Vamos começar nossa reflexão com o apoio dos ensinamentos do Catecismo Maior de São Pio X: “A quaresma é um tempo de jejum e de penitência, instituído pela Igreja por tradição apostólica. A quaresma foi instituída para nos fazer conhecer a obrigação que temos de fazer penitência em todo o tempo de nossa vida, da qual, segundo os Santos Padres, a Quaresma é a figura, para imitar de algum modo o rigoroso jejum de quarenta dias que Jesus Cristo fez no deserto, para nos preparar por meio da penitência para celebrar a festa de Páscoa.” (Catecismo Maior de São Pio X. Capítulo VI, página 159, § 35, 36).
Vimos que nossa motivação, portanto, deve estar voltada para imitar fielmente o testemunho de Jesus Cristo que assumiu nossa humanidade e viveu plenamente o jejum e a penitência. Os apóstolos O imitaram e, assim, também nós somos convidados a imitar essa prática penitencial por tradição e fé.
Eis o grande motivo de viver bem o tempo quaresmal, mas a reflexão não se esgota aqui, adiante vamos perceber algumas atitudes práticas e simples que contribuem muito para este caminho privilegiado de intimidade com o Senhor.
Coragem! Prossigamos…
Estas reflexões são essenciais para compreender a pedagogia da Igreja na minha vida e como estou vivendo a quaresma, que é um tempo em que nos consagramos a Deus, ou seja, entregamo-nos inteiramente a Ele, pois o propósito principal é estar disponível em espírito e vontade para receber as graças de conversão e de santidade em nossas vidas. “Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação” (2 Cor 6,1-2).
O princípio espiritual da quaresma é nos abrirmos para a ação divina e sermos movidos pela graça de Deus, “Porque tudo o que há no mundo – a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida – não procede do Pai, mas do mundo.” (I João 2, 16).
O jejum e a mortificação na quaresma
O ato de jejuar e o ato de mortificar-se são práticas pelas quais combatemos a concupiscência da carne, e que não devem acontecer apenas nas coisas ilícitas ou perigosas, mas de maneira privilegiada, nas coisas lícitas e agradáveis a nós. Tais atos são especialmente favoráveis para este tempo quaresmal, pois eles nos ajudam a alcançar uma maior interioridade e (a) uma vida de oração mais recolhida e silenciosa.
Comece a quaresma recebendo as cinzas e meditando com profundidade sobre a morte, seremos reduzidos a pó, por isso fazemos penitência, porque somos pecadores.
Não percamos a oportunidade de contemplação da cruz de Cristo, seria muito válido se tivéssemos em nossas casas um crucifixo, além da bíblia para meditação diária da Palavra de Deus e água benta para aspergir-se antes das orações. Prepare seu oratório por mais simples que seja.
Deus é simples e profundo ao mesmo tempo!
Seguem algumas práticas que podemos adotar em nosso jejum, por meio do qual combatemos a concupiscência da carne, isto conforme as próprias condições: temos o jejum a pão e água, um jejum só de líquidos, um jejum parcial, etc. Esta prática se dá especialmente às sextas-feiras, quando inclusive se observa a abstinência de carne. Podemos acrescentar nesta prática penitencial algum ingrediente ou alimento que não se aprecia e/ou retirando aquele de que se gosta muito. Podemos também realizar atos de mortificação: como tomar banho frio, dormir sem travesseiro, falar bem ou rezar por aqueles por quem não se tem empatia e/ou identificar os dons destes em vez dos defeitos, buscar o silêncio e falar pouco sempre que possível.
Vida de oração e obras de caridade na quaresma
Intensificar as orações, pelas quais combatemos a concupiscência da soberba, e a esmola, pela qual combatemos a concupiscência dos olhos. Podemos, antes de tudo, zelar por uma vida de oração frutuosa buscando fazer uma boa confissão antes e durante a quaresma em preparação da Páscoa. O estado de graça (estar sem pecado mortal) fortalece o espírito em nossos propósitos: como conseguir rezar o rosário completo diariamente, buscar participar das missas semanais e, se possível, das missas todos os dias.
O casal santo, São Luís e Zélia Martin, pais de Santa Teresinha do Menino Jesus, canonizados em 18 de outubro de 2015, nos dá um testemunho maravilhoso: em diversos livros e relatos, enfatiza que, na vida familiar, é possível imitar a Cristo. Este casal se organizava para ir à missa semanal das 5h da manhã, que era habitualmente um horário em que as pessoas mais simples da época costumavam participar lá em Alençon na França.
Isso nos evidencia um grande sacrifício e desprendimento do tempo de descanso, ainda mais que a família Martin era numerosa e que ambos tinham um trabalho secular. Sempre tinham solicitude para ajudar os pobres e àqueles que lhes pediam ajuda diretamente, nunca lhes negavam atenção.
A exemplo desta família de santos, também nós devemos nos desapegar de tudo aquilo que nos prende. Olhando atentamente, descobrimos em nós sentimentos, inclinações e coisas pequenas que podem gerar atos egoístas, traições e falta de perdão, vontade fraca e inconstância, querer ser sempre servido e acolhido, desejo de ser reconhecido e elogiado, inveja da prosperidade do próximo, etc. Enfim, são tantos pecados ou más inclinações que estão, muitas vezes, escondidos dentro de nós e somente nós podemos entregar tudo nas mãos do Senhor Jesus Cristo.
Propósitos concretos, como ajudar o próximo com meus dons seria algo bem edificante. Por exemplo, se eu tenho um dom para a culinária, eu posso doar meu tempo e os alimentos para preparar e servir a alguma família necessitada de minha paróquia; posso visitar os doentes e rezar pelos que passam por necessidades; posso aumentar o tempo de adoração ao Santíssimo Sacramento; doar algum bem material ao qual eu me vejo muito apegado; doar também não apenas o que me sobra ou que seja usado, mas algo novo.
Reflitamos aqui, pedindo a graça da verdade sobre nós, sobre como estão os nossos propósitos e como estou vivendo cada um deles.
Meditar a Palavra de Deus
Para combater o bom combate como nos disse São Paulo Apóstolo, sem dúvidas, o conhecimento da Palavra de Deus é uma arma de todo cristão batizado, contudo, não apenas conhecer a Palavra, mas torná-la viva na própria vida, permanecendo n’Ela constantemente.
O tempo da quaresma é propício para crescermos neste propósito. Busque a leitura meditada de algum livro completo da bíblia durante todo o tempo quaresmal, em especial do Novo Testamento. Identificar algum trecho que ressaltou ao seu coração e rezar com este trecho ao longo do dia e em resposta a tudo aquilo que surja, momentos bons ou desafiadores.
Esta meditação deve nos levar ao louvor e a um coração agradecido porque Deus é maior que todas as coisas. Mesmo que aquilo que queremos não aconteça imediatamente ou nem venha a acontecer, pela permissão divina, as situações surgem para que sejamos salvos e felizes ainda nesta terra.
Querido irmão, compreendamos que a constância é um ato mais importante do que a quantidade de propósitos. Defina seus propósitos em oração, Deus sempre está agindo em nós.
Elisabete Santos
Discípula da Comunidade Católica Pantokrator



