SÁBADO SANTO… O RESGATE!

Sábado Santo - O resgate

Poucas coisas são tão belas em termos de liturgia como as celebrações da Semana Santa. É o momento em que celebramos os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor – e, portanto, contemplamos o belíssimo mistério da nossa redenção. É o ponto alto de todo o nosso calendário litúrgico e cada coisa está colocada ali por uma razão. Até mesmo o esquecido e pouco compreendido momento do Sábado Santo.

De fato, há momentos muito mais memoráveis na Semana Santa que a vivência do sábado. Na quinta-feira, celebramos a memória da Última Ceia, a instituição da Eucaristia e do Sacerdócio: o Lava-Pés; na sexta-feira, vivemos a tocante celebração da Paixão do Senhor e no domingo, a grande festa da Páscoa! Diante disso tudo, é compreensível alguém se perguntar: e quanto ao sábado?

Diferentemente do que possa parecer, o sábado santo não é uma simples brecha vazia que separa a sexta-feira da Paixão e o domingo de Páscoa. Não se trata de um intervalo meramente formalista como aquele que separa o primeiro e o segundo tempo de um jogo de futebol. Na verdade, o Sábado Santo possui um antigo e riquíssimo significado.

A AUSÊNCIA DE JESUS

A primeira coisa que devemos perceber é o fato de que, historicamente, o Sábado Santo foi o dia em que os Apóstolos e amigos de Jesus ficaram privados da companhia, da voz e da vida do Mestre. Embora difícil, foi um tempo necessário para que eles percebessem a coisa mais óbvia do mundo: é impossível viver sem Jesus depois de tê-lO verdadeiramente conhecido.

Foi provavelmente nesse tempo que os Apóstolos experimentaram aquele triste ditado sobre “dar valor apenas quando se perde”. Foi nesse dia que São Pedro chorou todas as lágrimas da sua negação, e que os demais Apóstolos – à exceção de São João, fiel ao pé da cruz – lamentaram-se muito por ter fugido e não terem permanecido quando o Mestre mais precisava deles.

Também nós somos chamados a fazer essa experiência da ausência e da sede de Deus. A Igreja impõe que todas as espécies Eucarísticas sejam consumidas na celebração da Paixão do Senhor na Sexta-Feira Santa, de modo que o Sábado Santo é o único dia do ano em que acordamos sem ter a presença real de Jesus nos sacrários das nossas igrejas.

O Sábado Santo, portanto, é considerado um dia “alitúrgico”, ou seja, não existem celebrações previstas para o período que vai do pôr do Sol da sexta-feira até o pôr do Sol do sábado, justamente para que façamos essa experiência de recolhimento, oração silenciosa e saudade da presença do Senhor.

Mas é também o período propício para exercermos a nossa fé. Tal como fez Nossa Senhora naquele primeiro Sábado Santo, ao manter no coração a chama da fé acesa, nós também devemos, nessa ausência temporária do Mestre, exercer a fé que recebemos no batismo e confiar que o nosso Deus é Todo Poderoso, mesmo em situações de luto e aparente derrota.

CRISTO, O LIBERTADOR!

Entretanto, além desta realidade a respeito da ausência do Senhor e da espera pela sua gloriosa manifestação, há também um outro aspecto belíssimo do Sábado Santo e que merece ser recordado todos os anos: este foi o dia em que Cristo, Nosso Senhor, desceu até a Mansão dos Mortos para resgatar os justos que ali aguardavam ansiosamente.

O fato é que, depois do Pecado Original praticado por Adão e Eva, as portas do Céu se fecharam para a humanidade. Por mais santamente que a pessoa vivesse, ela simplesmente não podia merecer o Céu, a não ser que a nossa dívida fosse paga. E a dívida era tão grande que só o próprio Deus teria a capacidade de pagá-la em nosso favor.

Significa que todos os grandes patriarcas, profetas e justos que viveram antes de Cristo não puderam ir para o Céu imediatamente após a morte. Tiveram que aguardar até que aquela grande dívida fosse quitada. E esse “lugar” em que eles permaneceram é chamado pela Igreja de Mansão dos Mortos – ou Hades (em grego) ou Sheol (em hebraico). Ali estavam Abraão, Moisés, Davi e Elias e até mesmo os grandíssimos São José e São João Batista.

A partir do momento em que o Cristo se entrega na cruz – como um Cordeiro imolado para o sacrifício –, a dívida finalmente foi paga. Então, o Sábado Santo é o momento em que a Igreja celebra a ida de Jesus àquela Mansão dos Mortos para, finalmente, resgatar seus amigos. Há diversas imagens e ícones antigos que mostram esse momento sublime: Jesus quebrando as portas daquela antiga prisão e pegando Adão – aquele velho amigo – pela mão para levá-lo à morada eterna do Céu.

E isso traz um significado importantíssimo a todos nós, porque o mesmo Cristo libertador tem o poder de descer às regiões mais escuras da nossa alma para nos levantar da “Mansão dos Mortos” em que muitas vezes nos encontramos. Quantas e quantas pessoas vivem em estado de morte espiritual, isto é, em situação de pecado mortal que as afastam do caminho do Céu… quantas outras afundadas em vícios e medos que as impedem de exercer a plena liberdade…

Mas Cristo, com Seu santo sacrifício, tomou para Si as chaves da morte e “reduziu à impotência aquele que tem o poder da morte, isto é, o Diabo, e libertou quantos, por meio da morte, se encontravam sujeitos à servidão durante a vida inteira” (Heb 2, 14-15). O Catecismo da Igreja Católica nos lembra que esse mistério da descida do Senhor à Mansão dos Mortos alcança “a todos os homens de todos os tempos e de todos os lugares, porque todos aqueles que se salvaram se tornam participantes da redenção” (§ 634).

Portanto, o Sábado Santo é uma constante recordação de que o nosso Deus é salvador e que tem o poder de nos libertar de qualquer morte que recaia sobre nós. Vivamos então essa realidade aproveitando os mistérios deste dia belíssimo de significado.

Que o Senhor nos abençoe sempre.

 

Rafael Aguilar Libório 

Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator 

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