Há encontros com Deus que transformam uma vida inteira. A história de Santa Maria Faustina Kowalska é a história de uma alma que foi profundamente alcançada pelo amor de Jesus e chamada a anunciar ao mundo uma verdade que jamais deixou de ser central no Evangelho: Deus é rico em misericórdia.
Santa Faustina viveu na Polônia entre 1905 e 1938. Entrou para a vida religiosa em 1925, na Congregação das Irmãs de Nossa Senhora da Misericórdia, e, em meio à simplicidade de sua vida cotidiana, recebeu uma missão particular: tornar conhecida a misericórdia de Deus e ensinar as almas a confiar nela. Foi canonizada por São João Paulo II em 30 de abril de 2000.
Sua experiência está registrada, principalmente, em seu Diário, no qual ela relata sua vida interior, suas lutas, suas orações e aquilo que compreendeu nas experiências místicas que viveu. Nesse sentido, a Igreja acolheu sua mensagem como uma especial iluminação que ajuda os cristãos a contemplarem com maior intensidade o Evangelho da Páscoa. São João Paulo II afirmou que a mensagem confiada a Faustina não constitui um novo Evangelho, mas uma maneira particular de recordar e aprofundar a verdade já revelada em Cristo.
Uma alma que queria pertencer inteiramente a Jesus
Antes de falarmos das revelações que Santa Faustina recebeu, é importante compreender que sua vida não se resume às experiências extraordinárias.
De fato, ela não buscava visões, revelações ou fenômenos espirituais. Seu desejo era pertencer a Deus.
Além disso, o próprio Diário mostra que Faustina compreendia que a santidade não consistia nas graças extraordinárias recebidas, mas na união íntima com Deus e na conformidade da própria vontade com a vontade divina. O Vaticano registra suas palavras: “Minha santidade e perfeição consistem na estreita união da minha vontade com a vontade de Deus” (Diário, 1107).
Isso é fundamental para compreender sua espiritualidade.
Santa Faustina não nos ensina a procurar experiências extraordinárias de Deus. Ela nos ensina a confiar em Jesus, amá-Lo, obedecê-Lo e deixar que Sua misericórdia transforme concretamente nossa vida.
Seu Diário pode ser compreendido justamente como o relato dessa relação de intimidade com Cristo. O próprio Dicastério para o Culto Divino o descreveu como o “santuário do encontro com o Senhor Jesus”.
“Minha filha, dize que sou o Amor e a Misericórdia em pessoa”
Uma das afirmações mais profundas atribuídas por Santa Faustina a Jesus aparece no Diário:
“Minha filha, dize que sou o Amor e a Misericórdia em pessoa”.
São João Paulo II utilizou essa própria passagem do Diário em sua homilia de canonização, explicando que a misericórdia de Deus chega à humanidade por meio do Coração de Cristo crucificado.
Aqui está o centro de toda a mensagem de Santa Faustina.
A misericórdia não é simplesmente algo que Deus faz ocasionalmente. Ela revela quem Deus é para nós.
Deus não olha para a nossa miséria de longe. Ele se aproxima. Ele entra na nossa história. Em Jesus Cristo, Deus assume nossa humanidade e manifesta de maneira visível o seu amor misericordioso.
São João Paulo II ensinou na encíclica Dives in misericordia que Cristo não apenas fala da misericórdia de Deus: Ele próprio a encarna e a personifica. Quem encontra Cristo encontra o rosto do Pai rico em misericórdia.
Por isso, olhar para Jesus é aprender quem Deus é.
A misericórdia nasce do Coração de Cristo
Santa Faustina recebeu de Jesus uma imagem que se tornou conhecida em todo o mundo: a imagem de Cristo Misericordioso.
Nela, Jesus aparece ressuscitado, com uma das mãos levantada em gesto de bênção e a outra apontando para o próprio peito. Do seu Coração partem dois raios, um vermelho e outro pálido.
Segundo o relato de Faustina, Jesus explicou:
“Os dois raios representam o Sangue e a Água”.
São João Paulo II retomou essa explicação ao falar sobre Santa Faustina. Ele relacionou o sangue e a água ao acontecimento do Calvário, quando o lado de Cristo foi aberto pela lança e dele jorraram sangue e água. O sangue recorda o sacrifício de Cristo e a Eucaristia; a água remete, no simbolismo joanino, ao Batismo e ao dom do Espírito Santo.
Assim, a imagem do Cristo Misericordioso não é simplesmente uma imagem bonita sobre a bondade de Jesus. Ela nos conduz ao próprio mistério pascal. A misericórdia que Jesus revela a Faustina é a mesma que vemos brotar do lado aberto de Cristo na Cruz: um amor que se entrega, perdoa e salva, mais forte do que o pecado e a morte.
“Jesus, eu confio em Vós”
Talvez nenhuma expressão resuma tão bem a espiritualidade de Santa Faustina quanto esta:
Jesus, eu confio em Vós.
A confiança é o coração da mensagem da Divina Misericórdia.
Jesus não pede ao homem que primeiro se torne perfeito para depois se aproximar d’Ele. Ele chama o pecador a voltar-se para sua misericórdia.
São João Paulo II destacou uma frase registrada por Santa Faustina:
“A humanidade não encontrará paz enquanto não se voltar com confiança para a Minha misericórdia”.
O Papa apresentou essa mensagem como profundamente ligada ao Evangelho da Ressurreição: o Cristo ressuscitado oferece ao mundo a paz e, ao mesmo tempo, mostra as feridas da sua Paixão. É justamente dessas feridas que a misericórdia se derrama sobre a humanidade.
Confiar, portanto, não significa acreditar que nada de ruim acontecerá conosco.
Confiar significa saber que, aconteça o que acontecer, não estamos fora do alcance do amor de Deus.
A misericórdia não é uma permissão para permanecer no pecado
É importante compreender isso corretamente.
A misericórdia de Deus nunca significa dizer que o pecado não importa.
Pelo contrário: somente compreendemos verdadeiramente a misericórdia quando reconhecemos a realidade do pecado e a necessidade da conversão.
Na parábola do filho pródigo, o pai não afirma que a atitude do filho estava correta. Ele acolhe o filho que retorna.
A misericórdia não elimina a verdade. Ela torna possível o retorno à verdade.
São João Paulo II explica que a conversão é uma das expressões mais concretas da ação da misericórdia: o homem reconhece seu afastamento de Deus e volta para o Pai. A misericórdia é o amor que levanta o homem de sua queda.
Por isso, a mensagem de Santa Faustina nunca deve ser reduzida a uma ideia de que “Deus perdoa tudo, então não importa como vivemos”.
É exatamente o contrário. Alcançados pela misericórdia, somos chamados a mudar de vida; perdoados, aprendemos a perdoar; e, porque recebemos amor, somos chamados a amar.
A misericórdia que recebemos precisa tornar-se misericórdia que oferecemos
Jesus ensinou:
“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7).
Aquele que experimenta verdadeiramente a misericórdia de Deus não consegue permanecer indiferente diante da miséria do outro.
A espiritualidade de Santa Faustina está profundamente ligada a essa dimensão.
Não basta dizer “Jesus, eu confio em Vós”.
É preciso permitir que essa confiança transforme a maneira como tratamos as pessoas.
A misericórdia pode aparecer em um perdão concedido, em uma palavra paciente, em uma visita ou em uma escuta atenta. Pode se manifestar também em uma ajuda concreta, na oração por quem sofre, na decisão de não devolver uma ofensa ou na compaixão diante da fraqueza do outro. Assim, a misericórdia recebida de Deus torna-se misericórdia oferecida aos irmãos.
São João Paulo II ensinou que Cristo, ao revelar o amor misericordioso do Pai, também chama o homem a deixar-se conduzir pelo amor e pela misericórdia em sua própria vida.
A misericórdia encontra sua expressão mais profunda na Confissão
Existe um lugar privilegiado onde o cristão experimenta a misericórdia de Deus: o Sacramento da Reconciliação.
Ali, o pecador não encontra simplesmente uma ideia de perdão.
Ele encontra Cristo que perdoa por meio da Igreja.
Na Dives in misericordia, São João Paulo II afirma que o Sacramento da Penitência permite ao homem experimentar de maneira singular o amor de Deus que é mais forte do que o pecado.
Isso está profundamente unido à mensagem de Santa Faustina.
