Todo ano, quando junho se aproxima, o amor parece ganhar uma vitrine. As propagandas, os restaurantes, os presentes, as fotos e declarações nas redes sociais.
Mas nem toda mulher chega a esse mês vivendo um romance. Muitas chegam sozinhas. Algumas por escolha, outras por circunstância. Algumas depois de uma decepção, outras depois de muito tempo sem encontrar alguém com quem valha a pena construir algo. Há também aquelas que desejam sinceramente viver um amor, mas se perguntam por que isso ainda não aconteceu.
Jane Austen e a educação do coração
Em Razão e Sensibilidade, publicado em 1811, a autora fala de sentimentos, expectativas, escolhas, frustrações e amadurecimento. Mais do que contar uma história romântica, Austen observa como as pessoas lidam com o desejo de amar e de serem amadas.
O romance acompanha as irmãs Elinor e Marianne Dashwood. As duas enfrentam perdas, limitações financeiras, expectativas sociais e experiências afetivas marcantes. Marianne é intensa, espontânea e movida por uma confiança quase absoluta na força dos sentimentos. Elinor, por outro lado, é mais reservada. Ela também ama, sofre e se decepciona, mas tenta não deixar que a emoção conduza as suas decisões.
Austen não coloca uma irmã contra a outra como se apenas uma estivesse certa. O que ela apresenta são formas de sentir: o amor precisa do entusiasmo de Marianne, mas também da prudência de Elinor.
Nem todo encanto revela caráter
Marianne se encanta por Willoughby porque ele parece corresponder exatamente àquilo que ela imaginava. Ele é gentil, elegante, sensível, interessado pelas mesmas coisas e capaz de gestos marcantes. Aos olhos dela, tudo parece fazer sentido. Mas Austen conduz a história para mostrar que o encanto inicial, por mais verdadeiro que pareça, não basta para sustentar uma escolha amorosa.
Essa talvez seja uma das lições mais atuais do romance. Um homem pode despertar emoção, criar expectativa e parecer perfeito no começo, sem ter disposição real para sustentar um compromisso. Pode haver afinidade, conversa, atenção e encanto, mas ainda assim faltar verdade.
Por isso, muitas mulheres não sofrem simplesmente porque amaram. Sofrem porque confiaram antes de discernir. Confundiram intensidade com compromisso, interesse com cuidado, promessa com intenção verdadeira. E isso não acontece por fraqueza. Acontece porque quem deseja amar também deseja acreditar.
Ao lado de Willoughby, Edward Ferrars ajuda a ampliar essa reflexão por outro caminho. Ele não tem o brilho imediato nem os gestos marcantes que tanto impressionam Marianne. É discreto, contido e, por vezes, hesitante. Mas sua relação com Elinor revela uma forma de afeto menos espetacular e mais responsável. Edward mostra que nem todo amor confiável chega como arrebatamento; às vezes, ele se apresenta na seriedade, no respeito e na tentativa sincera de agir com retidão, mesmo diante das próprias fragilidades.
Esperar não é fracassar
A espera por um amor não deveria ser tratada como fracasso. Mas também não precisa ser romantizada. Esperar pode ser difícil, principalmente quando existe o desejo sincero de construir uma vida com alguém. Há dias em que a própria companhia basta. Em outros, pesa. Há momentos em que a mulher se sente segura, e outros em que se pergunta se está exigindo demais ou se deveria aceitar menos para não continuar sozinha.
Jane Austen nos ajuda a olhar para essa espera com mais honestidade. Em seus romances, o casamento não é apenas um final feliz. Ele envolve escolhas concretas, segurança, reputação, afinidade, caratér. Amar alguém não é apenas sentir algo bonito. É confiar a essa pessoa uma parte importante da própria vida.
Por isso, uma mulher que espera por um amor não precisa transformar essa espera em vergonha. Também não precisa fingir que não deseja amar. Existe liberdade em admitir: “sim, eu desejo viver um romance bonito, sério e verdadeiro”. O problema não está no desejo. O problema está em permitir que esse desejo conduza a escolhas que ferem a própria dignidade.
Entre a espera e a confiança
Talvez seja essa a contribuição mais humana de Razão e Sensibilidade para o mês em que celebramos o amor. Austen nos lembra que o amor merece ser desejado, mas também precisa ser discernido. Que sentir muito não garante que uma relação seja boa. Que a prudência não elimina o afeto, mas pode protegê-lo de escolhas precipitadas.
O romance não fala apenas sobre encontrar um par. Fala sobre amadurecer a maneira de amar. Marianne precisa aprender que nem toda emoção intensa corresponde a um amor confiável. Elinor mostra que a razão não torna o coração menor, apenas o ajuda a não se perder.
Neste mês de junho, talvez a melhor pergunta não seja por que ainda não existe alguém ao lado, mas que tipo de presença realmente merece esse lugar. Porque estar sozinha pode doer, mas estar mal acompanhada também fere. E há esperas que, apesar de difíceis, preservam algo essencial: a possibilidade de viver um amor que não seja apenas bonito no começo, mas verdadeiro no modo de permanecer.
Érika Tartari
Consagrada Comunidade Católica Pantokrator



