Desde o princípio, Deus sempre fez aliança com seu povo. Ela sempre foi sinal da presença de Deus na antiga Aliança e vai atingir seu cume na nova e eterna Aliança realizada em Jesus, que é inaugurada na encarnação, no sim de Maria e “sacramentada” no sangue da cruz.
O mês de dezembro todo é voltado para o nascimento de Jesus, o autor da nova Aliança. Desde o começo celebramos o tempo do advento, tempo de preparação e espera pelo Deus que vem nos salvar. O cume é o nascimento do Salvador, celebrado no dia 25 de dezembro, e o mês termina com a oitava do Natal.
Na quaresma, vivemos um tempo de purificação, de mortificação para ressurgirmos com Cristo na Páscoa. No tempo do Natal não é diferente, mas vejo que a característica principal seja a renovação da nossa Aliança com Deus, pois o que Ele fez conosco é fiel, fez de uma vez por todas e é imutável para sempre. Da nossa parte, existe o vacilar, o infringir, e em muitas vezes até esquecer, por isso esse é o tempo propício para a renovação dessa Aliança da nossa parte, mergulharmos nesse mistério assim com Cristo mergulhou em nossa humanidade.
As últimas figuras da antiga Aliança e as primeiras da nova Aliança
Vemos em Isabel e Zacarias, no velho Simeão e na profetiza Ana, bem como em João Batista, os últimos representantes da antiga Aliança. Cada um com sua particularidade, pois Isabel e Zacarias são figuras da infertilidade no tempo em que vivem, Simeão e Ana são os últimos guardiões do fio da Glória ainda presente nela, a chama que ainda fumega (cf Is 42, 3), e João Batista o último fruto, que vem dessa pequena chama. E é interessante que o sinal da antiga Aliança está tão tênue que Jesus, o autor da nova Aliança ainda no seio de sua mãe, mergulha no seio de Isabel e vai ao seu encontro, que sozinha não tem força para chegar à nova. Jesus traz João Batista, último fruto da Antiga para a nova Aliança, por isso nele (João Batista) se faz presente a redenção, e ele tem um papel extraordinário, é a ponte da antiga para a nova Aliança e, juntamente com Maria e José, se torna fruto na nova Aliança, da redenção. É um mistério dos mais belos e profundos, somente quem transcende é capaz de comtemplar esse intercâmbio, essa ponte entre a velha e a nova.
A importância de renovarmos nossa Aliança com Deus
Nossa fé, fundamentada na antiga Aliança, é uma fé de transmissão. Ela está presente em Abraão e sua descendência, e particularmente na figura de Moisés, que recebe a lei das mãos de Deus e diz para o povo: “Ensinai-as aos vossos filhos, falando-lhes dela, seja em vossa casa, seja em viagem, quando vos deitardes ou levantardes. Escreve-as nas ombreiras e nas portas de sua casa” (Deut 11,19-20). É a tradição do antigos, deixada por Moisés e a Igreja sabiamente não aboliu a tradição, muito pelo contrário, a preservou e até melhorou. Um exemplo disso é o fato de que, na Igreja Católica, quem pede o Batismo dos filhos, diferentemente de outras denominações religiosas, são os pais. Isso é transmissão da fé, passando para os filhos o que receberam e imitando o Mestre que mergulha na antiga Aliança para trazer João Batista para a nova, assim os pais mergulham na herança de pecado recebida desde nossos primeiros pais Adão e Eva, para trazer pelo batismo pedido junto à Igreja, os filhos para a nova Aliança. É extraordinário, é participação no mistério redentor, é transmissão da fé.
É início do ano litúrgico
Sempre no ano novo, as pessoas fazem propósitos para viver no ano que se inicia. Um quer perder peso, o outro encontrar um emprego melhor, aprender a falar outra língua, e por aí vai. Para nós católicos, o período para fazermos bons propósitos, diferentes dos do mundo, que são lícitos muitas vezes, mas não dizem respeito à vida espiritual, é no tempo do Advento, pois nele se inicia o novo ano litúrgico da Igreja. Temos quatro semanas para mergulharmos nesse mistério. Nos dois primeiros domingos, mergulhamos na espera da segunda vinda de Jesus, e depois no mistério da primeira vinda, que é celebrado nos dois últimos domingos. Para dentro desse contexto, fazemos nossos bons propósitos espirituais de conversão e crescimento na vida da graça.
Diferente das pessoas do mundo que têm que remar sozinhas em seus propósitos, nós católicos temos o auxílio da graça através da liturgia, que exerce uma soberania em nossas vidas, pois dela emana a vida da Igreja.
A vida de Jesus, a mais bela liturgia
Desde seu nascimento, envolto em faixas na manjedoura, onde em sua aparente fragilidade está toda nossa esperança, perpassando por sua vida até o ápice da cruz, a vida de Jesus é uma liturgia, que nós celebramos e vivemos durante o ano litúrgico.
A volta do filho pródigo é celebrada em um banquete, que é uma liturgia, que por sua vez, de certa maneira, prefigura a Eucaristia, pois Jesus é o banquete da alegria.
Porque é necessário renovarmos nossa Aliança?
Porque o católico não pode andar “descoberto” dessa grande graça. Não podemos combater sozinhos, temos que estar sob a mão do El Shaddai, o Deus todo poderoso, e somente mantendo firme nossa Aliança com Ele teremos essa proteção, não por opção de Deus, mas nossa, que muitas vezes preferimos nosso caminho.
Renovar nossa Aliança com Deus é renovarmos nossa pertença a Ele, pois pertencemos ao seu Reino, somos inteiramente d’Ele.
Que neste tempo do Natal possamos mergulhar nesse mistério.
Elias Antonio Breda Gobbi
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator



