Nesse mês de março, celebramos São José, um homem de fé. A princípio, uma frase tão banal hoje em dia. Vamos falar mais sobre isso e a importância de José ser esse “Homem de fé”.
Assim que nascemos, o processo comum é irmos para a casa dos nossos pais, passar por todo o processo de adaptação, ao colo de nossa mãe, inclusive à alimentação que vem dela. Ao crescer, vai à escolinha. Crescendo mais vira uma linda criança e um forte adolescente. Ao chegar a fase adulta, no Brasil, com seus 18 anos é totalmente (civilmente) responsável por si.
Na época de Jesus era um “pouco” diferente. Com 7 dias a criança era apresentada no templo. Depois, sua primeira infância era profundamente marcada pela educação da fé Judaica dada pela mãe. Aos cinco anos os pais assumiam a formação de fé e doutrina da Lei Judaica. Aos 13 era considerado maior de idade, responsável por si e conhecedor da Lei de Deus.
José é reconhecido como Justo:
“José, seu esposo, que era um homem Justo” (Mt 1,19a). Hoje em dia, deturpados por ideologias infiltradas em nossa Fé, quando se fala em “justo” pensamos, na maioria das vezes, em ações jurídicas, processos e outras coisas do tipo. Porém, no hebraico essa palavra é “tsadiq”[1] que tem como raiz “tsedeq”, significando simultaneamente justiça e caridade. Vamos falar mais disso! (Repare que estamos aprofundando a partir de um termo tão simplório para os dias de hoje).
José era muito bem formado e fundamentado na Fé Judaica. Ele não caminhava na fé porque tinha uma obrigação de seguir, mas porque amava a Deus e respondia esse amor seguindo seus mandamentos. Para ficar mais claro, podemos utilizar um exemplo simples: quantas vezes estamos dirigindo e diminuímos a velocidade devido o radar e não por saber que esse excesso de velocidade pode ferir a nós e a outros? Essa é a diferença de quem segue a lei, porque está escrito e por puro legalismo, e de quem entende e ama a Lei do Senhor.
Seguindo o exemplo acima, pensamos: estou atrasado, preciso chegar logo, não tem ninguém na rua. Enfim, quantas desculpas damos para justificar a infração da lei sobre a velocidade no trânsito. E quantas desculpas damos para não seguir a Lei do Senhor: “Ah, não devolvo o dízimo pois estou apertado financeiramente”, “Não vou à missa hoje, pois meu carro quebrou”, “Já tem tanta gente ajudando na igreja, não precisam que eu vá”, “Tem tanta gente que vai à Igreja e continua ruim, para que eu vou? Seria hipocrisia!”
Pois bem, São José era um homem íntegro, no melhor sentido da palavra: sua fé inabalável e amorosa a Deus transformava profundamente os seus atos. Cada ato de São José, cada trabalho executado, cada ensinamento a Jesus era profundamente baseado pela fé em Deus. Ensinava amando a Deus e ensinando a amar a Deus, educou seu filho na fé. Passou por situações desafiadoras, por vezes humilhantes, mas nunca abandonou o Deus que é a alegria de sua juventude[2].
José foi um homem de Fé
Sua fé norteou sua masculinidade. Como homem, esposo e pai, a confiança no Deus de Israel era o seu sustento. Seu alimento era fazer a vontade de Deus. Vejamos alguns trechos da vida de José (e como nossa fé não é desencarnada ou abstrata, traremos para nossa vida situações para viver como José).
José recebe Maria como sua esposa[3] e essa esposa aparece grávida! Que vergonha e humilhação, pois ele sabia que não era o pai da criança. O noivado para os judeus era diferente para nós hoje. Já podia haver coabitação, mas eles resolveram esperar pelas razões deles. E, de repente, aquela mulher que lhe prometeu ser sua esposa, aparece com uma criança em seu ventre.
