Todos nós, cristãos, possuímos dentro de nós um conflito de vontades. Por um lado, a nossa alma deseja se lançar em Deus e traçar o caminho da santidade. Este é o “homem novo”, restaurado pelo batismo. Por outro lado, temos também uma inclinação que nos leva a querer pecar e viver apenas no egoísmo. Este é o “homem velho”. Pois bem, São Paulo vai nos ensinar que nós devemos “matar o homem velho” (conforme Ef 4,22 e Rm 6,6). E é impossível fazer isto sem as mortificações.
A verdade é que o “homem velho” está o tempo todo tentando assumir o controle. É fácil percebermos isso: aquela preguiça em nos levantar de manhã; aquela gula que nos leva a comer mais (mesmo quando já estamos saciados); aquela raiva de quando alguém nos chama no meio do episódio da nossa série…
Teologicamente falando, nós somos uma “mistura” entre matéria e espírito (ou, como geralmente ouvimos, entre “corpo e alma”). No plano original de Deus, a nossa alma (que possui inteligência e vontade) deveria comandar o nosso corpo, como um cavaleiro domina o cavalo. Porém, com o pecado, os papeis se inverteram – e o cavalo derrubou o cavaleiro.
É neste sentido que nós necessitamos das mortificações: elas são pequenos atos que ajudam a “domesticar” as nossas paixões, a fim de que sejamos controlados unicamente pela nossa razão – e não por impulsos impensados.
Como funcionam as motificações?
Existem duas maneiras de nos mortificarmos: a maneira ativa e a passiva. A diferença entre elas está em quem escolhe os meios. Ambas, porém, são importantíssimas.
“Mortificar” significa, na prática, contrariar o desejo da pessoa – desejo este que nem sempre é bom. Ninguém gosta de ser contrariado, e aqui está o segredo para domar o homem velho.
As “mortificações ativas” são mais conhecidas – e também mais utilizadas no início da vida espiritual. Significa que o próprio sujeito (ou um diretor espiritual) é quem escolhe a maneira de “contrariar” suas paixões interiores.
Os exemplos podem nos ajudar. Suponhamos que um determinado sujeito possua certo vício no uso de redes sociais e percebe que isto o está afastando de Deus. Como mortificação ativa, ele pode decidir que acessará tais redes apenas em finais de semana. Ou imaginemos um outro indivíduo que possua problemas com a vivência da castidade. Ele pode se impor uma proposta de rezar de joelhos todos os dias.
Não se trata, evidentemente, de alguma espécie de “masoquismo” – afinal, o cristão não acolhe o sofrimento por “gosto”. Ao contrário, nós sabemos que o pecado escraviza a pessoa e que a luta deve ser intensa. Sem isso, o “homem velho” resistirá em ser vencido.
Quando as coisas fogem do nosso controle
Existe, porém, uma segunda forma de mortificação – bem menos falada e conhecida por todos: a “mortificação passiva”. A grande diferença é que o autor é modificado: não é mais você quem escolhe as maneiras de matar o “homem velho”; é o próprio Deus quem escolhe por você.
Se nós formos sinceros, perceberemos que nós somos contrariados o tempo inteiro, afinal nem tudo ocorre da maneira como gostaríamos: é o dia que amanheceu frio (quando eu prefiro o calor); é o trânsito lento (quando eu estou atrasado); é aquela aula insuportável (quando eu poderia estar assistindo ao jogo do meu time).
Enquanto nas mortificações ativas somos nós que escolhemos livremente as contrariedades, aqui nós só precisamos acolher aquelas que acontecem independentemente da nossa vontade. Ninguém escolhe amanhecer com dor de barriga; ninguém escolhe perder um parente querido.
A grande questão é: o que nós temos feito diante das inúmeras contrariedades que a vida nos oferece? A maioria das pessoas transforma isso em reclamações ou murmurações; outras transformam em piadas; outras ainda preferem encontrar um culpado em tudo. E nós?
“Em tudo dai graças” (I Ts 5,18)
A grande verdade é que Deus nos conhece melhor do que nós mesmos. Imaginemos uma criança doente: o pai sabe qual é o remédio necessário para sarar aquela dor – por mais amargo que seja o medicamento. Da mesma maneira, nosso Senhor sabe quais são as paixões que nos atrapalham e o modo de vencê-las.
O que eu proponho neste breve texto é uma mudança de mentalidade. Geralmente enxergamos os problemas e as contrariedades como algo terrível, uma fatalidade que só nos atrapalha. Mas você já parou para pensar que tudo só ocorre mediante a permissão divina? Em outras palavras, Deus pode estar te oferecendo uma oportunidade única de mortificação.
Não estou dizendo que Deus “desejou” as tragédias e as desgraças – ao contrário, tudo isso não existia no plano original da criação. Porém, o Senhor tem um poder extraordinário de encontrar coisas boas em meio ao caos. Lembre-se de que Ele transformou a cruz (o pior dos castigos) em símbolo de salvação. Nos dizeres do Apóstolo, “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20).
Significa, portanto, que as contrariedades do dia a dia, se vividas em espírito de mortificação, podem se transformar em um meio valiosíssimo de santificação – mesmo uma unha encravada ou um filho doente durante a madrugada. Santa Teresinha, por exemplo, não deixava passar nenhuma destas “oportunidades”.
Se confiarmos em Deus e nos lançarmos cegamente no Seu Amor Poderoso, poderemos estar tranquilos de que tudo concorrerá para o nosso bem (conforme Rm 8,28), não importando as mortificações que se apresentem. Se formos fiéis, apenas o “homem novo” estará presente no momento do nosso Juízo.
Que a Virgem Santíssima nos ensine a transformar tudo (até as mais insuportáveis contrariedades) em atos de amor a Deus.
Rafael Aguilar Libório
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator



