Eu sou o que Deus pensa de mim

Eu sou o que Deus pensa de mim

Vivemos em uma época em que o autoconhecimento nunca esteve tão em evidência. São testes de personalidade, perfis comportamentais, livros, cursos e inúmeras ferramentas que prometem responder à pergunta: Quem sou eu?

Entre esses estudos, o dos temperamentos desperta muito interesse. Descobrir se somos coléricos, sanguíneos, melancólicos ou fleumáticos pode nos ajudar a compreender melhor nossas tendências, nossas facilidades e também nossas dificuldades. No entanto, existe um risco quando o autoconhecimento para por aí: começamos a acreditar que somos apenas aquilo que o nosso temperamento revela.

A sabedoria cristã nos leva muito além disso. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia uma frase que resume toda uma espiritualidade: Eu sou o que Deus pensa de mim. Nessa simples afirmação encontramos uma verdade libertadora. O verdadeiro autoconhecimento não termina quando descobrimos nosso temperamento; ele começa quando permitimos que Deus nos revele quem realmente somos.

O temperamento revela tendências, não o nosso valor

Cada pessoa nasce com um temperamento. Ele faz parte da nossa natureza e influencia nossa maneira de sentir, reagir e perceber o mundo. Algumas pessoas são mais impulsivas, outras mais reservadas. Algumas enfrentam facilmente os desafios; outras refletem longamente antes de agir.

Conhecer essas características é importante. Afinal, ninguém consegue crescer naquilo que desconhece. O autoconhecimento nos ajuda a perceber nossas qualidades, reconhecer nossas fragilidades e compreender melhor nossas reações, mas o temperamento nunca pode ser visto como um destino.

É comum ouvirmos frases como: “eu sou explosivo porque sou colérico”, “sou muito sensível porque sou melancólico” ou “sou acomodado porque sou fleumático”. Aos poucos, aquilo que deveria ser apenas um instrumento de conhecimento transforma-se em uma justificativa para permanecer igual.

A graça de Deus, porém, nunca nos convida à acomodação. Ela sempre nos chama ao crescimento.

Deus nos conhece melhor do que nós mesmos

Existe uma diferença muito grande entre saber como somos e descobrir quem somos. O primeiro conhecimento olha para nossas características. O segundo alcança nossa identidade.

Muitas vezes olhamos apenas para nossas limitações. Vemos nossos pecados, nossas fraquezas, nossos fracassos e acreditamos que eles dizem tudo sobre nós. Aos poucos, passamos a carregar rótulos que pesam mais do que deveriam.

Mas Deus nunca nos olha dessa maneira.

Quando Deus olha para cada um de nós, Ele enxerga muito mais do que nossos erros. Ele vê o filho ou a filha que criou por amor. Vê a pessoa que somos chamados a nos tornar. Vê uma história que ainda está sendo escrita pela sua graça. Por isso, a frase de Santa Teresinha é tão profunda.

Eu sou o que Deus pensa de mim“.

Ela não ignorava suas limitações. Pelo contrário, conhecia profundamente sua pequenez, mas descobriu que sua identidade não estava naquilo que ela via em si mesma, e sim no olhar misericordioso do Pai.

Esse olhar não diminui nossas fraquezas. Ele lhes dá um novo sentido.

O verdadeiro autoconhecimento conduz às virtudes

Conhecer o próprio temperamento não deve despertar orgulho nem desânimo, deve despertar responsabilidade. Quando percebemos nossas tendências, também descobrimos quais virtudes precisamos cultivar.

O colérico aprende a mansidão, o sanguíneo cresce na constância, o melancólico fortalece a confiança e o fleumático desenvolve a fortaleza.

É justamente aí que o autoconhecimento deixa de ser uma curiosidade psicológica e se torna um caminho de santidade. Deus não quer mudar quem somos. Ele quer aperfeiçoar aquilo que criou em nós. A graça não destrói a natureza; ela a eleva.

Olhar para Cristo para descobrir quem somos

O verdadeiro autoconhecimento acontece quando olhamos para Cristo e é diante d’Ele que descobrimos quem realmente somos. Ele nos mostra nossas feridas sem nos humilhar, nossos pecados sem nos condenar. Mostra nossas capacidades sem alimentar nossa vaidade.

Talvez nunca consigamos enxergar em nós toda a beleza que o Senhor vê. Ainda assim, podemos confiar no seu olhar. Ele nos conhece melhor do que nós mesmos e nunca desiste da obra que começou em nossa vida.

Que a frase de Santa Teresinha também se torne uma verdade para cada um de nós: Eu sou o que Deus pensa de mim”.

Quando acreditamos nisso, deixamos de viver prisioneiros dos nossos rótulos e começamos, enfim, a caminhar na liberdade dos filhos de Deus.

 

Vanessa Ozelin
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator

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