Veja, de acordo com a Lei, José poderia refutar Maria e esta seria apedrejada devido seu pecado. Não havia WhatsApp, Instagram ou mesmo telefone para que Maria lhe telefonasse e dissesse: “Então, sabe, estava em oração e apareceu um Anjo…”, ou ainda, “Estava arrumando a casa e um Anjo apareceu e disse que a profecia se cumpriria em mim”. Seria muito fácil isso. José sabia da profecia.
Mas quando o Anjo aparece, Maria imediatamente ruma à casa de Ana[4]. Maria e José conheciam, sabiam e esperavam a Profecia se cumprir. José sabia da reputação de Maria e poderia confiar em sua palavra. José, imbuído da Justiça e caridade que detinha, resolve acolher um filho que não era seu e uma esposa “adúltera”. Validando sua fé, o Pai envia um anjo, em sonho e lhe revela a verdade, retirando toda neblina de seu coração, o que fez José abraçar firmemente sua missão.
Veja que agora a história muda:
José seria o mentor de fé e doutrina da Promessa de Deus à Israel! Tsadiq! Ele assume a sua referência social, espiritual e humana para ser o pai do Ungido, do Messias. Quantas vezes nós somos apresentados a pessoas no trabalho, situações em casa em que Deus quer que sejamos a Luz de Deus nas situações? Por mais que não sejamos tão “instruídos”, convertidos e etc, Deus nos envia a situações onde o “filho não é nosso”, mas a missão é!
José ama tanto sua missão que assume integralmente a paternidade do Menino-Deus, de tal forma que aqueles conviviam com a Sagrada Família nem desconfiavam. E tão logo vem outras situações: viajar com Maria grávida, parir num estábulo. Imagine a vergonha e sentimento de insuficiência ao reclinar Jesus na manjedoura (sem brilho, mas suja pelos animais que ali se alimentavam). Mas como homem ativo e maduro, José sabia que se Deus tinha permitido tal situação, haveria algo muito bom em tudo aquilo.
Quantas situações nós somos retirados de nossa “zona de conforto” e somos levados por Deus, ainda que imperfeitos e inseguros, a sermos fiéis no trabalho, caridosos em nossas famílias e firmes em nossa conversão?
Por fim, queria destacar a fuga para o Egito (porque tem tanta coisa para falar de São José que daria um livro!). José ao receber a mensagem em sonho, pega sua esposa em pós-parto, o filho recém-nascido (é valido lembrar que nas regiões desérticas a temperatura de dia ultrapassa 40 graus e a noite pode baixar a zero graus) e foge para o Egito.
No Egito houve o recomeço, José foi o exemplo de homem, judeu, temente a Deus. Se Jesus foi o Homem que foi é porque teve como exemplo um valoroso homem. Jesus era apaixonado por Deus também, por ver a paixão de São José por Deus! O filho faz o que o pai faz. Por vezes fico rindo (de alegria, mas às vezes de vergonha ao ver minhas imperfeições) por ver que muitas atitudes de meu filho são iguais as minhas. Ele me copia, pois vê o que eu faço. Jesus fez o mesmo!
José ensinou as orações, os horários de rezar, como falar com Deus, como ler na sinagoga (e a discussão e Jesus com os mestres da Lei[5], com quem Jesus aprendeu a Lei?!) enfim, como ser um homem de Deus. José deve ser exemplo para nós, deve nos colocar no caminho de conversão para ser mais de Deus, trabalhar em nosso serviço secular como se Deus fosso nosso cliente, amar nossa família e educa-la na Lei de Deus. Enfim, José, mais do que um homem justo era um homem de fé, abrasado pelo amor de Deus e alimentado por fazer a vontade de Deus.
Que possamos nós sermos “pequenos Josés” no cotidiano de nossas vidas e sem medo, levar a Bondade e a Justiça de Deus a todos quem Deus quiser.
[1] Azevedo, Cassiano Rocha. José referencial para o homem de hoje, pagina 19
[2] Cf Sl 42,4
[3] Cf Mt 1,18
[4] Cf Lc 1,39
[5] Mt 1, 42-52
Leonardo Pataro
Consagrado da Comunidade Pantokrator



