele está ausente. Talvez essa seja uma das maiores dificuldades da vida espiritual. A gente quer sentir Deus para ter a certeza de que Ele está ali. A gente quer perceber seus caminhos, mas nem sempre Deus permite que a gente caminhe com essas certezas.
Fidelidade
É justamente aí que a fidelidade se torna verdadeira. Porque, se eu louvo somente quando sinto vontade, talvez eu ainda esteja louvando mais pela consolação do que pelo próprio Deus. Mas, quando consigo dizer: “Senhor, eu não entendo, não estou conseguindo perceber, mas confio em Ti…”, existe uma entrega muito diferente.
Isso não significa que a dor deixe de existir. Significa que não precisamos enfrentá-la sozinhos. E, quando essa confiança começa a aparecer na nossa vida, aquilo que Cristo faz em nós deixa de ser somente nosso. Torna-se testemunho. Torna-se anúncio. Torna-se alimento para aqueles que Deus coloca no nosso caminho.
Quem está perto percebe. Mesmo que não saiba explicar, talvez pense apenas: “Essa pessoa tem algo diferente. Eu não sei o que é, mas gostaria de conhecer.”
Existe dentro de cada pessoa uma sede que nada deste mundo preenche completamente. Uma sede que aponta para algo maior. Uma sede de eternidade. Por isso, quando Cristo nos alimenta, aquilo que Ele realiza em nós não pode ficar somente em nós. Somos alimentados para alimentar. Somos sustentados para sustentar. Somos alcançados pela misericórdia para nos tornarmos instrumentos dessa misericórdia na vida daqueles que Deus coloca no nosso caminho.
Talvez esse seja o grande desafio de ter uma boca de louvor: deixar que nossa vida se torne um louvor, mesmo quando dói, mesmo quando não entendemos, mesmo quando não sentimos. Continuar confiando. Continuar entregando. Continuar caminhando. Porque a fidelidade cristã não é a ausência de dificuldades. É permanecer com Cristo dentro delas.
Senhor, não entendo, mas me mantenho na fidelidade e no louvor
E, talvez, no fim, uma boca de louvor não seja aquela que nunca chorou, nunca teve medo ou nunca passou por uma noite escura, mas aquela que, depois de tudo isso, ainda consegue dizer: “Senhor, não entendo, mas me mantenho na fidelidade e no louvor.” Pois é no silêncio da noite e na dor da incompreensão que a nossa fé deixa de ser mera palavra e se torna oferta viva.
Que a nossa boca não se feche nas tempestades, mas seja sempre uma via de graça, capaz de proclamar que Deus continua sendo bom, mesmo quando o mundo ao redor parece desmoronar. Que possamos, no dia a dia, ser esse alimento para os outros, transformando as nossas próprias cruzes no mais belo louvor a Deus.
Que nosso Senhor Jesus Cristo, que reina por toda a eternidade, nos dê forças e sabedoria para nunca deixarmos de louvá-Lo.



