Do esconderijo ao Magnificat

Às vezes, eu me escondo sem sair do lugar. Continuo conversando, trabalhando, sorrindo e cumprindo os afazeres, ou negando as necessidades e as realidades, quando por dentro, já me afastei. Escondo-me quando tenho vergonha do que fiz, quando me decepciono comigo mesma e quando meu pecado me constrange. Nesses momentos, acontece uma inversão: justamente quando mais preciso do olhar de Deus, é dele que tento fugir.

Foi isso que aconteceu com Eva. Depois do pecado, ela escuta Deus no jardim e se esconde. Aquela presença que antes era lugar de comunhão passa a ser recebida com medo, porque o pecado introduz no coração humano a desconfiança do Amor. Eva havia acreditado na mentira de que Deus lhe escondia alguma coisa e, depois de pecar, continua agindo a partir dessa mentira. Esconde-se d’Aquele que poderia restaurar tudo o que havia sido ferido.

É isso que o pecado faz conosco. Ele não apenas nos afasta de Deus, mas faz com que desconfiemos d’Ele justamente onde mais precisamos confiar. Faz parecer que o olhar de Deus é acusação, quando é diante desse olhar que a verdade sobre quem somos pode ser restituída. E então tentamos resolver sozinhos aquilo que somente o Amor pode alcançar.

Mas, diante de Eva, a Igreja nos apresenta outra Mulher: a Virgem Santíssima.

Também diante dela Deus se aproxima e pronuncia uma palavra que ultrapassa toda medida humana. Maria se perturba, pergunta como aquilo acontecerá, mas não foge. Ela permanece. Não exige compreender tudo antes de se entregar. Apenas se apresenta diante de Deus e responde: “Eis aqui a serva do Senhor”.

E, porque permanece diante do Amor, Maria pode prová-lo.

Talvez seja isso que mais me impressione no Magnificat. A Virgem Santíssima não fala de si como quem precisa se justificar ou provar alguma coisa. Ela fala das maravilhas de Deus. “Minha alma engrandece o Senhor” e “meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”. Quem prova do Amor já não precisa se esconder. Pode olhar para a própria história e reconhecer: “O Poderoso fez em mim maravilhas”.

Eva se esconde porque desconfia. A Virgem Santíssima permanece porque conhece a bondade d’Aquele que a chama. Onde a desconfiança havia fechado o coração humano, Maria se abre inteiramente à vontade de Deus. E, por seu sim, o Verbo se faz carne.

Por isso, quando olho para a Virgem Santíssima, não encontro simplesmente uma mulher que respondeu melhor a Deus. Encontro a Mãe. A Imaculada, a Rainha dos Céus e da Terra, a Auxiliadora por quem Deus quis dar ao mundo Jesus Cristo, meu Salvador. Tudo nela conduz ao Filho. Até o seu cântico não termina nela mesma, mas na fidelidade, na misericórdia e nas promessas de Deus.

E talvez seja por isso que preciso tanto dela. Porque eu ainda me escondo. Ainda desconfio e ainda tento me proteger de Deus quando deveria correr para Ele. A Virgem Santíssima me ensina a permanecer até que eu também prove da misericórdia, reconheça as maravilhas de Deus e consiga me alegrar n’Ele.

Eva se esconde do Amor que vem procurá-la. A Virgem Santíssima permanece diante do Amor, recebe-O em si e O oferece ao mundo. E é junto dela que quero aprender a sair do esconderijo, para que também a minha alma possa reconhecer as maravilhas d’Aquele que veio me salvar.

 

Ana Clara Gonçalves 

Discípula da Comunidade Católica Pantokrator 

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