A confiança na misericórdia não substitui a conversão, o arrependimento e a Confissão. Pelo contrário, a verdadeira confiança nos leva de volta ao Senhor.
Quando reconhecemos nossa miséria, não precisamos fugir de Deus.
Precisamos correr para Ele.
Não porque nosso pecado seja pequeno, mas porque a misericórdia de Deus é maior.
“Nenhuma miséria humana pode medir-se com a misericórdia”
Em seu Diário, Santa Faustina escreveu:
“Ó insondável e infinita Misericórdia de Deus, quem poderá dignamente Te adorar e cantar os Teus louvores? Ó maior atributo de Deus Onipotente, Tu és a doce esperança dos pecadores” (Diário, 951).
São João Paulo II retomou essas palavras em sua homilia no Santuário da Divina Misericórdia, em 2002, apresentando a misericórdia como fonte de esperança para a humanidade.
Essa é uma das mensagens mais necessárias para o coração humano.
Há pessoas que acreditam que Deus pode perdoar os outros, mas não conseguem acreditar que Ele possa perdoá-las.
Carregam culpas antigas.
Vergonhas.
Quedas.
Pecados que já confessaram, mas que continuam usando para se condenar.
Santa Faustina nos conduz para outra direção.
Não para minimizar o pecado, mas para olhar para ele diante de um amor infinitamente maior.
A misericórdia não diz: “Seu pecado não importa.”
Ela diz:
“Seu pecado não é maior do que o amor de Deus.”
A misericórdia de Deus é esperança para quem caiu
Talvez seja por isso que a mensagem confiada a Santa Faustina permaneça tão atual. Todos conhecemos nossas fragilidades e sabemos que ainda temos muito a crescer.
Em algum momento, falhamos com Deus, com os outros e conosco mesmos, e é aí que a misericórdia se revela. Deus não se aproxima de nós porque somos perfeitos; Ele nos aproxima da perfeição porque nos ama.
A misericórdia é o amor de Deus que nos coloca novamente de pé para continuarmos caminhando.
A missão de Santa Faustina
Santa Faustina compreendeu que sua vida deveria ser inteiramente dedicada a tornar conhecida a misericórdia de Jesus.
Em seus escritos, ela expressa esse desejo de maneira muito forte. O Vaticano registra uma de suas afirmações:
“A glorificação da Tua misericórdia, ó Jesus, é a missão exclusiva da minha vida”.
E a Igreja reconheceu nela uma testemunha particular dessa mensagem. São João Paulo II afirmou que Jesus confiou a Faustina uma missão para lembrar ao mundo a misericórdia divina, especialmente em um período marcado por guerras e enormes sofrimentos humanos.
Mas sua missão não terminou com sua morte.
Ao contrário, continua cada vez que alguém olha para Cristo e diz:
Jesus, eu confio em Vós.
Essa missão continua cada vez que alguém procura o Sacramento da Reconciliação depois de uma queda, decide perdoar, abandona o desespero e volta a esperar ou, consciente da própria miséria, deixa de julgar o outro e escolhe praticar a misericórdia.
Confiar na misericórdia é olhar para Jesus
A grande mensagem de Santa Faustina não nos leva para longe de Cristo, mas para Ele: o Cristo crucificado e ressuscitado, que mostra suas feridas, mantém o Coração aberto, perdoa, chama o pecador de volta e nos convida a nos aproximarmos d’Ele sem medo.
São João Paulo II resumiu essa espiritualidade ao colocar nos lábios da Igreja a mesma oração de Santa Faustina:
“Jesus, eu confio em Vós.”
Talvez seja essa a grande escola que Santa Faustina oferece à Igreja: aprender a olhar para nossa própria miséria sem desespero e olhar para Deus sem medo.
Reconhecer quem somos, mas confiar ainda mais em quem Deus é.
Cair, mas voltar.
Pecar, mas arrepender-se.
Ser ferido, mas não deixar de amar.
Receber misericórdia e tornar-se misericordioso.
E, sobretudo, nunca esquecer que, por maior que seja nossa pobreza, existe um Coração que permanece aberto para nos receber.
Ó Coração de Jesus.
Jesus, eu confio em Vós.
Fabiana Galeffi
Membro da fraternidade


